sábado, 4 de setembro de 2010

Esse espantoso amor que sinto por mim mesmo












Fernando Portela*

Aos trinta anos, João engordou muito e Rosmarinho efeminou-se ainda mais. Sabe, Rosmarinho é daqueles caras que parecem bonecas, mas não são. Talvez ele seja assim porque conviveu somente com mulheres, a vida inteira, mãe e irmãs.

Eu, bem, eu, segundo dizem, continuo com “o mesmo jeitinho”, e isso significa que tenho cara de guri, mas de barba, e o sorriso aberto, franco, de quando era criança. Não posso negar: eu me amo. Muito.

A nossa amizade sempre foi um fenômeno. Nós três jamais nos largamos. Desde o Jardim da Infância, na escola de dona Gertrudes, que chegou a ser processada por colaboracionismo com os nazistas, no final dos anos quarenta, sempre andamos juntos, tivemos os mesmos problemas escolares, e progredimos lado a lado. Por coincidência, perdemos o vestibular no ano em que concluímos o segundo grau, mas passamos, os três, no ano seguinte, nos cursos que escolhemos.

Aí fizemos o pacto, já no início da faculdade, quando estávamos muito confusos nos relacionamentos com as mulheres. Cada um de nós tinha a sua namorada, mas não conseguíamos ser discretos: contávamos, um para o outro, os detalhes das nossas vivências, mesmo as mais íntimas, e ríamos muito de certas situações tragicômicas de alcova. Cada um de nós vivenciava o amor e as manias do outro, sem o menor constrangimento. Achávamos muito natural, e até estimulante.

A “coisa” começou com João. Ele, um dia, chorou no nosso ombro, literalmente, alegando que não podia acreditar na sinceridade de Tânia, sua namorada. Chegou a molhar minha camisa de cambraia de linho, que eu mesmo passava a ferro, por falta de confiança na empregada lá de casa. Perdoem-me, sou um dândi.

No dia seguinte, Rosmarinho, com aquele jeito feminil de acentuar os esses, disse que compreendia perfeitamente o João, pois havia descoberto que sua própria namorada, Glô, vivia uma vida dupla: diante dele, revelava interesse pela cultura e as artes (grande paixão de Rosmarinho), mas, às costas, preferia os desfiles fashion e as conversas mundanas.

Aí eu pensei: Annie, minha namorada francesa, apenas me usava, fisicamente, para satisfazê-la, inclusive na necessidade estética, pois tenho um corpo perfeito, enquanto jogava charme pra cima dos velhotes da agência de publicidade em que trabalhava.

“Sabe?”, disse João um dia, “odeio mulheres: se não tivessem buceta, eu nem cumprimentava!”

“Mas nós precisamos delas, fisiologicamente”, ponderou Rosmarinho, muito sério, e até másculo. Todos nós concordamos. O prazer sexual regular nos era imperioso, e nenhum de nós, apesar dos trejeitos de Rosmarinho, revelava qualquer dubiedade.

“Tem as putas”, disse João, “mas eu não tenho coragem. Nem de camisinha”.

Estabelecemos, então, o pacto: a partir daquele momento, esqueceríamos os sentimentos e passaríamos a tratar o assunto com uma lógica empresarial, ou seja, cada um de nós iria procurar um “baú”. E daríamos uma festa, aliás, três, quando o objetivo fosse alcançado.

“Alguns baús estão aí à disposição”, ponderou Rosmarinho, “mas eu não conseguiria comê-los por muito tempo. Lembra daquela herdeira, a Silveira Peçanha? Tem cabelo até no bico do peito. Uns cabelões pretos, torcidos, esquisitos. Já comi, mas não dá pra casar”.

“Quantos milhões? Ou já chegou a um bilhão?”

“Perdão, bilhões. O pai tem ligações com o governo.”

“Então, quantos bilhões?”

“Dois e meio. Segundo o mercado.”

“E não dá para encarar uns pentelhinhos deslocados?”

