sábado, 4 de setembro de 2010

Convite ao mainstream











Luiz Bras*


Os heróis da prosa de ficção brasileira estão cansados. Entediados. Sem motivação. Eles não aguentam mais viver sempre as mesmas manjadas situações. Faz pelo menos vinte anos (ou mais) que sua rotina não muda. Não importa se esses heróis pertencem à fileira dos conservadores ou dos transgressores. Não importa se eles protagonizam narrativas urbanas ou rurais, sociais ou psicológicas, líricas ou fragmentárias, apolíneas ou dionisíacas. As situações que esses heróis estão vivendo hoje, nas mãos dos prosadores brasileiros contemporâneos, são praticamente as mesmas que eles já viveram nas mãos dos autores do modernismo, do pré-modernismo, do realismo ou do romantismo.

Contos, novelas e romances são constituídos de narrador, personagens, tempo, espaço, ação e linguagem. Cada uma dessas seis categorias é um corpo sólido deslizando no vácuo, um corpo sólido cuja força gravitacional influencia a órbita das demais categorias. Os grandes prosadores são terríveis e geniais justamente porque conseguem ser originais nas seis categorias. Os melhores contos e romances de Clarice são os que põem para girar um narrador clariceano, algumas personagens clariceanas, o tempo, o espaço, a ação e a linguagem que só Clarice conseguia dominar, porque foram inventados por ela. Vale o mesmo para os melhores contos e romances de Graciliano. Ou de Rosa. Ou de Dalton Trevisan. Ou de ____________ (preencha o espaço com o nome de seu gênio predileto). O problema com a prosa de ficção contemporânea é que as categorias dos grandes autores canonizados têm sido reproduzidas insistentemente pelos prosadores contemporâneos, quase sempre de modo diluído. Em toda parte, ano após ano, narradores parecidos com os de Clarice têm interagido com personagens parecidas com as de Clarice num oceano linguístico parecido com o de Clarice. Você pode até mudar o nome do autor para Rosa, Joyce, Kafka, Cortázar, Hemingway, Bukowski ou, sei lá, para ____________ , que a equação continuará a mesma. A repetição continuará a mesma. Os mesmos dramas dos mesmos intelectuais entediados, da mesma classe média idiotizada, dos mesmos marginais marginalizados, dos mesmos indigentes tresloucados, da mesma juventude transviada.

Na corrente principal da literatura brasileira, há pelo menos vinte anos (ou mais) o grau de tensão existente entre o herói ficcional e seu mundo tem sido o mesmo das gerações anteriores. Não importa se os heróis de hoje estão recebendo outro nome, usando outras roupas, falando outro idioleto. Não importa se sua aventura agora se passa no aqui-agora do início do século XXI. A tensão literária continua sendo a mesma dos livros de Clarice. Rosa. Joyce. Kafka. Cortázar. Hemingway. Bukowski. ____________ . Isso porque as situações vividas por esses heróis não mudaram. Porque, presos ao hábito, eles continuam vivendo as grandes situações canonizadas. As boas e velhas situações da escola modernista. Ou pré-modernista. Ou realista. Ou romântica.

Nossa sorte é que na literatura brasileira existem outras correntes além da corrente principal. A melhor delas — a mais vigorosa, vulgar e brutal — é certamente a da ficção científica. Ela é vigorosa, vulgar e brutal exatamente como eram vigorosos, vulgares e brutais os bárbaros que puseram abaixo Roma e seu império. Lembram do poema de Kaváfis, À espera dos bárbaros?

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que lei hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.


Os bárbaros são a solução para uma civilização cansada e decadente, cuja sobrevivência depende de uma urgente renovação genética. Os temas da ficção científica são a semente desses guerreiros que, ao fecundarem a prosa cansada e decadente do mainstream, ajudarão a gerar contos, novelas e romances mais consistentes, menos artificiais.

