sábado, 22 de maio de 2010

Madrugada











Cristiano Silva Rato*

Atravessamos na madrugada a orla dos pesadelos. O sonho, nitrato, descompasso dos ares, olhava arbitrariamente os feixes de luz. E nada além do céu me espantava. Há amores que dormem. Nas raízes corpulentas, trepadeiras. Cresciam em volta da ganância. Nunca parar. Nunca ter fim. As escadas escancaradas da meia-noite envolviam os turnos de sanidade. A mente estava dispersa como um corpo, sólido, mente pra si mesmo. Frequências do passado me maltratam. Quero hoje sair para o alento e ser fumaça no campo da psique, mais uma merda na esquina, defecada ao relento.

E nesta noite desbravava a serpente, a cidade. Nossas veias se entupiram com várias moléstias. Conseguimos abraçar a insanidade e a ela desafiar. O abismo ronda as plenitudes. O carrasco cobra o preço pela foice afiada. A execução é um prazer. Os bispos e o papado ordenaram, abriram as portas e, no corredor, a fé expunha-se aos prazeres do gozo antes da decapitação. Enquanto o eixo não foto-grafável tornava-se mais maduro (e a visão mais turva), acreditávamos nas mentiras produzidas, produto do descaso, rancor de acordar.

As vidas nas vidraças açoitadas, corroídas, a mão a construir des-figuras.

Não espere aprovação e negação. Agora sei: as células estão corrompidas. Silêncio, prazer, descaso. Orações não surtem mais efeito, mas um chá de coca ou outro trópico ou mesmo um alucinógeno poderia inebriar as falas falaciosas, verborrágicas como vozes de deputados e outros sujeitos enlameados e enleados.

*cristpsilva@gmail.com