sábado, 4 de setembro de 2010

Zoologia poética de Eustáquio Gorgone em A fortaleza de feno













Márcio Almeida*

Poeta experiente, bem-sucedido, sóbrio e sábio, Eustáquio Gorgone insere-se na zoopoética contemporânea com A fortaleza de feno, livro-oxímoro recém-lançado pelo autor. Gênero espelho da própria linguagem humana, a zoologia literária se justifica por si do mesmo modo que a necessidade de nomeação, de questionamento da alteridade, do confronto maniqueísta no modus vivendi do homem em toda a sua performance histórica. A presença do Outro animal, diferente do que a racionalidade expandiu desde sempre, concebeu o bestiário como análogo sem resposta com bichos que nunca se explicam, senão simbolicamente, mas provocam a razão animal e a mais profunda fonte de estranhamento: o homem como resultado da dominação de si mesmo, ao longo do tempo, fera domada por uma longuíssima aprendizagem do ser para o ser em confronto com a natureza, mestra rigorosa de seus instintos, necessidades, desejos, conflitos e desafios. Cada animal dessemelhante do humano fez-se, desde o início, demanda de tensão para a sobrevivência ante o inóspito, o desconhecido, o desafiador, a conditio da diferença.

A consistente e inteligente tese de Maria Esther Maciel sobre O animal escrito (Lumme Editora, 2008), - “Escrever o animal é desenhar os limites de sua natureza, inscrevê-lo em algum lugar, riscar a linha que vai nos separar dele, permitindo, assim, que saibamos o que é ser humano”, leva a inteligir que por essa leitura “o mundo como não pensamos é território de surpresa e sonho, portanto facilmente penetrável pela fantasia, aberto ao onírico que ousa dizer o nome”, expande-se, também no país, um zoológico editorial. Este tanto revê O fisiólogo, supostamente de Psyologus, El Naturalista, a História dos animais, de Aristóteles, como as fábulas de Esopo; as contribuições de Plínio o Velho e do taxônomo Lineu; os bestiários da Idade Média e os “clássicos” Bestiário, de Júlio Cortázar (1951) e O livro dos seres imaginários, de Jorge Luís Borges e Margarita Guerrero (1978), precedido este, e de autoria de ambos os argentinos, por Manual de zoologia fantástica (1957).

A zooliteratura é enriquecida por um bestiário de autor que envolve Wilson Bueno (Manual de zoologia, 1997;Jardim zoológico,1999;Cachorros do céu, 2005;Os chuvosos, 2007), Claudio Daniel (Figuras metálicas, 2005), Nuno Ramos (Cujo, 1993;O pão do corvo,2002), Jussara Salazar (Inscritos na casa de Alice,1999;Natália, 2005).

Entre os zoólatras da teoria são imprescindíveis, entre outros, Jacques Derrida, Gilles Deleuze, Giorgio Agamben, Félix Guattari, Donna Harraway, Michel Foucault, Peter Singer, Martin Heidegger, Emmanuel Lévinas, Eduardo Viveiros de Castro, Virgínia Naughton, citados ou não por Rodolfo Psiskorski em sua resenha sobre o livro de Maria Esther Maciel.

Os autores têm, cada, um foco específico sobre mesmo assunto com convergência a um labor no qual prevalece o trabalho de linguagem num revival de cânones da tradição do imaginário mágico, fantástico, mi(s)tico, seja sob a influência irresistível da relatoria narrativa de origem religiosa, ou da cosmologia/cosmogonia e da escatologia com seus seres hiperbólicos, dados às superstições e, hoje, a um realismo que faz clonagem da própria realidade científica e semanticolinguística.

Cada bestiário de autor tanto privilegia Franz Kafka como Edgar Allan Poe, retoma tópicas fundamentais da alegoria ou a simbólica das palavras-raízes, reacende a alquimia da medicina imaginária ou tece observações empíricas com propósitos (a)morais e (anti)religiosos. Descreve monstros reais desvelados do folclore latino-americano como de resto do mundo ou renova (até com estes) a teratologia para uma pós-modernidade, cujo símbolo máximo da animalidade é o próprio homem.

Se, por um lado, analisa Eduardo Jorge de Oliveira, Foucault toma a história natural como a nomeação do visível, em razão da aproximação dos naturalistas do ato de decifrar a natureza, do conhecimento natural e de Deus, e com isso iniciam uma teoria das palavras, por outro tem-se a profusão de animais criados pelo macaco da tinta do Borges dos livros constitutivos da torre de Babel, se desdobrando em tipos enciclopédicos e insólitos, hoje já de amplo reconhecimento leitoral.

