domingo, 23 de maio de 2010

Rascunhos do Absurdo











Jorge Elias Neto*


A poesia começa assim

Emprenhar-se de miudezas;
deixando as mãos rendidas aos gestos costumeiros.
E quando a luz se aperceber, desmembrada
pelo estalo da palavra,
jogar-se nos trilhos
para salvar a flor.


Polos

Para Gabriel

Meu pai vestia uma pele
de sonhos amarrotados.

Tardava horas campeando pequenos nadas.

Grande colecionador de figurinhas,
trazia colada nos olhos
sua fortuna de desejos.


A dor do corte

Violei o túmulo de minha mãe antes da sua morte.
Dilapidei o que já eram escombros.

Cobrei dela as palavras
com que me lavava os cabelos.

A palavra “verdade” – por exemplo.


Esses poemas integram o livro Rascunhos do Absurdo, lançamento da Flor&cultura Editora.

Jorge Elias Neto (1964) é médico cardiologista, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. Livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. - 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010). Participações com poemas em vários blogs, no Portal Literário Cronópios e na revista eletrônica Diversos-afins. Blog: www.jeliasneto.blogspot.com E-mail: jeliasneto@gmail.com