sábado, 4 de setembro de 2010

Um amor nos trópicos











Paulo Lima*

O ano era 1960. O avião vindo de Paris sobrevoou Recife, um pequeno desvio na rota antes de aterrissar no aeroporto dos Guararapes. Era uma deferência do piloto a um casal ilustre que estava a bordo visitando o Brasil pela primeira vez.

Para Sartre, a primeira visão das pontes atravessando a cidade lembrou-lhe o Sena. Essa inesperada semelhança deu-lhe uma sensação de familiaridade, de pertencimento. Já se sentia, de algum modo, em casa.

Sentada ao lado de Sartre, um pouco mais afastada da janela, Simone esgueirou-se para olhar lá embaixo o traçado de Recife. Não, aquilo não condizia com sua amada Paris. Estava mais para Veneza, e nesse ponto ela mostrou mais perspicácia do que o companheiro. Conforme os clichês turísticos da época, por causa de sua paisagem pontilhada por rios e pontes, Recife era chamada de “Veneza brasileira”.

Aguardava o casal um pequeno comitê de boas-vindas, que se esmerou nos salamaleques e no francês empostado e sem sotaque, tudo devidamente preparado para causar a melhor impressão aos filósofos famosos.

De acordo com um jornal: “O casal existencialista (sic) foi recebido de braços abertos pela mais fina flor (sic) da inteligência pernambucana”.

Sucederam-se rápidas apresentações, quem faz o quê não sei onde, homens de fala grossa fazendo biquinhos improváveis e carregando nos erres amaneirados, de modo a que o francês pudesse soar o mais francês possível, castiço e catita.

Merci, merci, merci, repetia Sartre a cada aperto de mão, como um corvo monocórdio, desapontando a pequena entourage que enfunava o peito de orgulho. Já ali esperavam uma torrente de impressões, quem sabe uma boutade espirituosa e metafísica capaz de pontuar de forma memorável os primeiros minutos do filósofo no Brasil.

Ao lado de Sartre, mas mantendo um respeitoso mutismo, Simone tudo observava com um olhar amistoso, mas sem aparentar surpresa. Era sempre assim onde quer que fossem. Um casal pop e controvertido, duas celebridades antes do advento da era das celebridades.

Depois da longa viagem noite adentro com escala em Dakar, ela tinha em mente apenas um prosaico e bom banho, o desejo de poder largar-se numa banheira com água cálida ao som de Juliette Greco. Se elaborou algum cogito inspirado pelo primeiro contato com os trópicos, ela o guardou para si.

O mesmo pode ser dito de Sartre. Se algum insight emanou de seu poderoso intelecto , este não adveio de deambulações heideggerianas ou mesmo marxianas, e sim da visão de uma morena estonteante, com o perdão do clichê, que Sartre viu ainda no aeroporto. O Ser e a Morena, ele deve ter pensado enquanto seguia os movimentos lânguidos da moça e sua nutrida derrière.

Simone percebeu a olhada furtiva e inflamada. Aimez vous?, ela disparou sem esconder uma chispa de ciúme. Mais oui, rebateu Sartre, assumindo um ar blasè.

- Não se faça de distante e etéreo, mon cher. Aquela mulher fez palpitar mais forte seu velho coração gaulês -, provocou.

– Ora, Castor, lembre-se que estamos aqui em missão oficial de divulgação das minhas ideias filosóficas... minhas e suas – pigarreou ele.

- Com seu charme filosófico, mon petit, você consegue a mulher que quiser, na cama que escolher -, alfinetou Simone.

- Ora, mon amour, você atribui meu sucesso com o segundo sexo aos meus dotes filosóficos? Esquece que a pièce de résistance de minha filosofia é: a existência precede a essência? Eu sou eu antes de ser algo mais, de ser um filósofo, escritor, ativista, intelectual engajado etc. Eu sou, e ponto final. O que vem depois é um adendo que minha condição social agrega ao meu ser, é uma espécie de má fé que acrescento à minha personalidade e às minhas ações, justificando-as para o bem ou para o mal.

***

Aqui, caro leitor, abro um breve parêntese imaginando que exagerei um pouco no filosofês, especialmente no filosofês sartriano. Explico-me, pois. O existencialismo de Sartre é, também, um humanismo. Não é uma negação da existência, não é uma filosofia do conformismo, do pessimismo. Sartre acreditava no livre-arbítrio. Façamos nós nossa existência, nossa vida. Como ele próprio afirmou acima, “o que vem depois é um adendo que minha condição social agrega ao meu ser, justificando meus atos para o bem ou para o mal”.

