sábado, 4 de setembro de 2010

Ba-ba











Eduardo Sabino*

Beto chegava e dava o bote. Eu lhe tirava as botas, beijava sua boca, acariciava a barba. Debatíamos feito duas baleias. Botávamos para quebrar até o tempo cambalear de velho. Depois ouvíamos bolero, bossa nova, duas bestas olhando para o teto. Os afetos eram intercambiáveis. As boas carícias voltavam dobradas.

Um amor sem embustes, sem algemas, um código binário para todas as combinações.

Beleza não era burla até a voz dele ficar cambota, ao telefone, um “eu te amo” que mais parecia “câmbio”. Uma semana em Brasília, e eu aqui em brasas.

Voltou sem a beleza no sorriso, não era mais o Beto aquele ser abduzido.

O sexo não abarcou, desde então, as sensações do Paraíso. Era antes uma barca me levando fria para um lugar abandonado. “Bebê? Onde está você?” Beto fechava os olhos, dizia baixinho alguma baixaria e viajava, em cima de mim, para Brasília ou vai saber para onde.

Bruna, o nome da baranga. Descobri na letra B da agenda do celular. “Apenas uma colega de trabalho”, jurava o abutre, mas na festa da empresa dele, no biênio passado, notei o quanto a vagaba lhe dava bola.

Contratei um inspetor e suas bugigangas fotográficas. Precisava de fotos, bem tiradas, para saber se as ausências eram de fato o boteco, o jogo de baralho, as horas extras descambando pela noite afora.

O olhar biônico do fotógrafo trouxe até mim as assombrações: o beijo, a mão na bunda, o baile das pernas.

Chorei pouco. O bastante.

Esperei ele ir ao banheiro. Excluir o que havia de mais sincero em si. Como sempre, o Bosta apagou sobre a privada. Cansaço. A baranga havia lhe arrebentado. Apoiei na banca e desabei um abajur na cabeça de bagre. Chegou de acordar, balbuciar meu nome, “Bárbara...”, mas a segunda pancada lhe abateu.

Hoje, está perdoado. Virou, mais do que nunca, o meu bebê. Só meu. E eu sou uma boa babá. A melhor.

Beto conversa com batatas, bananas, bancos, certa vez até com a barata que lhe subiu pelas pernas. Não muda tom nem sílaba. É só “ba, ba, ba...” e a baba escorrendo no avental.

“Beto, você me ama?”.

“Ba, ba...”

Entendo como um sim. Isso me basta.

*eduardosabino@caoseletras.com