sábado, 22 de maio de 2010

Música no coração das palavras











Joaquim Moncks*

O que torna "primário" o discurso poético não é a comoção inerente ao "sentir" e, sim, a mera e ingênua tradução desta sensação. O sentimento aflorado favorece, apenas, a entrada em “estado de poesia”. E este se derrama no processo criativo da “inspiração”.

Porém, essa matéria disforme, banhada de emoção, que pode levar às lágrimas o seu autor, ainda não é o poema. Nesse instante, ele é a confluência do intimismo, o átimo de absoluta solitude, fruto da personalíssima possessão de seu criador, a sua concepção vivificada no real: o “dar à luz” do embrião. Pode até ser portador de alguma poesia, mas ainda não é a própria Poesia.

“Meu coração é um balde despejado”, disse Fernando Pessoa, para tentar caracterizar o estágio inicial da criação.

É esse o momento em que o poema vem ao mundo dos fatos: o seu cadinho de compulsivas emoções, carências traduzidas, ausências, desejos materializados no versejar da embrionária poesia, no dulçoroso palavreado da prosa poética. Mas não é o de seu registro definitivo – o da lavratura de sua certidão de nascimento – e que se dará mais tarde, bem mais tarde...

O desafio para o escritor é este traduzir dos sentimentos, em linguagem que proporcione prazer e produza no outro polo – o leitor – a comoção, o alumbramento, a sensação de gozo, de beleza, de novidade frente ao lugar comum da vida.

Muitas dessas compulsões sentimentais não chegam a este grau de alumbramento textual e servem somente para curar as feridas de seu autor.

Dessa sorte, nem todos os conceptos de poemas chegam à Poesia. É o exercício da intelecção que fertiliza a beleza original em Poesia, traduzida no relato do sentir: lampejo que vai à cabeça, através da percepção do texto, e remete o leitor à compulsão do seu autor, lá na origem dos sentires.

E é a intensidade do relato poético que vai aproximar o similar até a primitiva originalidade.

Repete-se a cena original em novíssimos matizes: a água do "balde de sentimentos" se despejará nos segundos seguintes sobre a cabeça e o coração do leitor. E os versos se abrirão em múltiplas perspectivas...

O poema – que é a manifestação da Poesia em palavras – é trivial transfiguração da matéria da vida, ao seu tempo. Porém, os eventuais requintes de beleza produzem a sua permanência nos jardins da posteridade artística.

É a cabeça do autor quem escreve, e isso é o que vale para a criação estética. É nela que surgirá a dança verbal, música no coração das palavras.

– Do livro "Dicas sobre poesia", 2009/10.
Publicado também no Recanto das Letras

*joaquimmoncks@gmail.com