Pois bem. Sartre quer ser um homem antes de ser um filósofo. Ele simplesmente é. Está claro assim?

***

É sob essa condição que ele fecha a aposta com Simone. Vai conquistar uma morena recifense sem apelar para seus dotes intelectuais, vai se valer do poder de sedução que ele acredita possuir (um Don Juan avant la lettre), independentemente de sua fama de escritor.

- Negócio fechado – concordou Simone.

***

Sartre e Castor chegam ao hotel, desfrutando do cenário paradisíaco do centro, uma visão que irá remeter o filósofo, uma vez mais, à sua França natal. – Poderia ser Marselha ou Nice – nota, debruçado sobre a sacada do seu quarto no oitavo andar.

Naquele mesmo dia à noite, Sartre irá palestrar para uma plateia reverente na Faculdade de Filosofia de Recife. Ainda não existiam transparências ou powerpoints. A palestra tinha de seduzir os ouvintes pela capacidade argumentativa do conferencista; por seu domínio das palavras e das ideias.

A nata intelectual recifense se fez presente. De acordo com um jornal: “O Sr. e a Sra. Sartre foram saudados por um público respeitoso e interessado em compreender um pouco mais dessa famosa e intrigante filosofia intitulada Existencialismo”.

E mais adiante: “O casal foi recepcionado pelo diretor da faculdade com um discurso previamente elaborado e escrito no mais escorreito francês, fato que muito enlevou os brios desta pequena e aguerrida metrópole (sic) nordestina”.

***

A palestra, escusa dizer, foi um sucesso. Sartre deu um show gnosiológico e epitômico. E ainda atuou como conselheiro sentimental ao ouvir mulheres, consideradas avançadas para a época, que lhe confiaram seus dilemas de amores contingentes e necessários.

Da palestra, o casal foi conduzido por um pequeno e seleto grupo de baba-ovos e admiradores diretamente para um jantar tipicamente nordestino. Jantaram e prosearam até tarde da noite. Estavam cansados quando retornaram ao hotel, porém felizes pela boa acolhida brasileira até aquele momento.

Simone voltou a lembrar da aposta. O plano: Sartre iria sozinho ganhar a noite recifense à cata do objeto do seu desejo.

Naturalmente que encontrar tal objeto não constituiria nenhum tour de force para o filósofo. Bastava estalar os dedos. Sua entourage, seu séquito, seu círculo de puxa-sacos facilmente localizaria, entre as beldades recifenses, uma que se destinasse à imolação no altar do Existencialismo. Mas não era esse o jogo.

Além disso, havia a popularidade de Sartre, e não eram as habilidades de sedutor do filósofo que seriam testadas, mas do homem desnudado de seus adjetivos. Ele não poderia circular impunemente pelas ruas de Recife, pois despertava reações tanto de admiração quanto de hostilidade. À boca miúda, algumas senhoras guardiãs da moralidade e dos bons costumes não hesitavam em apontar o dedo acusador para o filósofo e disparar em tom jocoso: "Lá vai o zarolho! Vejam só o vesgo! Olhem só o quatro-olhos!"

Contra Simone, os vitupérios eram ainda mais hostis: “a amásia de Sartre”; “a sombra do velhusco”; “a feminista irascível”.

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Porém, logo eles se viram diante de um dilema. Como Sartre poderia ser bem-sucedido em sua ação de conquista – e vencer a aposta - sendo um francês? Explico-me. Um europeu nos trópicos significa a presença do colonizador. Haverá sempre um alumbramento diante de sua figura dominadora. Ele dirá a última palavra, terá as melhores teorias, será o senhor da técnica e, dado igualmente relevante, do dinheiro. Ou seja: será aqui nos tristes trópicos uma fonte natural de sedução, admiração e cobiça. Tal fenômeno era ainda mais imperativo nos anos 1960. A aposta pendia favoravelmente para Simone antes mesmo de o jogo começar.

***

O dilema foi temporariamente deixado de lado em função da azáfama provocada por uma conferência no dia seguinte, seguida de entrevistas, reuniões sociais em casa de figuras imponentes da sociedade recifense, incluindo um encontro com Gilberto Freyre em Apicucos, ocasião em que Sartre & Beauvoir foram apresentados a alguns acepipes da culinária brasileira. Um licorzinho de cacau de lamber os beiços incluído.

Os dois maîtres a penser, escusa dizer, não deixaram de falar en passant da mulher brasileira, a quem Sartre já havia sido dramaticamente apresentado no aeroporto.

Foi Simone quem, aproveitando-se de uma breve ida de Sartre ao banheiro, bateu com a língua nos dentes e confidenciou a Freyre a aposta amorosa.

