sábado, 9 de outubro de 2010

Não são mais crianças











Paulo Lima*

Naquela manhã de sábado Ed foi almoçar com a família, um típico programinha classe média. O restaurante estava calmo. Havia por lá apenas um grupo de adolescentes, rapazes já na puberdade, com uma grande semelhança entre eles. Primos e irmãos, Ed pensou. Todos pareciam muito educados, falavam em voz baixa e se entendiam muito bem. Em outra mesa tinha um casal, mas não dava pra saber se eram casados ou namorados. Não conversavam entre si enquanto esperavam pela refeição – na verdade, mal se olhavam, embora não houvesse qualquer sinal de tédio ou hostilidade entre eles. Ed achou isso de mau agouro, talvez um sinal de que as coisas não estivessem indo bem com eles. Ed era muito sensível para essas coisas. Ele deu uma olhada em sua mulher. Ela estava brincando com a mão da filha, numa cena de cumplicidade típica entre as duas.

Todos aguardavam seus pedidos. Uma enorme TV tela plana estava mostrando um filme com imagens do fundo do mar. Ed fixou-se por algum tempo naquilo. Depois a coisa passou a ficar monótona. Ele voltou a olhar para o casal, depois para o grupo de adolescentes e então pousou o olhar sobre o filho. Notou suas espinhas e seus dentes grandes e brancos, enquanto ele falava. Então se deteve num detalhe. A barbicha e o bigode incipiente, que tanto o divertiam e lhe lembravam que o filho estava se tornando um rapaz. A barbicha e o bigode não estavam lá! Haviam sido removidos - uma remoção meio canhestra, mal feita. Ed tomou um susto. "Cadê a barbicha?", perguntou. "Tirei", respondeu o filho, dando de ombros. "E quem tirou?", quis saber. "Eu mesmo", o filho respondeu com desinteresse. Foi como um choque para Ed. O filho vivera um ritual de passagem e ele não tinha tomado conhecimento. Por que não fora ele a orientar o filho? Sentiu-se humilhado, desnecessário. Foi como se, numa foto familiar, tivessem apagado sua imagem. É como se um vendaval tivesse invadido aquela sala e revirado o ambiente. O orgulho paterno de Ed havia sido ferido, como se tivesse sido atingido por um objeto cortante.

Ele voltou a olhar para o rosto do filho. Pensando bem, até que ele não fora tão inábil, levando-se em conta que aquela podia ser a primeira vez em que ele fazia a barbicha e o bigode. Pensando bem, ele ficara melhor sem aqueles traços. É como se tivesse retornado à infância – e Ed notou em sua observação um desejo consciente de que ele ainda permanecesse por lá, assim não teria de vivenciar agora os tormentos da adolescência.

Mas isso, Ed notou, era também um desejo – igualmente consciente – de não ter de quebrar a cabeça com problemas. Ele sabe que filhos trazem muitos problemas. E todos dizem – seus amigos com filhos mais velhos viviam dizendo isso – que as broncas com os filhos começam pra valer na adolescência.

Ed sentiu-se vulnerável. Como é que pode uma coisa dessas? A manhã parecia tão calma, suas obsessões estavam todas lá em algum lugar da semana, não ali com ele, naquele momento. E agora, de repente, ele estava imerso naquele dilema. Como é que se explica isso?! Lembrou-se da infância dos filhos. Se ele corresse os olhos por sua biblioteca, ainda os encontraria por lá, os livros que comprou quando os filhos nasceram. Primeiro veio o menino. Depois a menina. Um intervalo de três anos. Cada fase com suas dificuldades e suas alegrias. “Crianças pequenas, problemas pequenos”. “Crianças grandes, problemas grandes”. É um ditado alemão que um professor alemão lhe havia ensinado. Na época, ele nem sonhava que seria pai um dia. Mas as frases ficaram armazenadas em sua mente. Tinha boa memória. Ele achava que coisas como a paternidade são um destino natural de todos os homens, assim como a maternidade um caminho óbvio para as mulheres. Havia um determinismo nisso – tipo uma sentença biológica. Ele não entendia aqueles que faziam uma opção consciente por não ter filhos. Considerava essa espécie de gente por demais hedonista. A elas se aplicaria uma palavrinha: egoístas. Sim, isso é o que eram.

Hoje ele sabe que os pais padecem de uma ilusão pedagógica. Procuram acompanhar todas as fases dos filhos – isso quando são responsáveis. E a esperança é que esse acompanhamento lhes dê um controle sobre a vida dos filhos, evitando que o pior aconteça. Intenções edificantes; sonhos grandiosos; futuros brilhantes; sucesso, sucesso, sucesso; saúde e força física; beleza. Nisso é que consiste a tal ilusão pedagógica.

Os pais sérios leem Winnicott e Piaget. Os ultrazelosos (obcecados) mergulham em Melanie Klein – e até em Freud. É parte da ilusão pedagógica. O universo da criança tem de ser compreendido nos seus mínimos detalhes. Na estante não devem faltar compêndios instruindo sobre a natureza de cada etapa de vida da criança.

