domingo, 2 de maio de 2010

Livros modo de usar











Paulo Lima*

Certa vez Fernando Sabino escreveu uma crônica sobre os vários tipos de leitores. Os que começam um livro e não terminam. Os que começam examinando o final do livro. Ou o meio. E vão finalmente para o início. Os que começam um livro e conseguem terminá-lo, para só então partirem para outra leitura.

É uma crônica deliciosa, com o charme e a vivacidade que só Sabino sabia imprimir. Há nela, mais do que mero esforço para catalogar os tipos de leitores, um genuíno interesse pelos livros e pela leitura.

Assim como não lembro o título da crônica, não lembro também que tipo de leitor era Sabino. Certamente não era nem um pouco parcimonioso. Homem de andanças, de vastos conhecimentos e dono de editora, a Sabiá, que fundou juntamente com Rubem Braga, devia sempre ter um livro por perto.

Não lembro dos pormenores da crônica. Mas sim da sua essência. E nela Sabino refletia sobre um problema: a escassez de tempo para conseguir dar conta de tantos livros. Isso na década de 1960, quando, supõe-se, a vida ainda não havia atingido o ritmo frenético de hoje. Nem o livro tinha sido alçado à condição de mero produto, como sabonete ou detergente. E a indústria editorial não atingira níveis sofisticados como agora.

Basta dar uma olhada nas livrarias. Nas editorias de cultura de revistas, jornais, blogs, sites etc. Um número muito grande de novos livros é lançado a cada dia. E quem é viciado em livro, ou encontra no livro uma fonte segura de prazer e conhecimento, que dê tratos à bola para se manter atualizado.

Simplesmente não dá para comprar tudo que é lançado, nem mesmo aqueles livros que nos interessam mais profundamente. Nem há também dinheiro suficiente. Quem tem muito dinheiro se dedica a coisas outras, não a livros. E, por mais que desejemos, não dá pra viver só de leitura. Nem a vida é apenas uma enorme biblioteca, como queria Borges.

O jeito é nos contentarmos com uma ilusão: num dia incerto, sempre situado no futuro, poderemos nos dedicar a todos os livros que acumulamos em estantes já abarrotadas, empilhados em mesas, cadeiras e escrivaninhas. E até no banheiro. Sim, banheiro. Tinha uma amiga, leitora voraz, que deixava livros até no banheiro de sua casa, para que ali, na solidão dos atos excretores, pudesse ler um pouco mais.

O fato é que a nossa gula está sempre adiante da nossa capacidade de ler. E utilizaremos várias estratégias para ler o que for possível, não importa por quais caminhos. Tal como na crônica de Sabino.

Joe Queenan, um jornalista e crítico do The New York Times, é o que se pode chamar de leitor acima da média. Muito acima. Ele costuma se dedicar a muitos livros num dado período de tempo, pelo menos a 27 deles. Claro que nem sempre consegue concluir todos. Então entra em jogo seu método. Nem que demore muitos anos, ele não desiste de um livro.

Queenan talvez seja não apenas o protótipo de um megaleitor, mas de um leitor persistente e fiel. Podemos tentar adotar seu método, mas se vê que é preciso uma grande dose de força de vontade. O leitor, mesmo o mais apaixonado, é por princípio um infiel. Basta que um livro o desagrade um pouco, basta que um parágrafo perca intensidade e charme, para ser trocado por outro mais jovem e sedutor.

E hoje temos um complicador, que não existia na época de Fernando Sabino. A internet. Uma avalanche de informações. Um tsunami. Um poderoso distrator que, queiramos ou não, rouba o tempo que poderia ser dedicado aos livros.

Claro, podemos computar o tempo gasto na internet como tempo também voltado à leitura. Há coisas maravilhosas e profundas na rede. E isso conta, isso vale. Mas algumas horas diante do écran subtraem nosso tempo de leitura de algum bom livro. Ponto pacífico. Quem há de negar?

A internet veio alterar nossos modos de leitura. Hoje, a leitura na poltrona (tomo a imagem de empréstimo do escritor José Castello) soa como um purismo fora de moda. Ela é feita de modo fragmentado, interrompido, que leva muito mais tempo para ser concluída, e cujo cenário pode ser um banco de ônibus, de praça, de metrô, ou a antessala de um consultório ou uma fila de banco.

Eu prefiro a poltrona, o aconchego de um lugar sossegado que me permita perder-me num bom livro. A leitura requer esse tipo de imersão, de distanciamento do burburinho da vida lá fora. Afinal, se um escritor passou tanto tempo pensando na solução para uma frase, como acreditar que podemos compreendê-la mediante uma leitura apressada?

No livro Para ler como um escritor, a americana Francine Prose ensina que podemos aprender com os mestres da literatura. A própria Francine nos indica trilhas preciosas para a interpretação e leitura de vários autores, clássicos e contemporâneos. Mas esse aprendizado pede uma leitura atenta e vagarosa.

O método de Francine está mais para a leitura que se faz na quietude da poltrona, em silencioso diálogo com as obras e seus autores. Ele representa uma espécie de subversão do ritmo atual, pautado pela pressa e pela superficialidade.

Para o leitor que ainda é capaz de se dedicar a um bom livro, pelo simples prazer ou pela necessidade de descobrir novos mundos, sempre haverá algum tempo para a leitura. Não importa que mágica ele tenha que fazer para multiplicar seu tempo. Esse não é o problema. O problema são os que não leem, e para esses não há salvação.

*paulo_val@uol.com.br