domingo, 23 de maio de 2010

Gol de placa











Eduardo Sigrist*

Ouvi até o final os gritos de meu chefe e saí do escritório. Pela última vez. Nada como um seco grito de “Rua” para encerrar dez anos de dedicação à adorada empresa. Desci as escadas irado, ainda mais depois de notar a chuva e me lembrar do guarda-chuva esquecido lá em cima, sobre minha ex-mesa, ao lado de meu ex-computador e de minha ex-caixinha de clipes usados e enferrujados, como para avisar ao coitado que ocupasse aquele espaço nos próximos dias que ele também poderia ser escorraçado a qualquer hora, ser excluído do tal mercado de trabalho e ter de fugir para a rua no meio da chuva, como um vira-lata a revirar nas lixeiras das agências um novo subemprego que lhe desse a chance de roer um osso que não fosse o dele mesmo.

Bem, eu não ficaria ali parado, nem subiria para pegar o guarda-chuva, pois nos dois casos corria sério risco de ver meu chefe pela frente, e eu temia o resultado desse encontro. Saí e fui andando pela calçada, sentindo, no gelado da água, florescerem den-tro de mim as mais negras impressões. Sempre fui pacato, um ser que não faria mal a uma moça. Mas naquele momento tudo era nebuloso.

Éramos milhares de cidadãos saindo do serviço no final da tarde, enfrentando as ruas encharcadas apenas para chegar em casa e ver na TV um repórter mastigar as mesmas ladainhas sobre o congestionamento. Ao menos se ele filmasse algo mais inte-ressante, como o bambolear daquela perua que atravessava a rua, sacolejando seus e-normes peitos de chiclete sob uma blusa transparente. Ou aquele respeitável executivo que se protegia da chuva debaixo de uma mala de couro, onde deveria haver dólares, notas fiscais, relatórios, catálogos ou uma coleção de lingeries vermelhas e acessórios sadomasoquistas.

Em meio a tantos idiotas, na outra calçada seguia um garoto, lá pelos 8 anos, que ia pisando em todas as poças de água, o guarda-chuva preguiçosamente fechado debaixo do braço. Ele marchava sobre o meio-fio, equilibrando-se, e pouco ligava para os moto-ristas que passavam lambendo a sarjeta e buzinando contra sua dança despreocupada. O guarda-chuva, um modelo pouco sóbrio feito de tecido amarelo, agora era um útil con-trapeso e um perfeito par para aquele minguado Gene Kelly de boné verde e bermuda roxa.

Esqueci o frio e as ofensas do ex-chefe, e nem me dei conta de minha deprimen-te figura, com os raros cabelos sem cortar tecendo uma malha disforme colada sobre minha calvície. Eu estava tão absorvido naquele espetáculo que acabei atravessando a rua e seguindo o garoto, e até me desviei de minha rota habitual quando ele virou uma avenida à esquerda que nos levaria para o lado oposto ao da minha casa.

A chuva estava mais fraca. A brincadeira nas poças fora substituída por uma lata de refrigerante abandonada, que agora servia de bola de futebol. E o garoto a chutava longe, depois fingia driblar um marcador imaginário, e logo começou a narrar as joga-das, imitando os jargões de um apresentador da televisão. Ele gritava, comemorava os gols, às vezes dizendo uns palavrões bem cabeludos, daqueles que só os meninos autên-ticos conhecem.

Eu ia atrás, e é claro que ele percebeu minha perseguição. Em vez de fugir, co-mo se alertado pela distante voz de uma mãe neurótica, voltou-se para mim, jogou a bola metálica entre minhas pernas e chutou-a para longe, com um grito: É gol de placa! Depois de agradecer a uma imaginária torcida que o aplaudia, passou a caminhar ao meu lado, já esquecido da lata.

O senhor é palmeirense? Não, eu não era palmeirense. Ele nem quis saber meu time. Se eu não era palmeirense, não devia entender muito de futebol. E disse que ele, sim, torcia para o Palmeiras. E adorava o Edmundo. O senhor vai ver, hoje o Edmundo vai detonar aqueles bostas. Não perguntei quem eram os bostas. Meu pai vai me levar pro Palestra à noite. Ele não torce pra ninguém. Gosta só de corrida. Mas ele sempre vai comigo, ganhei até a camisa do Edmundo. O seu pai leva o senhor pro campo? Respon-di que meu pai já tinha morrido. Puts! Ele era palmeirense? Santista. Ah! Velho é tudo santista. Palmeirense é esperto! Sabia que tirei A de matemática? O Tiago tirou D. De-pois ficou quieto, entediou-se com minha muda companhia e saiu correndo, tentando derrubar um marimbondo com o guarda-chuva.

Ainda o segui mais um pouco, mas logo o perdi de vista e comecei a sentir frio. Entrei numa padaria e pedi um café. Amargo. Eu já estava melancólico novamente. Queria também ter um guarda-chuva amarelo, queria também admirar o Edmundo ou qualquer pessoa. Não admirava ninguém, nem a mim mesmo. Talvez admirasse apenas o garoto, sua energia, sua vitalidade. Eu sabia que em breve ele seria mais um como eu, ou como o executivo da mala de couro, afinal vamos todos nos embrutecendo com o tempo e nos desviando das poças de água, como se elas pudessem macular ainda mais nossa alma mercenária. Mas, ainda assim, havia uma espécie saudável de provocação e ousadia naquele corpinho mirrado que desafiava o futuro e me fazia acreditar no ser humano.

A voz de uma moça que acabara de entrar cortou meu pensamento: “Um menino de guarda-chuva amarelo”. Ela conversava com o rapaz que fazia o cafezinho. “Mor-reu?” “Na hora! O ônibus passou por cima. Espalhou os miolos. Tá assim de gente o-lhando.”

Engoli o café e saí.


No dia seguinte acordei e liguei a TV para ver o jornal da manhã. Não queria procurar emprego, não queria sair de casa. A chuva me trouxera uma gripe fortíssima. Na tela, as más notícias de sempre: um ministro flagrado recebendo milhões de um em-presário; mais um resultado vergonhoso na avaliação das escolas brasileiras; um garoti-nho de 8 anos atropelado no centro da cidade. O semblante do apresentador, carregado e sombrio pela tragédia, se desanuviou a seguir, ao comentar, eufórico, o golaço marcado pelo Edmundo na noite anterior: “Um gol de placa!”

*eduardosigrist@gmail.com