sábado, 4 de setembro de 2010

Guardando roupa suja











Jaime Prado Gouvêa*


Por mais que se dobre com jeito, que se tente a mesma arrumação de antes, não é a mesma coisa. As roupas sujas parece que incharam, além dos presentes das crianças e ainda o calção e a toalha dele secando no varal. A solução é levar o que não couber na mão mesmo, improvisar, fazer uns embrulhos, não tem importância, só depois de voltar para casa é que tudo se ajeita, sempre foi assim. A mala estufada sobre a cama, o lençol empurrado para os cantos escondendo marcas de pés e manchas de óleo de bronzear, ela vai até a janela e fica olhando o mar de vinte e cinco anos atrás onde, sem entender direito se o que estava ardendo era o sal ou a vontade de voltar para o quarto, ela estremeceu, cerrou os dentes de leve no rosto do marido e teve certeza que o amava.

Fez questão que tudo fosse igual desta vez, o mesmo chalé, a mesma praia. Fizeram de conta que não foi construído um bar ao lado e que o cheiro de peixe no lixo não os incomodava, ali mesmo onde havia um canteiro de grilos e jasmins que compunham a lembrança do homem ainda adormecido enquanto ela, despojada, ficava imaginando o tempo que teriam pela frente, imaginando com calma, alisando os desenhos da camisola de cetim, os pelos do braço dele, um suspiro, ele está acordando e vem de novo para cima de mim, meu querido, tanto tempo se passou e essa mala estufada sobre a cama, cheia de roupa suja, e ele lá no bar se despedindo dos amigos, uma última rodada de truco, cerveja e batida.

Naquele tempo, foi champanha. Ele sempre gostou de comemorar os acontecimentos, talvez até acreditasse nisso, notava-se pelo ar solene com que festejou o casamento, nascimentos de filho e netos, a falência evitada com muita luta e novas dívidas, reconciliações que justificavam algumas brigas violentas, a volta difícil depois de um ano separados, ela sentindo o cheiro de bebida nas palavras moles dele, ele reparando suas rugas. Ela colocou a mesma camisola na mala e combinaram que tudo seria idêntico à primeira vez. Na noite em que chegaram, arrumaram as gavetas como na lua-de-mel, casando calção e maiô, calças e vestidos, a velha sandália florida com a de borracha. Com um sorriso malicioso, ele sobrepôs as cuecas e as calcinhas. Ela percebeu e o abraçou, mordendo de leve o rosto dele. Saíram para dar uma volta e viram que estava tudo construído em torno do chalé, o bar onde ele tomou um aperitivo e filou um tira-gosto e ela conversou com a proprietária, se era antiga ali, se se lembrava disso ou daquilo. Quando voltaram ao quarto ele tentou, ela se esforçou, mas o cansaço da viagem, mas as emoções do dia, apenas se beijaram e fingiram que vinte e cinco anos não haviam se passado.

Pois agora, recostada à janela, ela revia a antiga mala e o cuidado dele em retirar as peças de roupa e ajeitá-las no armário. Via o homem meio encabulado levando o pijama para o banheiro e demorando-se o suficiente para que ela pudesse se trocar também, apagar as luzes e deixar apenas o brilho da camisola refletir a penumbra do abajur se movendo na respiração contida. Está ali, presente, o seu homem: alto, na porta do banheiro, os cabelos molhados e penteados para trás, e ele já vem vindo, vem chegando, um perfume de alfazema nas mãos que ela beija pensando em valsas, romances, poemas e agora o pavor que corre subindo por suas pernas, empapando os dedos desajeitados dele.

Aquele mesmo gordo suado gritando truco no bar ao lado. Um ou outro palavrão, ela não quer ouvir, sai de perto da janela e resolve acabar de fazer a mala. Os presentes dos netos — ela resolve — vão na sacola da mercearia, para não pegar o cheiro ruim de roupa usada. Esta camisa de gola puída, é preciso jogá-la fora, mas é a preferida dele. Mania. Como o pé de meia que ela pega com as pontas dos dedos e embrulha numa folha de jornal. Bate o calção na beirada da pia para tirar a areia e nota alguns pentelhos presos à sunga de pano, o bafo amarelo de mijo velho.

