sábado, 4 de setembro de 2010

Rubi











Eduardo Sigrist*

A cadeira preferida de meu pai estava tombada e silenciosa. No quarto escancarado, nem sinal do velho. O cigarro proibido pelo médico ainda soltava uma envergonhada fumaça. O par de sandálias enrugadas aguardava o par de pés enrugados. Um copo de leite fervido esfriava na mesinha, junto com os óculos. No chão, toda a roupa jogada. Tudo por ali indicava uma ausência desmedida, uma ausência apressada. Será que ela veio buscá-lo, pensei, já quase acreditando na história que ele não parava de contar nos últimos tempos. Mas e o rádio, e Ray Charles, e Ruby, onde estão?

A primeira vez que ele ouviu Ruby... Quantos anos, já? Eu o levava a uma consulta ao cardiologista, falávamos das chuvas, ou da falta das chuvas. Devia ser da falta, porque ele usava seu cachecol azul tricotado por minha já falecida mãe, então provavelmente era inverno. Mas ele sempre usava aquele cachecol para “guardar a memória da melhor mulher do mundo”, então podia ser verão, e o assunto seriam as chuvas. O fato é que falávamos da chuva, de seu excesso ou de sua falta, ou da falta de assunto, quando meu pai ouviu, pelo rádio do carro, a voz cega de Ray Charles: They say, Ruby you’re like a dream...

Ele parou de falar, parou de se preocupar com os exames, me mandou ficar quieto. Imaginei que conhecesse a música, que ela lhe trouxesse recordações, porque fechou os olhos e até balançou a cabeça devagar, seguindo o ritmo. Um sorriso apareceu em seu rosto.

‒ Conhece Ray Charles, pai? ‒ perguntei, assim que a música acabou.

‒ Quem? Não, não.

‒ Eu pensei que...

‒ Essa é a melhor música do mundo! Por que eu nunca tinha ouvido?

‒ É Ruby, do Ray Charles. Ela fala sobre...

‒ Fica quieto. E eu não sei do que ela fala, oras? É a história de um casal de apaixonados que se saem pelo mundo para encontrar um lugar onde possam se amar sem serem incomodados por essa gente sem amor.

Não questionei. Ele não sabia inglês ou qualquer outra língua, por isso é claro que não entendera a letra. Deixei meu pai pensar que eu acreditara na história.

‒ O nome da mulher é Rubi. É como eu chamava a sua mãe. Nos primeiros dias de nosso namoro... Ei, para onde está me levando?

‒ Ora, pai, para o médico.

‒ Tá louco? Vira ali, na 11 de Junho tem uma loja de cd. Eu preciso desse cd. Depois a gente vai para aquele carniceiro.

E foi ali que começou sua paixão por Ray Charles. Ou melhor, por Ruby, pois era a única faixa que ele ouvia do cd que lhe comprei. Ele dizia que as outras músicas eram assim, assim, e que só aquela lhe trazia de volta o perfume de minha mãe.

De certa forma, aquela música o acalmou. Meu pai passou a se alimentar melhor, a dormir bem, e até voltou a se barbear, o que não fazia desde a morte de minha mãe.

Apenas a sanidade mental parecia ter sido um pouco abalada. A cada dia ele inventava uma letra diferente para a música, e jurava que a nova era verdadeira. Ele se trancava no quarto, ligava o cd e repetia Ruby centenas de vezes. Então saía de lá dizendo que minha mãe estava em Casablanca esperando por ele; depois dizia que ela estava em Paris, no Rio, na igreja em que se casaram, no café do centro da cidade, na rodoviária, na lua.

Um dia propus matriculá-lo em uma escola de inglês, para que ele pudesse entender a letra real da música.

‒ Pra quê? O importante é a melodia. O que o cantor fala é só recheio. A melodia já me conta tudo que eu preciso saber. E se o cantor falar um palavrão ou disser asneiras? Estragou a música. Não quero, não quero.

Mesmo com tantas histórias na cabeça, sua vida seguia sem contratempos e a saúde melhorara muito. Em todo caso, meu apartamento era perto da praia em que ele morava; então, se houvesse qualquer problema, em minutos eu estaria lá. E todos os dias eu passava por ali, para ouvir suas histórias e comer robalo, “o melhor peixe do mundo”, que ele mesmo pescava e preparava.

Nos últimos tempos, no entanto, a história mudou. Ou melhor, a história da música, a letra inventada ou sonhada por meu pai, não mudou, passou a se repetir sempre. Não mais Paris, não mais Casablanca, não mais viagens românticas. Ruby só dizia uma coisa: minha mãe vinha buscá-lo, estava com saudade de quando eles nadavam juntos, nus, e queria levar meu pai para nadar lá no fundo do mar, onde esse mundo sem amor não podia importuná-los.

Por isso, na tarde em que encontrei o quarto abandonado, só consegui pensar nessa história e corri para o mar. Eu não acreditava em nada daquilo, mas me preocupava com o que meu pai pensava. Para ele, era tudo verdade, ele me dizia que sua hora de reencontrar minha mãe estava chegando. Fiquei arrependido por não ter-lhe dado ouvido, por não ter pensado em interná-lo ou levá-lo para minha casa. Agora não tinha mais jeito. Talvez se eu corresse poderia ainda salvá-lo da avidez do mar.

O sol já estava baixo, mas me ofuscava e me impedia de enxergar com nitidez. Entrei com roupa e tudo na água. Gritei de frio e desespero. Só as ondas respondiam: I hear your voice and I must come to you. I have no choice, so what else can I do?

Tentei nadar mais para o fundo, mas o terno me agarrava e me prendia. Chorei. Então notei que algo como uma tripa azul boiava mais adiante: o cachecol, que sumia agora em direção ao horizonte. Não tentei pegá-lo, não conseguiria, pois sabia que as mãos de minha mãe e de meu pai o puxavam lá para o poente e nenhuma força seria capaz de impedi-los.

De volta à praia, sentei na areia para olhar pela última vez o cachecol. Não enxergava quase nada; aos poucos o crepúsculo tomava conta de meus olhos e de minha mente. E só conseguia pensar em Ray Charles, na música, nas histórias de meu pai. Por quê? Como podia uma canção transtornar uma pessoa? Ruby era realmente uma bela canção, como poderia ter trazido consequências tão trágicas? O que se passara na cabeça de meu pai?

‒ Está doido de nadar com roupa, meu filho?

Olhei para o lado e vi um corpo nu, branco, branco, que agitava um objeto perto do ouvido.

‒ Pai?

Ele chegou mais perto e notei um cd player portátil em sua mão. De dentro do aparelho escorria um fio de água.

‒ Que droga. Você me compra um novo? Essa porcaria não é à prova d’água.

‒ E seu cachecol? Eu vi uma coisa boiando e achei que...

‒ Ah, o cachecol. Era o melhor cachecol do mundo. Acabei perdendo no fundo do mar. Agora ele vai agasalhar tubarão.

‒ E a história da mãe?

‒ Mãe? Sua mãe já morreu. Você acredita em cada lorota.

Ele olhou para o mar, deu um suspiro e completou:

‒ Aquele curso de inglês ainda tem vaga?

*eduardosigrist@gmail.com