sábado, 22 de maio de 2010

A obra-prima











Eduardo Sabino*

A cria nasceu e roubou-me a ação. Brotou do húmus de terra obscura. Não encontrei laços para reivindicar um pedaço sequer. Convenceu-me ser ela um céu de dezembro, viva além do Limbo que lembro (a aura infinita das coisas giratórias). Ela não sabia, porém, que, como intermediário dos deuses, decido o vai e vem das estrelas rebeldes da memória (e daquelas amigas das horas). Se a obra ficasse, eu seria foca a obedecê-la. Se fosse, iria pela faca da ira.

Soberana, exibia formas entre a ruptura e o convencional. Sobre-humana, fazia-se templo suspenso nas águas. Tinha algo de Ivana e dos cabelos lisos humilhando os pentes. Algo das mulheres cheirosas e serpentes. Nasceu no início de outro, no fim de mim, pertence agora ao mundo e dispensa comando.

Deslizei muitas nuvens até cair na lava do real. Novo uma ova. Já vi objetos do tipo no topo dos rankings, nas grandes galerias e microalegrias do mundo artístico.

Doeu-me a descoberta, esta ferida aberta no futuro. Fiz releitura débil, simples atadura para corte profundo. Resgatei almas ou sequestrei carcaças no cemitério do tempo?

Levantei do trono com a trena interminável de medir fracassos. Eis-me sobrevivente de viagens das quais só trazemos embalagens: um bigode áspero na Monalisa, uma cópia reta da Torre de Pisa, um tubarão mergulhado em formol...

Oh obra de arte, não me olhe com este olhar frágil. Você é capitã de um navio de sonhos e me parece certa do naufrágio. Ordenar que não me olhe assim, com expressão moribunda, é pedir demais?

Talvez este tenha sido o plágio: possessão de moinhos-de-vento e cachorros sem dono.

Lancei o olhar definitivo na escultura de barro, obra-prima imune a terremotos, pronta para se dissolver no menor sinal dos redemoinhos.

Carga difícil de ser suportada...Com uma janela apagada, outra acesa – olhos repartidos pela partida –, finalmente apertei a descarga.

*eduardosabino1986@yahoo.com.br