“Meninos: vocês precisam imaginar o longo prazo”, respondeu Rosmarinho, ainda sério. “Quanto tempo eu vou ter de comparecer àquela horta?”

“Se eu me candidatasse você ficaria chateado?”, perguntei.

“Nem um pouco”, disse o meu amigo. “Pelo contrário, eu daria a maior força.”

Três dias depois, lá estava eu, numa festinha bem jovem, lançando olhares sedutores à Silveira Peçanha, que se chamava Maria, simplesmente. Tive a impressão de que ela gostou de mim.

“Não posso me aproximar muito de você”, disse-lhe, após uma primeira conversa mais solta, “eu sou amigo íntimo do Rosmarinho”.

“E desde quando Rosmarinho é um empecilho para a nossa amizade?”, Maria perguntou. “Ficamos, mas somos amigos, também. E mais nada.”

“Oh, querida, que bom que você disse isto!”

Os olhos de Maria eram apenas grandes e negros, mas burocráticos. Gordinha, ela parecia muito mais velha do que os seus vinte e um anos, e eu já vislumbrava um buço sobre seus lábios finos. A leve penugem negra que lhe cobria os braços, com o passar do tempo transformar-se-ia num óbice sexual. Mas fui em frente, de acordo com meu objetivo, conversando muito sobre ecologia, o principal interesse dela.

“E se eu achasse que você está só interessado no dinheiro do meu pai?”, ela me perguntou subitamente, um dia.

“Aí eu proporia casamento a você com separação de bens”, respondi, jogando todas as fichas.

“Meu amorzinho desprendido”, ela falou, e eu fiquei em dúvida se a ironia era apenas uma máscara.

Não sei no que vai dar. Tenho dito a João e a Rosmarinho que, a qualquer momento, proporei uma festinha só nossa; basta que eu acerte a data das minhas bodas com Maria Cerdosa. E brindaremos com champanhe francês.

“E como fica o longo prazo?”, me pergunta agora Rosmarinho, não sem uma lasquinha de inveja.

“O longo prazo a Deus pertence”, digo, e pela primeira vez penso que estou usando o nome de Deus em vão, ou de uma forma espúria, tão diferente da minha família honesta, simplória e previsível. Mas Deus, para mim, é apenas uma referência. Eu prefiro adorar a mim mesmo.

Serei obrigado a manter minha palavra sobre a separação de bens, mas acredito que ela acabará me pedindo que aceite um “casamento normal”. Após grande resistência, cederei. Maria, na verdade, se apaixonou por mim. Eu tenho feito o que posso, apesar do pesadelo recorrente: após fazer amor com ela, sem ejaculação, acordo com a boca tomada de cerdas de javali.

Umas fantasias me têm assaltado, ultimamente, e, numa delas, vejo-me no futuro, dez anos depois, recebendo meu amigo Rosmarinho no escritório da mansão onde vivo. Estou mais bonito do que nunca, com uns fios brancos nas têmporas, mas Rosmarinho envelheceu. E até sua meiguice, digamos assim, parece confusa e fora de moda. Seu olhar súplice de homem pobre me constrange brutalmente, e viro a cabeça, aviltado. Quando me volto novamente para ele, talvez para inventar alguma coisa e cair fora, defronto-me com um espelho tridimensional, mavioso: sou eu mesmo, meu próprio clone, tão belo, charman, provocante. A ereção (minha e dele-eu) é imediata e aí nos despimos com a bestialidade possível, e, logo depois, o longo beijo a dentadas me faz urrar de gozo pré-coito e, mal me penetro, inicia-se um orgasmo de trinta minutos longos, como se eu fosse um suíno, saudável e patusco. Somos. Meu clone suga-me o ouvido por dentro e me murmura a ideia de envenenar minha esposa para que ele e eu possamos viver juntos a aventura essencial. A minha própria voz me excita: sôfrego e voluptuoso, convenço-me de vez que enlouqueci. Mas, que mal há nisso?

Do livro Memórias Embriagadas (Editora Noovha América, São Paulo, 2008).

*fatportel@gmail.com