sábado, 7 de agosto de 2010

A cópia











Fernando Portela*

Doutor Acosta tinha vinte e cinco anos de experiência policial e, claro, já vira de tudo em matéria de miséria humana, loucura, desfaçatez. Vira também a tortura, a corrupção e a selvageria fascista dos prepostos da ditadura, mas isso ele preferia não lembrar jamais, até porque esquivara-se de questionar.

Era honrado e cristão, talvez um pouco perturbado por uma certa culpa diante de omissões: quando, por exemplo, seu colega Victor Moreno matou um preso a socos e todos por ali fingiram não perceber. Mas suas defesas emocionais lhe diziam, insistentemente, que a missão policial é incompatível com a revolução, ou mesmo com a reforma moral do mundo cruel. Polícia executa ordens.

Jamais vira, no entanto, algo parecido com aquilo à sua frente: quatro rapazes de pouco mais de vinte anos e uma moça da mesma idade, filhos de pais muito conhecidos, um deles ex-ministro do Tribunal Municipal de Contas. Presos, humilhados, aqueles jovens não pareciam perceber a gravidade da situação; sorriam, beatificamente.

Jamais imaginou, o doutor Acosta, que o delírio religioso pudesse prosperar na classe média alta. Ele estava mais acostumado com os bêbados, drogados e estupradores ricos. Não cansava de comentar, com seus colegas e com um ou outro jornalista de confiança, que as taras da elite são muito mais assustadoras do que as do povo.

Virou-se para Marcos Fernando, exatamente o filho do ex-ministro, e que parecia ser o líder da turma:

“Não sei o que fazer com vocês, rapaz. É um crime sério, violação de sepulturas...”

“O senhor deve fazer o que sua consciência mandar”, disse Marcos Fernando, com voz de Jesus de filme dublado de tevê. “Talvez a divulgação da nossa prisão, e dos nossos motivos, faça despertar a consciência das pessoas, e a gente consiga, antes do que imagina, atingir o objetivo.”

“Olha, garoto, tudo bem, eu entendi que vocês querem clonar o Menino Ariel, e para isso precisam de material genético; também é lógico que este material esteja nos restos do Menino, OK, OK, mas clonagem é uma técnica complexa. Quem iria fazer isso para vocês?”

Marcos Fernando apenas sorriu, docemente, mas foi Christine, que era tão linda como louca, que respondeu:

“Não lhe diremos nem sob tortura, doutor Acosta. Mas o senhor não deveria duvidar da capacidade dos jovens brasileiros.”

“Bem, já sei que é jovem e brasileira a face científica do grupo”, pensou o delegado. “Ou então esta garota é muito viva e está me dando uma pista falsa”.

“Tá bom, tá bom!”, ele desabafou, dirigindo-se a todo o grupo e parecendo encerrar o assunto. Na porta da sala, o policial Alcântara, que lavrara o flagrante, permanecia de
pé, como se esperasse uma recompensa por caça tão nobre. O delegado fez um sinal para que o policial se retirasse. Iria resolver aquele caso politicamente, o que não era de seu feitio.

Mas devia pensar.

O Menino Ariel morrera de crupe no começo do século passado e desde então as romarias ao túmulo aumentavam a cada ano. Todos os dias, flores frescas enfeitavam a pequena tumba de mármore. No último dois de novembro, uma multidão difícil de calcular atravancara o pequeno cemitério no centro da cidade. Todos os jornais, perplexos, noticiaram.

Na própria família do delegado, ele relembrou, haviam-se registrado duas intervenções do Menino Ariel: uma prima sua fora liberta de um câncer devastador, sem que tivesse havido qualquer explicação científica; e o tio João livrara-se do alcoolismo. Milagres, sem dúvida. Sobretudo o que tirou o tio João da cachaça.

Doutor Acosta ficou andando, de um lado para outro, em frente ao grupo que continuava de pé, apesar das cadeiras que lhe foram oferecidas, e sem quaisquer sinais de tensão, apreensão.

“E vocês acham mesmo que o clone do Menino Ariel, redivivo no século vinte e um, cumpriria as mesmas funções do seu... antecessor?”

“O senhor sabe a resposta”, disse Hermes, um outro do grupo, louro de cabelos finos e longos.

“Não, não sei!”, protestou o policial. “Ou melhor: eu me inclino a responder que não, que vocês estão loucos, misturando tecnologia de ponta com misticismo primário.”

Disse isso e foi procurar o policial Alcântara, que não parecia conformado de ficar do lado de fora.

“Alcântara”, falou o delegado com sinceridade, “acho que você está prestes a concluir o caso da sua vida.”

“Você vai ficar de olho nesses caras”, foi explicando o doutor Acosta, “que em pouco tempo eles vão levar você ao louco que teria condições técnicas de fazer uma clonagem. Talvez um biólogo.”

“O senhor vai soltar eles, doutor?”

“Vou, porque o importante é encontrar o executor do crime.”

“Violar cemitério é crime, mas clonar também é crime?”, perguntou Alcântara, bem mais esperto do que parecia.

“É, sim.” Doutor Acosta correu de volta à sala.

“Meninos, vocês estão soltos. Tiveram muita sorte porque era meu o plantão.”

Os três não tiveram qualquer reação e foram saindo.

“Meu Deus”, disse a si mesmo o policial. “Os ricos que estupram crianças, que se embebedam de madrugada e atropelam pessoas, ou que cheiram pó, tomam LSD e fumam ópio estão se transformando em criminosos românticos. Daqui a pouco vamos ter saudades deles”.

Doutor Acosta concluiu que nem o Menino Ariel, milagroso ingênuo do começo do século vinte, teria paciência de enfrentar todas as formas contemporâneas de delírio humano.

O delegado fechou-se na sua sala, concentrou-se, rezou um Pai-Nosso, e pediu ao Menino Ariel que livrasse a sua família, sobretudo os seus futuros netos, do inferno que está por vir no nosso planeta. Depois, como sempre fazia quando rezava, pediu pelas almas daqueles que viu morrer, na tortura, e não denunciou, em nome da lei e da ordem.

Do livro Allegro – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

*fatportel@gmail.com