Por esse viés, Sylvia Molloy, no prefácio do Livro dos seres imaginários, conduz a leitura de Oliveira a concluir que “a literatura é o espaço privilegiado para essa animalidade que se sustenta não apenas em termos de metáforas ou de alguma figura de linguagem outra, mas por intermédio do artifício ficcional, em que a pele do escritor torna-se outra.” Donde poder-se deduzir, por exemplo, imageticamente, a possibilidade transubstanciadora das palavras mágicas segundo a xamã esquimó Nalungiaq: “Em tempos ancestrais – quando pessoas e animais viviam na Terra, - uma pessoa podia virar um animal se quisesse – e um animal podia virar um ser humano. – Todos falavam a mesma língua. – Naquele tempo as palavras eram mágicas. – A mente humana tinha poderes misteriosos. – Uma palavra dita ao acaso – podia ter consequências estranhas. – De repente ela ganhava vida – e o que as pessoas queriam que acontecesse, acontecia. – Só o que era preciso era dizer. – Como explicar isso? – As coisas eram assim.”

Claudio Daniel destaca, em “Um zoo de signos – os bestiários de Wilson Bueno” (Zunái, 2004), ter o poeta paranaense criado 34 seres inconcebíveis, assumindo a sentença de Augusto Monterroso de que “as novas gerações de escritores deverão retomar, cada qual na medida de seu talento, a inventiva tarefa que começou com Esopo, ou mesmo antes dele, de reunir os animais que pela Terra andam e hão de andar perenemente.” Então surgem, da linguagem wilsonbuênica: os ivitús que mitigam a dor da saudade nos índios; os microcães guapés, que fazem ninho em oco de árvores; os giromas, criaturas esféricas cheias de olhos; os agôalumem, raça de monstros marinhos que desperta angústia e medo em marinheiros, descrevendo esses animais através do peso, altura, coloração, hábitos sexuais, alimentares e capacidades físicas, situados nas florestas brasileiras, província do Chaco, Islândia e Indostão.

Derrida cunhou, felizmente, o neologismo animot, homófono de “animaux”, mas também de animal + mot (palavra), em francês, com o que, analisa Maria Esther Maciel, se justifica que a animalidade não é nada além de linguagem. Por isso, lê Piskorski, qualquer classificação, qualquer comparação de um animal a outro já desliza para o “registro poético”, uma vez que a poesia sempre é o meio daquilo que já deriva para o incompreensível. Assim como os animais.


Prosopopeia para pensar a forma homem

O bestiário de Eustáquio Gorgone usa a figura de estilo prosopopeia para dar vida, voz, movimento a animais via de regra reais no convívio doméstico, sendo este o diferencial de A fortaleza de feno. Neste livro, o poeta não inventa uma pele para cada animal do seu zoológico, tampouco extrema a ousadia de clonar monstrengos através de neologismos híbridos oriundos de literaturas que dialogam entre Ocidente/Oriente.

Os animais de Gorgone são mais universalmente...mineiros, líricos, integram a alegoria montanhesa, catrumanos como ser de esgueira; eles pensam, praticam religiosidade, ensinam coisas aos humanos à moda de Guimarães Rosa, têm repertório de proseado próprio e muita tradição interiorana. Nele o frei é Cervo, Grilo; a madre é Cotia; o boi é dançarino e tem sapatilha de ferro. Os poemas têm a forma de narrativa por indeterminação, o que aumenta o estranhamento: “certa noite ouviram a taramela ranger” (8) – “certo asno vinha bem vestido” (10) – “certa noite, viram-se afogados numa mistura de cola e verniz” (12) – “certa mosca caiu presa na resina” (44) – “sendo em três do mês de março – ela foi engolida pelas cobras – que desceram das montanhas” (46) – “certo lavrador venerava – uma medalha da Virgem” (66).

O poeta cria uma história de Minas e do mundo através de bichos domésticos que povoam o imaginário, sobretudo o decorrente da influência religiosa, materializando-a em pensares entre um “prólogo” que paradoxalmente implica em pensar a morte “magnificente ao abrir a sua flor” e “em seu par de chinelas”, e um “epílogo”, que culmina seu interpretar “o azeite num copo d´água”, falando “sobre a inveja, a glória, os romances escritos no pó”. Virtudes, valores, insolências, reificações, moralidades sob o crivo do conflito, tudo vive na alegoria, na animalidade das palavras que surtam na linguagem seus significados e surpresas.

