sábado, 9 de outubro de 2010

A confissão











Fernando Portela*

No fim da vida, vou ser obrigado a confessar que devo todo o meu sucesso, prêmios internacionais e outras homenagens ao ditador Porfirio Luz. E, se o meu país realmente me considera um dos seus símbolos, possui, por consequência, uma certa dívida para com “O Sanguinário”.

Acabo de dizer isso e ouço, agora, esse “uuuuuu” surdo da plateia. Pensei que seria assim mesmo, que vocês se chocassem e que até imaginassem este meu ato como um delírio próprio da decrepitude. Mas tenho testemunhas do que vou lhes dizer e, se for o caso, eu as recrutarei. Acho que possuo alguma credibilidade.

Em nenhum momento, senhores, demonstrarei simpatia política pelo ditador. Pelo contrário. A memória dos “mortos queridos da resistência” pautou minha vida de ativista e formou meu caráter. Não esquecerei, jamais, também, os anos de exílio a que fui submetido.

A verdade sempre faz bem aos anciãos e realmente não posso conviver, neste meu fim de vida, com a culpa do meu encontro secreto com o “Papá Morte”.

Eu havia publicado, com dinheiro emprestado do meu padrinho, o meu primeiro livro de poemas, um livro modesto, fino, que eu mesmo distribuí pela universidade, vendendo-o a um dólar e meio. Um dos poemas, não exatamente o mais fraco deles, mas um dos mais discretos, chamava-se “Porfirio no Espaço”. Quando o escrevi, tinha em mente apenas um personagem de ficção, alguém que por acaso se chamava “Porfirio”. Não pensei, jamais, no “Monstro Engalanado”.

E era poesia, pós-lírica, ingênua e quase juvenil, aquele texto em que Porfirio, o personagem, vagava por entre galáxias, como um Pequeno Príncipe sul-americano, só que em busca de uma saudade que deixara de sentir. Vejam vocês que coisa boba, um produto do sentimentalismo antiquado do jovem romântico que eu era.

Dois meses após ter lançado a obra, ou seja, ter vendido o primeiro exemplar no diretório central dos estudantes, justamente a Maria Almeja, minha querida professora de Idiomas, um oficial à paisana bateu lá em casa. Era um homem cordial que só se assemelhava a um dos cães do ditador por causa do corte de cabelo à escovinha. Nesse tempo de terror, qualquer estranho que batesse à nossa porta, ainda mais um homem bem vestido e bem alimentado, não podia ser boa coisa. Minha mãe tremeu quando ele pronunciou meu nome, apesar de ele tê-lo dito com respeito, sem qualquer traço de agressividade.

“O rapaz deve voltar dentro de meia hora”, disse minha mãe. “Foi comprar pão e leite. É meu filho.”

O homem perguntou se poderia aguardar um pouco, minha mãe lhe ofereceu a cadeira de balanço do terraço e perguntou se aceitaria um copo de água, que ele recusou discretamente. Anos depois, esse homem, que se chamava Afonso Corados, viria a ser o todo-poderoso ministro do Interior, acusado de corrupção e exilado em Miami. Morreu há uns três anos, com mais de noventa.

Quando cheguei e vi Corados me esperando, senti-me dentro de uma masmorra, talvez pendurado numa das famosas máquinas de tortura. Minha mãe leu meus pensamentos e começou a chorar. O homem ficou constrangido. E foi direto:

“Se a senhora pensa que seu filho está preso, acalme-se. Eu vim até aqui convidá-lo a conhecer algumas pessoas no palácio, em função do seu último livro de poemas.”

Minha mãe agradeceu apoiando-se no braço de Corados, que ainda lhe disse “Não se preocupe”. E só aí ele se apresentou a mim, pegou o leite e o pão das minhas mãos e levou-os até a mesa da sala, sem que o tivéssemos convidado a entrar. Depois, enlaçou-me pelos ombros. Era um homem imenso, de quase dois metros de altura.

“Meu rapaz, você terá a honra de conhecer o nosso presidente”, ele disse. “Talvez o nosso presidente seja o seu maior fã.”

“Mas, senhor, eu tenho vinte e dois anos e escrevi apenas um livro na minha vida...”

“Sim, ‘Pássaros sem Paisagem’: é o livro de cabeceira do nosso presidente.”

Aí eu me lembrei de “Porfirio no Espaço”, imaginando que o poema tivesse acendido o ódio do “Sanguinário”. Mas, se fosse verdade, por que ele mandaria um assessor importante me convidar a visitá-lo? O pânico não fazia sentido.

Pedi licença para trocar de roupa, pus meu único terno e lá fui, junto com Corados, a pé mesmo, pois nossa casa ficava a uns três quarteirões do palácio e os assessores ainda andavam pela rua sem escolta. Depois é que a guerrilha começou a matá-los em qualquer lugar.

