sábado, 1 de maio de 2010

A escolha











Fernando Portela*

O caminhão rodava enlouquecido pela estrada de terra. De um lado e de outro, somente cana, cana verde, cortada, queimada. Estranho que não se vissem bóias-frias por ali.

João Feitosa, o motorista, pequeno, entroncado, de barba negra e crespa, tinha a sensação de que a máquina adquirira vida própria e chegaria sozinha a Barra do Santo Ofício, um lugar miserável, sessenta quilômetros adiante. O sol se recolhia muito cedo naquela região, e o homem já ouvia o piar agourento dos ferrabrases, que soava como se eles fossem pequeninos sinos de igreja. Negros e ágeis, os soturnos pássaros cruzavam com freqüência a frente do veículo – um jogo perigoso, quase suicida. Mas nenhum deles jamais se esborrachou no pára-brisa.

O homem lembrou-se de seu primo Misael, que teve os olhos comidos pelos ferrabrases, nem um ano fazia, ao desafiá-los na hora sagrada do crepúsculo: “Venham me pegar aqui, seus miseráveis, mas não fiquem tocando esse sino na minha cabeça!”.

Os pássaros atacaram em bando e fizeram do rosto de Misael uma placa de sangue. Misael urrava no chão, coberto de bicos e de penas negras, vivas, endemoniadas. (Quando lhe sararam as feridas, já de bengala, Misael dissera que seus gritos não tinham nada a ver com dor física; eram de desespero, de lembrar-se das paisagens que vira, das mulheres que desnudara com olhos de desejo, da ilusão provocada por certos caminhos na caatinga que pareciam findar em abismos celestes.)

João Feitosa tentava tirar da mente a cena monstruosa, que ele testemunhara junto a seu Pousada e a Margarida Matão, gente de Santo Ofício que andava por ali de visita.
“Castigo do Senhor”, disseram os vizinhos, a família Andrade, uma das poucas dali que não cultivavam a erva proibida.

O pai de João Feitosa, Zeca, também não caíra na tentação de plantar a erva. Isso só os pecadores faziam. Zeca Feitosa já advertira, inclusive ao filho, que os Anjos poderiam perseguir, com suas espadas brilhantes, todos aqueles que insistissem com as roças.

Mas ali não havia escolha: era a erva ou a miséria. Os Andrades, coitados, não pecavam, mas viviam de favores do governo e dos vizinhos, as meninas da família vendendo os corpos a partir dos doze anos, na beira das estradas.

“Nem sempre a lei do Senhor coincide com a lei dos homens”, sentenciava Zeca Feitosa, para quem havia sempre uma chance de o Senhor perdoar os maus, até os reincidentes. Até os plantadores da erva.

Mas um pecado puxava o outro. Quem plantava, acabava também por consumir. Misael começara mascando as pequeninas folhas verdes, que lhe tiravam a fome, e lhe provocavam um barulhinho na cabeça. Depois, tomou o chá grosso; mais adiante, comeu a pasta feita das folhas maceradas, a forma mais poderosa, e começou a sonhar antes de dormir. No começo, sonhava apenas com mulheres. Depois o mundo todo virou um sonho.

A partir daí surgiram as imagens sem dono, como São João do Carneirinho, no meio do curral, e os mortos da família, junto a outros mortos desconhecidos.

O mundo de Misael dobrou; se encheu de gente nova e de palavras que lhe saíam da boca sem que ele pensasse nelas. Até que aconteceu o episódio dos ferrabrases. João Feitosa viu os pássaros, o sangue, a cena inteira. Seu Pousada e Margarida Matão estavam lá, também, mas negaram o que João viu. É claro: desde que começara a beber o chá grosso, João Feitosa passou também a conhecer os outros mundos.

“Misael caiu no chão, doido, e furou os olhos com os dedos”, insistia seu Pousada.
“Nunca vi diabo pior do que aquele que tomou o corpo de Misael”, completava Margarida Matão. “Talvez porque Misael seja nome de Anjo de Deus”.

Essas cenas ficavam se repetindo na cabeça de João, enquanto o caminhão saltava, em alta velocidade, dirigido por um demônio qualquer, talvez ele mesmo, quem saberia dizer? Mas ele nem dirigia... não precisava tocar no volante. Podia fazer de tudo, ali sentado no lugar do motorista: deitar no banco inteiriço; abrir a porta e provocar os ferrabrases, que continuavam a voar sobre o veículo; ou gritar pelos bóias-frias que se haviam escondido no meio da cana. Podia fazer de tudo: o caminhão continuaria voando na estradinha do canavial, animado por alguma força inumana.

“Eta mundo”, pensou João Feitosa, coçando a barba muito crespa, muito preta. “Quando aparece coisa boa, como essa plantinha bendita, aparece demais da conta. Ou não se goza nada na vida, só se passa fome, se pede esmola e se endoidece de dor, ou, pelo contrário, os sonhos bons exageram e tomam conta da gente... Não tem escolha.”

O caminhão entrou, sem reduzir a velocidade, na única curva que surgiu na estrada. Daquele jeito, João Feitosa iria chegar a Santo Ofício muito cedo, antes de escurecer. Ele já planejara sua noite de delícias: comeria as dez putas da zona, uma a uma, enfileiradas diante da sua cama. Depois, poderia até morrer, que não faria a menor diferença.

*fatportel@gmail.com