sábado, 7 de agosto de 2010

Up in the air e os habitantes do ar











Eduardo Sabino*

Poucos filmes alcançaram um retrato tão convincente do homem contemporâneo quanto Up in the air, longa dirigido por Jason Reitman e lançado no Brasil, em 2009, com o péssimo título “Amor sem escalas”. Jason já tinha assombrado plateias com o ótimo Obrigado por fumar (2006) e manteve em Up in the air o estilo daquele filme, com insights publicitários, diálogos inteligentes e roteiro entrecortado por depoimentos de “pessoas reais”.

O diretor insiste em olhar o mundo pela ótica de profissões desconhecidas do grande público, mas chaves para a compreensão da sociedade. Em Obrigado por fumar, o protagonista é um lobista da indústria de cigarros com a função de persuadir a opinião pública para melhorar a imagem de sua organização. Em Up in the air, Ryan Bingham (George Clooney em atuação brilhante) é um consultor especializado em demitir funcionários (cortar gastos) e evitar conflitos judiciais para as empresas.

A atualidade do tema começa pela profissão escolhida. Ryan é um trabalhador, entre vários do mundo moderno, sem um produto concreto, ou seja, lida essencialmente com a informação. A utilidade desse serviço só pode surgir no cenário atual da produção acelerada, quando a alta rotatividade do mercado aponta para a renovação constante do “capital humano”.  

Ryan tem o perfil do homem líquido-moderno. Está ao mesmo tempo em muitos lugares e lugar nenhum. Não só em sentido metafórico. Ele vive entre aeroportos, hotéis e, principalmente, aviões. Já no início do filme, descobrimos: ao longo de um ano, Ryan passa mais de trezentos dias nas nuvens. Acostumado com a vida nômade, ele não se prende à nada e a ninguém. A vida dele se limita a estar em movimento, ouvir com tranquilidade as lamentações de estranhos (os demitidos), experimentar relacionamentos provisórios e acumular créditos no cartão VIP de uma companhia aérea.

Os conflitos de identidade de Ryan surgem em dois momentos: quando ele é obrigado a ficar mais tempo em terra firme – o chefe dele opta por um sistema de demissões a distância para cortar gastos (fina ironia) – e quando ele decide investir em relacionamentos mais duradouros. O protagonista se revela o sujeito ideal da teoria da Vida Líquida, de Zygmunt Bauman, temendo as interações humanas mais sólidas. O relacionamento profundo, sem previsão de troca, distinto das respostas prontas das outras “mercadorias”, com tantas tarefas e responsabilidades, transforma-se num grande obstáculo à mobilidade de Ryan.

Algumas das cenas marcantes do filme ficam por conta das palestras antimotivacionais do consultor. Ele incentiva gerentes e outros profissionais “viajantes” a se desprenderem das “amarras” familiares. “A vida é como uma mochila”, ele diz. Não conseguimos sair do lugar quando colocamos dentro dela uma mãe, uma namorada e um cachorrinho.

A visão de Ryan está impregnada da “liberdade” neoliberal.  Ele é o profissional dos sonhos do mercado: transita com leveza no espaço, está sempre disponível para se deslocar, bem menos comprometido com as relações afetivas do que com o trabalho.

Ao se deixar levar por um relacionamento amoroso e se reaproximar da família, Ryan começa a colocar em cheque os seus valores líquidos. Aqui reside o embate entre o consultor acostumado ao movimento automático da vida e entre o ser humano desnorteado pela superficialidade do seu mundo.

A cena da conquista de uma antiga meta do protagonista – completar dez milhões de milhas percorridas em viagens de avião – resume os sentidos da narrativa. Em pleno voo, ele recebe os cumprimentos do piloto e das aeromoças pela façanha. “De onde você é?”, pergunta o piloto. “Sou daqui”, responde Ryan após longa hesitação.

*eduardosabino@caoseletras.com