O ditador me recebeu pessoalmente à porta imensa do palácio. Era diferente da imagem dos jornais, talvez porque as fotos fossem em preto e branco e mal definidas. O que parecia cor morena nas fotos, por exemplo, era um bronzeado intenso, de quem passa as manhãs na praia. Nas fotos, ele jamais sorria, e ali, pessoalmente, ostentava uma dentadura alvacenta, de dentes pequeninos, que me pareceu artificial. Ninguém, naquele idade, e ele já teria uns setenta anos, possuiria dentes assim tão bem tratados. Havia, junto a ele, outros assessores, uns quatro, rapazes muito jovens, mais até do que eu, e lembrei-me de que a oposição costumava falar da predileção do “Papá Morte” por meninos. Foi uma outra preocupação que tive.

“Meu poeta!”, o general abriu os braços para me abraçar. Tinha a minha altura, mas estava muito além do peso. O abraço foi apertado e íntimo, e eu retribuí do jeito que pude. Senti um cheiro forte e agradável de raízes, ele não economizava perfumes.

“Venha, venha”, ele me puxou pelo braço, fez um gesto com a cabeça para que todos se afastassem e foi me levando pelo amplo saguão, de pé direito de oito metros, ou mais, onde se destacava um lustre art noveau com milhares de lamparinas acesas. Muito bonito. Havia ali, perdidas no meio do imenso espaço, duas poltronas e uma mesinha; foi para lá que me levou.

“Meu querido filho”, me disse, olhando-me diretamente nos olhos, “todos os dias eu choro mais de uma vez por causa de ‘Porfirio no Espaço’. Tenho certeza de que você não o fez para mim, mas o poema evoca a minha própria infância, que passei fora do nosso país, como você sabe, e os voos de Porfirio, que você descreve com tanta maestria e sensibilidade, são, ou melhor, foram os meus próprios voos na juventude”.

Por um momento, procurei recordar o poema, imaginando que ele se prestasse às fantasias de um jovem homossexual, mas o meu Porfirio era apenas um garoto sonhador, com o sexo no lugar certo.

“Você não vai me dizer nada? Nem uma palavra?”, o general sorriu.

“Estou muito surpreso”, lhe respondi com sinceridade, “jamais pude imaginar que um trabalho meu pudesse causar este efeito...”

“Os caminhos da arte são mágicos, meu rapaz. Acho que você merece uma editora de peso, uma boa distribuição e até versão para outras línguas.”

Fui replicar, mas ele delicadamente pôs a mão na minha boca.

“Nã, nã... Nada diga, meu rapaz. Sei que você se preocupa com seu futuro, em parecer um poeta oficial, protegido do ‘Papá Morte’... Eu sei quem sou e o que represento para o nosso país. Sei o que os estudantes pensam de mim. O que você pensa de mim. Não se preocupe. Venha, quero lhe mostrar uma coisa.”

O general pegou-me pelo braço, novamente, e me levou a um longo corredor, de portas cerradas a cada lado, até que encontramos a maior de todas as portas, feita em carvalho trabalhado. Entramos. Era um pequeno teatro de uns cem lugares que, pelo jeito, também servia de sala de projeção.

“Fique aqui, rapaz. Eu vou para o palco.”

Talvez tenham sido os minutos mais longos da minha vida. Eu, no escuro, sentado num teatro vazio à espera do “Sanguinário”. Mas as luzes se acenderam e lá estava ele, de jeans e camiseta, pronto para a performance. E começou a declamar “Porfírio no Espaço”, com talento próximo da genialidade.

Vou confessar a vocês: eu aplaudi. Não para bajulá-lo ou coisa parecida. Aplaudi pela sua sensibilidade e, por que não dizer, competência dramática.

Antes de me despedir, disse-lhe, com a gentileza que me foi possível, que fazia parte da oposição não exatamente ao seu governo, mas ao regime autoritário que representava. Que não concordava com as mortes de revolucionários e o gigantesco aparelho de repressão de que fomos vítimas por tantos anos.

“Você não seria um jovem de vinte anos se não pensasse assim”, me disse. “Fico feliz que tenha dito isso, eu ando cercado de mentiras agradáveis, de falsidades e ganâncias.”

Beijou-me na testa ao se despedir de mim. Foi assim, de repente; eu não esperava aquele gesto. “Desculpe-me, não pude evitá-lo”, ele se desculpou.

Logo depois fui descoberto pela editora Lapax, que imaginava de oposição ao governo, pela obra destemida que, aparentemente, tentava publicar. Ganhei muitos prêmios, sempre ligado à oposição, fui traduzido para oito línguas antes de completar vinte e sete anos, e todos os críticos me idolatraram naquela época.

Nunca mais vi o “Papá Morte”. Sabem, até hoje não consigo responder a mim mesmo qual a extensão da sua influência sobre minha carreira. Eu precisava dizer tudo isso um dia, publicamente, e me livrar de alguns pesadelos pessoais que sempre me perseguiram. Agradeço muito a atenção de vocês. E fiquem à vontade para vaiar-me ou jogar ovos podres sobre mim.

*fatportel@gmail.com