Se vocês estão pensando, como eu mesmo pensava tempos atrás, que a comunidade da ficção científica brasileira, também chamada de fandom (fan kingdom), é pequena e periférica, preparem-se para o susto. É verdade, ela é periférica e sua produção raramente é comentada na grande imprensa, porém ela não é nada pequena. É gigantesca. Seus habitantes e seus livros não são vistos pela corrente principal da literatura brasileira porque o mainstream e a FC configuram universos diferentes, que raramente se tocam. E quando se tocam, a má vontade é tanta que poucas vezes ocorre a renovadora fecundação.

“A boa ficção científica parou em Clarke, Asimov e Bradbury”, insistem alguns. Esses precisam se atualizar urgentemente, pois a FC expandiu-se bastante no último meio século. Os mestres da Era de Ouro continuam sendo lidos e admirados, mas as novas gerações nunca deixaram de prosperar. Nomes como William Gibson, Orson Scott Card e Neal Stephenson continuam injetando antimatéria no gênero.

Sinal da vasta dimensão da FC mundial é a quantidade de sub-gêneros possíveis hoje à disposição dos escritores. Segundo a Wikipédia, são mais de trinta. Entre eles o biopunk, o cyberpunk, as utopias e as distopias, a História alternativa, a new wave, o pós-cyberpunk, o pós-humanismo, o retrofuturismo, o slipstream, a space opera, o steampunk, a Terra agonizante, a Terra oca, a viagem no tempo, a vida extraterrestre, a xenoficção, a ficção apocalíptica e pós-apocalíptica, a ficção científica de espionagem, erótica, feminista, gay, gótica, hard, lésbica, libertária, militar, soft e de cunho social. O número de temas disponíveis aos escritores também é espantoso. De alienígenas a viagem interestelar, os meus prediletos são os androides, a antimatéria, o ciberespaço, os ciborgues, os clones, o futuro alternativo, a imortalidade e o prolongamento da vida, o hiperespaço, as mentes coletivas, o controle da mente, os implantes neurais e a interface direta com as máquinas, as guerras espaciais, os mutantes, a nanotecnologia, o teletransporte e os universos paralelos. Se quiserem conhecer os outros temas, passem mais tarde na Wikipédia.

O século passado assistiu ao triunfo da subjetividade, do delírio e da abstração nas artes plásticas, na dança, na música, no teatro e também na literatura. Nada produzido nos séculos anteriores pode ser comparado ao que se produziu no século XX. As grandes conquistas da sensibilidade modernista — o fluxo de consciência, a fragmentação da narrativa, as rupturas sintáticas, os jogos intertextuais, a mistura de diferentes vozes discursivas (polifonia) — romperam as fronteiras que separavam os diversos gêneros literários. Tais procedimentos surgiram com as vanguardas, mas não morreram com elas. Tais procedimentos são formas livres e maleáveis, sem cor ou valor intrínsecos, à espera de novos conteúdos. Eles são ferramentas cansadas de produzir sempre os mesmos objetos ficcionais. São ferramentas à procura de novos projetos.

O encontro amoroso desses procedimentos expressivos típicos do mainstream com as situações e os temas típicos do fandom, esse encontro necessário vai revigorar os heróis da corrente principal da literatura brasileira. O ânimo e a motivação voltarão. A inteligência terá que lidar com novos esquemas, permutando, deslocando, condensando fatos e conflitos exóticos (convencionais na esfera da FC, mas absolutamente originais na esfera do mainstream). Diante de situações até então inéditas no seu campo de atuação, esses heróis clariceanos, roseanos, joyceanos, kafkianos, cortazarianos, hemingwayanos, bukowskianos ou ____________ deixarão de viver as tão manjadas aventuras clariceanas, roseanas, joyceanas, kafkianas, cortazarianas, hemingwayanas, bukowskianas ou ____________ .

*Luiz Bras é oriundo da provavelmente imaginária Cobra Norato, no Mato Grosso do Sul. Autor, entre outros livros, de Paraíso Líquido (Editora Terracota, 2010). Mantém uma coluna mensal no jornal Rascunho e edita o blog luizbras.wordpress.com.  Contato: luiz.bras@uol.com.br.