quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Pequena morte na madrugada











Eduardo Sigrist*

Um desconhecido, de boné vermelho virado para trás, enforcou-se no jacarandá-mimoso da minha casa.

Acordei com o sussurro de sua alma asfixiada sendo desalojada. Pela vidraça, só vi o boné. Balança que balança até estacar, o vermelho se destacando contra a xilogravura soturna da árvore, da corda e das casas opostas. Goeldi puro. Só faltavam os urubus, mas estes já tinham sido convocados.

Mesmo sem enxergar o rosto, eu conhecia que ele era um desconhecido. A estatura não mentia: era um anão, e eu jamais tive amizade com um anão.

Imagino suas dificuldades. Trouxera uma escada? Ou trepara na árvore igual ouriço, espantando corujas e brocas? Demorara muito para expirar? Além da baixa estatura, era um tanto falto de massas. O pouco peso pode ter causado sérios problemas de eficiência para a corda, incapaz de realizar o trabalho com a rapidez desejada. Devia ter amarrado uma pedra no pé para agilizar o processo.

O que mais me intrigava, no entanto, era o boné. Por que o boné? Seria uma questão estética? Será que ele, ao decidir “é hoje”, pensou no triste espetáculo de seu corpo pendido sobre a calçada numa manhã de sexta-feira, sendo observado por uma velhinha ou um moleque que matava aula, e imaginou os comentários? “Nossa, nem penteou o cabelo”, “Nossa, além de anão é careca, até eu me mataria”, “Nossa, parece o Tiradentes do livro da tia Edineia.” Mesmo assim, mesmo que na última hora ele tenha tido um mínimo de vaidade, não entendo por que pensaria em boné naquele momento. Mas há tanta coisa que eu não entendo.

E alguém já imaginou que anão se matasse? O mais grave: ninguém imaginou que anão amasse. Ninguém desconfiava dessa lenda, muito menos a Adriana morena, sua colega de trabalho numa repartição pública. Mas ele amava. Daquele amor que escreve cartas tímidas de amor, mas não as entrega. Daquele amor que tatua corações sangrados de amor, mas não os revela. Daquele amor que acredita no amor, mas desacredita. Daquele amor que se mata de amor, mas não morre. Ou morre?

Matou-se o anão no jardim da frente da minha casa. E não era um anão de jardim. Era um anão anão. Homem. Gente, mesmo. Aliás, fora homem. Fora gente. Fora anão. Agora era uma silhueta de corpo sob um boné vermelho. Estático. A alma anã se distanciando a passos liliputianos, a chorar flechas de cupido.

Flechas que nunca atingiram a Adriana morena. Talvez ela nem desse pela falta do anão. Ou talvez, daqui a uma semana, um mês, ela estranhasse a ausência do contínuo baixinho que vestia um boné encarnado com a estampa “eu ti amo” encardida. Ela jamais saberia que ti era te, era tu, era você, Adriana.

Morreu de amor, o anão. Foi-se. A foice tramada no pescoço. Entranhada. Estranhada. Rejeição do corpo ao implante apertado. Morreu de falência múltipla de esperanças, o anão no meu jardim.

Chamar a polícia. Para quê? O resgate. Para quê? O IML. Para quê? Assim que amanhecesse, o povo daria o alarme. O povo-urubu daria o alarme. O povo-urubu se ajuntaria na frente da minha casa esperando o repórter-urubu. Tchauzinho para a câmera. E para o anão?

Não chamei a polícia. Voltei para a cama, tentar dormir o sono dos gigantes. Amanhã preciso acordar inteiro, sem olheiras. A Patrícia loirinha me convidou para almoçar. Ai, ai, a Patrícia. Acho que antes vou passar no shopping, comprar um boné vermelho e mandar estampar um “eu te amo”. Sem erros de português.

E à noite vou cortar o jacarandá-mimoso.

* eduardosigrist@gmail.com