Cheiros, bafos, essa mala cheia de roupa suja, é tudo que ocorre a ela, ainda que se esforce para lembrar que as coisas não deveriam terminar assim. Tantos anos depois de lambuzar de batom o pijama novo dele, de pedir desculpas por fazer tudo errado, de tentar limpá-lo com o lenço de linho bordado que lhe dera num dia dos namorados, ela está guardando na mala uma cueca que mostra um acentuado risco marrom no gancho. Algo que naquele tempo ela teria lavado com carinho e excitação, e ele nem ficaria sabendo.

Naquele tempo. Agora vai tudo embrulhado junto com as bermudas, a camiseta com propaganda de caderneta de poupança, um bloco de batalha naval nem começado e revistas de palavras cruzadas, tédio. Além de calcinhas de renda, sutiãs com cinta, pomada para pele ressecada e a velha camisola que ela esfrega suavemente no rosto para enxugar uma lágrima que não vai sair, nem isso.

Ela se deita na cama, recosta a cabeça na mala e reconhece que aquele velho que se demora no truco com os amigos ocasionais bem que tentou. Deixou em casa as contas por pagar, a implicância com a marmita que nunca substituiu a habilidade dela com os molhos, o cansaço que ela alegava e a necessidade e o medo de operar as varizes, os óculos com armação de tartaruga e os cabelos ralos caindo na testa enquanto se debruçava sobre os livros de contabilidade da firma. Deixou para trás a lembrança dela saindo de casa com um curativo na testa por causa do copo que ele jogara durante mais uma briga, as muitas cartas começadas e amassadas na cesta de lixo com vergonha de que ela soubesse que se roía arrependido, o alívio silencioso quando ela voltou dizendo que era só pelo filho que já estava até noivo na época, e ele acreditou, aqueles dois velhos emburrados em frente à televisão, ele fazendo questão de lavar os pratos que usava e quebrando asas de xícaras, o mesmo bobão de sempre.

Que vem saindo do mar enquanto ela recosta a cabeça na cesta de vime e finge que está dormindo sob o guarda-sol. Olha por entre os cílios o corpo dele caminhando, as ondas sob o calção que ela conheceu ontem à noite na escuridão do quarto, tensa de tantos cuidados e expectativas, o terno e sacana conselho de mãe para filha. Um corpo manso e meio moleque apenas, a pele branca dos ombros já bastante avermelhada, vai arder à noite, ela tinha avisado. Como ardeu nela quando entrou na água, e ela falou que precisava sair porque estava frio, e ele sabia que era mentira, e passou as mãos sobre os cabelos dela, bem que ele tentou, como desta vez quando entrou no quarto sem que ela percebesse, achou que dormia com a cabeça apoiada na mala, parou um momento olhando seus cabelos embranquecidos, sentiu vontade de alisá-los de novo, sentiu a cerveja queimando no estômago, deitou-se ao lado dela sem se animar em acordá-la e ficou olhando para o teto, a vida inteira pela frente.   

Este conto integra o livro Fichas de vitrola & outros contos (Editora Record, 2007). 

*Jaime Prado Gouvêa estreou em livro com os contos de Areia tornando em pedra, de 1970, vencedor do Concurso Nacional de Contos do Estado do Paraná, no ano anterior, prosseguindo com Dorinha Dorê, de 1975, e Fichas de Vitrola, de 1986, que vencera o Prêmio Nacional Guimarães Rosa da Secretaria de Cultura de Minas Gerais em 1982. Lançou também, em 1991, seu único romance: O altar das montanhas de Minas, também reeditado, neste ano, pela Editora Record.