A tartaruga Taia é antevista como um futuro cinto ecologicamente predatório, o cavalo que fica bom na foto causa inveja no corvo, o macaco leva na coleira o Livro das Confidências e morre enforcado em cordas de pura tripa; o galo, por medo de um presságio apocalíptico “quando os sinos soassem suas línguas de bronze”, esconde-se numa meda, que é simplesmente queimada por mãos humanas, com o galo dentro (e traz à tona o velho ditado mineiro: “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”); um tatu Nai-Nai roda mundo num caderno de garatujas, morcegos querem saber por que Clara, a bordadeira, veio ao mundo, cujas tranças “foram depositadas no altar de San Buenaventura” e por que o padre Castilho ordenou “que lavassem as torres com creolina e sabão de cinzas”. Por que haveria um ganso ter uma oficina onde são encontrados “um furador de vaivém - duas grosas inglesas – uma escova de cabo largo – um serrote com dentes de flores usado para dividir o mundo em partes desiguais”? Que sabedoria encerra em seu ofício não ultrajante o gafanhoto que se esconde na casa do vigário por recusar-se a entalhar a Santa Ceia? Pode um besouro “mediar uma trégua imaginária”? Louvável a mosca sentir o orgulho pelo fado de morrer presa na resina, mas não no esterco como suas irmãs? (moral da história: pode-se escolher do que sei vai morrer, se a morte mantém-se ultima ratio?) A raposa, antes emblemática nas fábulas de Esopo & outros, agora mal consegue desassossegar as pessoas que leem horóscopos em casa. A justiça: um galo jurisprudente que “trombou com o asno togado”? (ad hoc: a justiça, além de cega, é burra?). É verdade que “só os cães do campo-santo – chegam ao fim da existência – uivando a mesma nota”? Uma boa ação?: o poema “A boa lebre”. Responda se for capaz, rapaz da onda: “o sucessor do sol é o próprio sol, - mas a alma do pastor de ovelhas – por acaso é a sua alma escolhida?” Quer a triste coruja decifrar “os redemoinhos – na esperança de desvendar os segredos dos amantes”, e, para tanto, ela estuda “a trama dos novelos – as erosões na borda dos lábios – o lado mais frágil dos ossos”, interessando-lhe, por isso, “toda casualidade – anéis sem pedras, unhas fendidas – esporões e poemas inacabados” – conseguirá? Que o leitor não se afobe e carpe diem : a morte retorna, realisticamente lírica, em “O grilo.” Toda história é pó e ao pó voltará a ser (atente-se: voltará a ser): eis a lição de “Sociedade”. Duas alegorias fantásticas e belas: “Corda & peixe”, “O por do Sol”. O que você pode esperar de “O destino da rosa”? Desfecho similar ao da caverna de Platão? Ou de “O nome da rosa”? Ou, quem sabe, remoer Gertrude Stein e concluir que mesmo na solidão das trevas, livre da língua de fogo do relâmpago, a rosa é a rosa. E, no mínimo, para servir de comida para a saúva que a salvou de ser devorada pelo acendedor de incêndio da natureza.

Os poemas de A fortaleza de feno têm as marcas da mineirice: a desconfiança, a religiosidade como código cultural barrocontemporâneo, realismo mágico, bestiário, crendices, dimensão metafísica, semiótica regionalista: os achados linguísticos criadores do estranhamento, da perspicácia do inusitado, dos mistérios da aura mineira incrustados não apenas nas falas, mas até no silêncio montanhês, a “temática lírica [que] não requer uma linguagem sentimentalista, melancólica ou confessional para expressar a profunda tristeza de uma rotina de solidão” (apud Rogério Barbosa sobre Affonso Ávila, em Tese, v. 2, p. 87-94, dez. 1988, BH/MG), superação da superficialidade das palavras em busca do significado-sábio da linguagem, ironia. E muito mais que o leitor poderá descobrir no fértil zoológico de nomes e suas tramas criadas por Eustáquio Gorgone. A leitura é saborosa como dar bicho na cabeça. À exceção do piolho, do rato de biblioteca e da traça na folha de papel.

*marcioalmeidas@hotmail.com