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Uma vez Ed estava aproveitando um feriado na praia. Seu filho ainda um bebê, coisa de meses. A mulher ainda se recuperava do parto, as marcas da maternidade rondando seu corpo como uma sombra - a cintura larga, os seios fartos, a barriga protuberante. Um casal se aproximou para uma conversa. Eram os únicos hóspedes da pousada além de Ed, a mulher e o pequeno filho. O casal era experiente, filhos crescidos no mundo. O viés da conversa não poderia ser outra: filhos. Ed desanda a fazer citações, conhecimentos de algibeira sobre crianças e filhos que ele tinha lido nos livros. Mas aquele casal experiente estava em outro nível. Eles sabiam por terem vivido, era o tipo de conhecimento que se aprende na pele, por meio dos erros e acertos. Eles não tinham mais a ilusão pedagógica. Ed ouvia a música que vinha do quarto do casal. Um som romântico. Estavam saboreando uma pequena lua de mel, sua pequena ilha de prazer. Os filhos deviam estar no mundo. Os dois casais se encontravam nos horários das refeições ou ao cair da tarde, quando Ed e a mulher levavam o filho para pequenos passeios dentro da própria pousada. A mulher do casal era mais gentil, mais aberta. Ela espiava o bebê dentro do carrinho. Olhava e dizia um ou outro elogio, mas não ia além desse ponto. Ela já vivenciara sua cota. Um dia essa mulher disse a frase fatal, que até então Ed não tinha lido em nenhum livro.

- Criamos os filhos para nós, com zelo e carinho. Mas acontece que os filhos devem ser criados para o mundo.

Foi dessa maneira que ela falou. Assim, com tanta simplicidade, mas com o impacto de uma rocha que se move montanha abaixo. É como se ela estivesse retirando o filho de Ed do ninho em que estava para oferecê-lo a pássaros famintos. Uma mãe sem coração e distante, ele pensou. Uma egoísta.

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O garçom acaba de servir os pratos. A fome que Ed sente o faz esquecer temporariamente o assunto da barbicha e do bigode, uma espécie de capítulo do livro inegostável Pais&Filhos.

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Ed relembra. “Na minha adolescência fiz uma leitura devastadora. Li o livro Pais e filhos, de Ivan Turgueniev. Para um filho rebelde e contestador como eu era, foi como alimentar um incêndio, acrescentando combustível às labaredas. Nesse romance, o russo Turgueniev criou um personagem que questionava as relações familiares, criticando o autoritarismo dos pais. Vivi turguenievianamente durante muito tempo, pronto para atear fogo em qualquer pessoa que se valesse de sua autoridade para impor condições ou valores, e isso incluía pais e professores.”

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Ed reflete: “Se meu filho fora independente para fazer sozinho sua primeira barba, o que não poderia fazer (ou estaria fazendo) sob seu livre-arbítrio, sem carecer do pai? Não era um adolescente rebelde (ainda não), não teria seu momento Turgueniev. Mas como garantir? A voz de homem já estava praticamente lá. Era só erguê-la para cantar de galo.”

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O almoço estava apenas passável. O peixe estava puxado a sal. A esperança de Ed agora era a sobremesa. O filho, com o apetite típico dos 15 anos, limpou o prato. Limpinho da silva.

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Os novos teóricos das relações familiares incorporaram uma expressão, que utilizam a três por quatro. Família disfuncional. É o apelido da família moderna, que se contrapõe à família à moda antiga. Esta era a família nuclear. (Ou é, não se sabe bem).

A família disfuncional representa o desregramento das relações familiares. Filhos que moram apenas com o pai ou a mãe. Filhos que moram sozinhos. Casais de mesmo sexo pleiteando o direito à paternidade/maternidade. Etc. Um vale-tudo.

A família nuclear é como o nome diz, per si. É (ou era) algo coeso, um arranjo clássico: pais e filhos vivendo sob o mesmo teto em harmonia, todos fazendo parte de um mesmo núcleo.

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Ed divaga: “Na galeria de pais tremendos - verdadeiros horrores históricos - figura um sujeito chamado Hermann Kafka. Quem se deu ao trabalho de ler Carta ao pai (como eu) detestou o velho Hermann, o pai de Franz Kafka. Eu não teria admitido um pai tão autoritário. Não entendo por que Kafka foi tão subserviente e tolerante. Ler a Carta foi algo muito edificante. Fiz a mim mesmo um juramento solene de que jamais seria como Hermann, caso um dia viesse a pôr um filho no mundo. Mas nunca se sabe.”

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Para os pais, os filhos são eternas crianças. Mas quando se dão conta, eles cresceram. Os primeiros sinais são os que vêm do corpo – como o primeiro barbear.

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Aquela foi uma manhã e tanto. Ed pagou a conta e deixaram o restaurante. Ele tinha certeza de que algo havia mudado, uma transformação silenciosa tinha ocorrido. Sabia que não estava longe o dia em que sua mulher iria avisar (não sem uma pontinha de ciúme mal disfarçado):

- Nosso filho está de mudança, quer saber o nome dela?

*paulo_val@uol.com.br