sábado, 4 de setembro de 2010

A casa do caracol












*Ana Paula Santos Rodrigues


Suspense

Em um prédio velho e cinza
De sacadas secas
E janelas descascadas
Uma porta se abre
Uma velhinha se arrasta
Apoiando-se nas paredes
Caminha para a varanda
Levanta os braços, e de repente
Com suas mãos trêmulas

Rega
Uma minúscula flor que cresce
De todas as cores do mundo...

Anoitece

O velho pesca estrelas
Na rede da varanda
A menina pesca sonhos
Sentada na calçada

O moço destila dores
Num copo de bebida
E a mulher abandonada
Destila-se em lágrimas

Toda noite há um gato
Correndo assustado pela rua.
A liberdade, o alento
Ou a ameaça noturna

Tudo que é mortal se cala
Mas o tempo continua
E no céu todo cravejado
A eterna rainha lua.

Sutil

Em meio a escombros de guerra
Nascem frágeis flores
Olhando a maldade
Com um olhar triste
Quietas e pequenas
Um pequeno colorido
No preto e branco destruído
De um tempo queimado

Temos todos os motivos
Para sermos maus, para sermos bons.
Toda beleza vem recheada de insensatez
É irracional ser extremo
Mas o meio do muro não é tão belo
E é irracional ser humano
De verdade

Pequenas flores
São jardins que não percebemos
E fica apenas a intuição
De que em meio às ruínas
Há algo que nos observa
E nos trás como um perfume
A esperança.

*Ana Paula Santos Rodrigues tem 16 anos, reside em Oliveira-MG, e estreou em livro, neste ano, com os poemas de A casa do caracol. Contato: anapaulalegiao@hotmail.com.