- Então Sartre está querendo descabaçar uma de nossas deslumbrantes morenas... Sartre e seus amores contingentes – ele riu com estardalhaço, batendo as mãos espalmadas nos próprios joelhos.

- Oui – resumiu-se a repetir Simone.

- Podemos arrebanhar um plantel de belos espécimes para meu compadre. É para quando?

E ali, naquela sala de estar, selou-se um dos mais bem guardados segredos de alcova do século XX. Foi tudo arranjado para que Sartre pudesse realizar sua conquista. Freyre acionou seus contatos no interior, e logo uma pessoa do seu círculo estava despachando naquele mesmo dia para a capital uma moçoila prendada e de fartos dotes.

Foi um golpe baixo de Simone ou um ato de amor necessário? Ela perderia a aposta, mas no fundo a teria vencido. Na prática, ela estava agindo de acordo com o que pregava Sartre sobre a existência dos amores contingentes e necessários. O caso pernambucano de Sartre seria um entre tantos de seus inúmeros amores contingentes. Era essa a rationale filosófica que justificava o ato de Simone, sua contribuição para a práxis existencialista.

***

Tudo tinha de soar como um encontro casual. Tendo retornado à presença de Freyre e Simone, Sartre logo abriu um amplo leque de assuntos. Mas foi só Simone se ausentar por uns instantes da sala, que Freyre voltou a falar da mulher brasileira, da beleza das morenas recifenses, especialmente das morenas do interior, moças virgens e devotas.

Sartre intuiu ali o devir filosófico. Somou a fome com a vontade de comer. – E será que o compadre Freyre não me apresentaria uma dessas moças prendadas?

Pronto. Foi o golpe de misericórdia para a queda da Bastilha.

***

Sartre encontrou-se com Djanira num hotel barato da Rua Aurora. A moça era de fato prendada, já que não teve dificuldade em acompanhar o espanhol fluente no qual o filósofo se apresentou como um empresário a negócios no Brasil.

A moça era um tesouro sob todos os ângulos possíveis, um troféu do qual Pernambuco só teria que se orgulhar. Nada que Sartre tinha usufruído se assemelhava àquele corpo, àquela explosão de sensualidade, com o perdão do clichê entusiasmado.

Sem se anunciar filósofo (a moça não o reconheceu, felizmente), Sartre cometeu um golpe baixo perante Simone, já que nas recolhas utilizou sua técnica de argumentação filosófica com a qual já vencera oponentes de escol, como Camus, Raymond Aron e outros.

O termômetro já beirava o insuportável. As preliminares tinham ultrapassado o limite do suportável. Sartre despiu-se, induzindo Djanira a fazer o mesmo.

- L´argent, primeiro l´argent – disse a moça num sussurro. Sartre não desfaleceu por pouco. Fora desmascarado? Tinha entendido direito o que a moça dizia? – L´argent, meu querido, ou nada feito.

Como ela descobrira que ele era francês é um desses mistérios insondáveis do universo. Sartre já estava naquele ponto em que o instinto primitivo havia suplantado qualquer tipo de moral, incluindo a existencialista. Sacou do bolso da calça um punhado de cruzeiros amarfanhados, pondo-os sobre o criado mudo ao lado da cama.

***

Ele chegou de volta ao hotel onde estava hospedado somente nas primeiras horas da manhã. Até que se mostrava bem aprumado em seu chapéu panamá, um disfarce copiado de um filme B qualquer de Hollywood mostrando turistas americanos em ação na Martinica.

Sartre encontrou uma Simone com ar insone lendo Bonjour Tristesse, de François Sagan. Mas ele era pura alegria. E ali se declarou vencedor da aposta, não sem antes narrar em pormenores todos os lances de sua conquista.

- Parabéns, mon cher ami – foi tudo que ele ouviu de Simone, enquanto ela se afastava enigmática, como numa cena de um filme de Godard.

Sartre deixou-se cair na banheira. Dali a instantes iria solicitar uma ligação para Paris. Queria saber do pessoal no Nouvel Observateur em que pé estavam as discussões sobre a independência da Argélia.

***

Nota do autor: este conto baseia-se numa geografia imprecisa, assim como imprecisas são as referências à filosofia de Sartre e todos os demais atos aqui narrados, podendo-se facilmente concluir que se trata de uma ficção. Apenas a visita do casal de filósofos a Recife, em 1960, é verdadeira. Mas terá de fato existido um casal como Sartre & Beauvoir?

*paulo_val@uol.com.br

Caricaturas de Cássio Loredano.