sábado, 7 de agosto de 2010

Outono de 1970











Duílio Gomes*

Quando o marido lhe confessou que a traíra com sua melhor amiga, ela apenas ouviu. Muda e sem cor. Ele gritou, "Não vai dizer nada? Não vai me esbofetear ou falar uma série de palavrões ou rasgar a roupa?" Ela continuou muda. Apenas olhava no fundo de seus olhos. Estava sem cor e sua respiração se alterara. Ele a olhou sem acreditar e saiu batendo a porta. Ela foi até a geladeira, encheu um copo de água, bebeu sem sede, abriu a porta da sala e também saiu.

Na rua, outono. Folhas secas pelo chão. Folhas mortas. Tudo morto à sua volta. Desceu a avenida Afonso Pena, entrou no Parque Municipal resplandecendo de luz verde e sentou-se perto do lago. Algumas pessoas remavam. Ela encheu os pulmões de ar e ficou pensando em sua amiga. Sua melhor amiga com o seu marido. Na casa dela,  no carro, nos motéis .Toda paixão proibida, dizem, é arrebatadora  e tem alguma coisa de inferno à sua volta, não um inferno refrigerado mas transbordante de chamas em volutas, de chamas que atraem chamas, de fogo explodindo pelas entranhas, membros, por todo o corpo, pelos dois corpos unidos como um só. Depois, ofegantes, eles se beijarão longamente. O teto de espelhos irá refletir seus corpos amantes e as águas da banheira de hidromassagem, perfumadas e em ondas de espumas,  lavarão seus corpos de possíveis pecados. Mas quem ama não peca, eles sabem.

Águas. As do lago são turvas. Folhas secas de outono boiam nelas, com brilhos de chocolate. Um capricho da natureza. Puro impressionismo. As águas chamam , as águas pedem. Seu corpo é atraído por elas. Entrar na água, andar até perder o chão, afundar, debater-se, atravessar outra dimensão. A expressão mundo cruel passou como um raio pela sua mente. Ela já estava se afogando quando o rapaz parou seu barco ao lado dela e puxou-a para dentro. Os lábios dele sugaram os dela e a água suja do lago saiu, aos borbotões. Algumas pessoas estavam na margem do lago olhando os dois. "O rapaz é um herói, salvou a moça",  alguém comentou. Depois se dispersaram e o rapaz levou o barco até a margem esquerda. Sentados sob uma árvore, ficaram mudos por um instante mas em pouco tempo já sabiam tudo um do outro. Ele era solteiro, um pouco mais novo do que ela e morava ali perto. Queria tomar um café em sua casa?  Seu café era famoso no prédio. Foram. Ela estava molhada e tiritava de frio. O café ajudou-a  a  reencontrar o calor do corpo. Ele veio do quarto com uma grande e felpuda toalha azul. Vá ao banheiro e coloque-a, sugeriu ele. Que mulher bonita, ficou pensando enquanto ela fumava, embrulhada na toalha azul. Ele bebeu uma dose de uísque, ela bebericou uma cerveja long-neck direto nos lábios. Ele colocou um cd de música romântica pra tocar e de repente já estavam na cama do rapaz. "Foi a melhor noite de minha vida", ela contaria depois para a sua melhor amiga. Uma outra melhor amiga.

*Duílio Gomes  é  autor de seis livros de histórias curtas. Nascido em Mariana, MG, integrante da Geração 60, surgida naquela década com o Suplemento Literário de Minas Gerais sob a liderança editorial de Murilo Rubião, Duílio Gomes tornou-se referência nacional como contista ao vencer prêmios literários de importância, como Minas-Caixa, Cidade de Belo Horizonte, Guimarães Rosa, Status e Fernando Chinaglia. Na área da publicidade, foi o autor (pela agência MPM-Casabranca) do roteiro do comercial de TV que lançou, no final dos anos 70, o Fiat a álcool no Brasil, ganhando o Prêmio Colunistas. Co-organizador, na década de 80, em São Paulo, das Bienais Nestlé de Literatura. Comentarista de livros no Caderno Ideias do Jornal do Brasil. E-mail: dufragomes@ig.com.br