domingo, 2 de maio de 2010

Sinfonia











Abílio Pacheco*

Por conta de crescente aperto nas finanças, pouco a pouco tiveram que se desfazer dos móveis e utensílios, a começar pelos menos essenciais. Até que venderam o piano de gabinete, que ocupava espaço, mas preenchia o tempo vão com ledos solfejos e suaves sustenidos.

No lugar, puseram uma mesa sem graça de madeirite a esgarçar-se. Nela, a pianista se punha como antes. Nos mesmos horários, deslizava os dedos – com a costumaz habilidade – pela superfície de teclas imaginárias. Inclinava a cabeça, fechava os olhos, balançava o corpo, às vezes cantarolava, mas na mesa não resvalava, tocava ou triscava.

Os demais da casa mantinham a mesma rotina. Punham-se calados ao chá ou café, ao tricô ou crochê, ou apenas folgavam deveras ao som do instrumento ausente.

Não custa que logo, logo, empolgada e distraída, a moça tocou mais forte o teclado. A melodia inebriou mais ainda os presentes. As notas trouxeram não sei que contentamento. Preencheu espaços da casa e transbordou pela confusa e incrédula vizinhança.

Conto integrante da Antologia Literária Cidade, Volume III, organizada por Abílio Pacheco e Deurilene Sousa.

*Abílio Pacheco é professor na Universidade Federal do Pará (UFPA) e líder do Grupo de Pesquisa Narrativas de Resistência (Narrares). Publicou Poemia (poesia – semiartesanal) em 1998; Mosaico Primevo (poesia) em 2008; e Riscos no Barro: ensaios literários (2009). É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá) e um dos organizadores da Antologia Literária Cidade.