sábado, 4 de setembro de 2010

Coito interrompido












Cristiano Silva Rato*


Cap. 1. Modelo

Não minto. Não digo a verdade. Apenas o verossímil. Era tarde, e o sol já despontava no amanhecer. Primeiro veio o dedo anular. As cargas sempre são fiscalizadas pela Alfândegada, e o crédulo ficou nas mãos de mais um padre ou bispo, seja o que for. Todos se espantaram com o bilhete, mas o corpo estava perfeito, magro e decomposto pelo tempo. Era bulímica. Os comentários começaram a circundar os ossos, mais precisamente o fêmur. Algumas gotas de saliva áurea começaram a pingar dos bicos, abutres anônimos. Logo seria hora de levá-la ao necrotério.

As horas fixas da madrugada são desesperadas, custam a saber onde estão. Os olhos, marginais armados – ofuscados pelo caminho percorrido pelo caule da roseira – mergulharam na barriga anêmica do corpo. Depois as mãos. Nunca suportaram muito tempo. Quando vi, a sua alma já me possuía. Era um jogo crespo de cabelos lisos sapecando entre os desejos. Os dedos anulares, bem feitinhos, tinham textura. Crocante. Acariciei mais uma vez os seios em decomposição. Tinha aberto apenas uma parte de seu corpo. Sua beleza era ancestral. E estava erroneamente, nesse tempo, feito para secas. Perfeito, lacónico. Quis polinizá-lo. Era tarde. Mas, ad referendum. À la carte, as rajadas começaram nas sombras. Um tumulto oscilava os tímpanos, desassossegado, vinha à ausência, escutei. Havia gemidos. As madrugadas sempre trazem desespero. Mentira. Disse a mim, “não escute, não escuse”. Quando terminei, os aplausos toaram. Avant première. Esquecerei essa noite e todas as outras. Sou um palhaço, acabado, junto aos críticos e às más vontades.

Este conto integra o livro inédito Sentido suspenso: romance proibido ou contos do absurdo.

*cristianorato@caoseletras.com