sábado, 4 de setembro de 2010

Amizade











Furio Lonza*


Fazia seis anos que não via meu amigo. Tinha ido morar na Itália, depois em Malta, Grécia, Turquia. Era fotógrafo. No início, recebia seus cartões exóticos com certa regularidade; depois, simplesmente pararam de vir e o mundo nos separou. Semana passada, a surpresa: estava de volta, queria me ver, contar tudo. Cheguei na hora combinada e uma faxineira me levou até uma sala cheia de esculturas negras. O patrão ainda iria demorar.

Acomodei-me numa poltrona e cochilei. Um barulho metálico me acordou. Mal pude crer, os olhos me pregavam uma peça. As filhas crescem, principalmente as dos outros. Mas continuava com o mesmo rosto delicado, a boca suave, os olhos grandes, negros e redondos.

Esquadrinhando as longas tábuas do assoalho com seus pés nus, Adriana movia-se como uma gazela em campos australianos. Com um riso cínico, veio em minha direção. Ela postou-se a meu lado, de pé. Usava uma camisola que lhe batia nas coxas morenas e me disse Oi. Quando fiz menção de me levantar, ela espalmou as duas mãos no meu peito com força e me empurrou de volta. Flagrei duas gotas minúsculas de suor entre seus seios, que balançavam nus por baixo do cetim. Isto posto, cavalgou-me, esfregando seu corpo no meu em movimentos de vai-vem cada vez mais irritados, soltou grunhidos agudos e infantis, arfou com uma sensualidade artificial. Enquanto agitava seus quadris com estudada ferocidade, me olhava por entre as brechas de seu cabelo negro. De repente, ela jogou a cabeça para trás, prendeu um grito entre seus lábios e perdeu o equilíbrio, fingindo desabar em cima de mim.

Os astrônomos e teólogos podem até solfejar suas teorias a torto e a direito, mas não sabem o que é a eternidade. A eternidade veio em seguida: reaprumando seu corpo na posição anterior, ela desnudou-se da camisola, colocou a mão em concha por baixo de um seio e me ofereceu. Enquanto sorvia o começo de sua adolescência pelo mamilo, ouvi que a porta de entrada se abriu num estrondo. Com certeza, Savério viria com as eternas desculpas de sempre, mas não desgrudei de Adriana, não tínhamos pressa; afinal, não é todo dia que se descobre a importância que seis anos representam na amizade entre duas pessoas.

*Furio Lonza é escritor, jornalista e dramaturgo. Entre outros livros, publicou As Mil Taturanas Douradas (Ed. 34, 1995) e Eric Com o Pé na Estrada (Companhia das Letras, 2002), ambos juvenis. História Impossível (novela, Demônio Negro/Annablume, 2007) e Sturm und Drang (poema, [E] Editorial/Annablume, 2010).