sábado, 9 de outubro de 2010

O eu à flor da memória











Joaquim Moncks*

“... Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.”

(Poema para iludir a vida, Fernando Namora)

Deixa um pouco de ti em minha imensa solidão, deixa palavras ao ouvido e corpo colado. Ando triste e preocupado com o andejar dos dias. Não encontro motivos para continuar andando sem rumo.

Os caminhos da primavera me contam de flores, mas eu só vejo tristezas e injustiças à minha volta.

Nesta quadra dos sessenta (maturidade?), pensei num mundo melhor equilibrado, mais criativo, porém o que observo e transcrevo, não anima a perspectivas mais promissoras.

Eu, que tanto aprecio a alegria, me contento com as tristezas da enfermidade grassando nos afetos e o ambiente que me acolhe é um palco de sofrimentos.

Dizem que Deus existe, que consola e acode, mas está tão longe de mim, que sou um reiterado pecador. Acho que estou doente, porque ele estaria dentro de mim como um pássaro e eu o sentiria voejar nas artérias.

Por isso, mais uma vez te peço: tinge a minha vida de belezas e me dá um beijo com paixão. Cada vez mais percebo que a vida se resume à modorra do passar do tempo. Vale pouco o estar no mundo...

O afeto tem várias nomenclaturas e muitos estágios para a condição humana, na aflição dos dias.

O Amor tem variados rostos. E o que se leva para o dia seguinte é o calor das palavras e do corpo. Nem o silêncio é mudo...

À ardência fogosa segue-se um estado de crise, de mudança de valores e hábitos. Haverá algo tão efêmero e, ao mesmo tempo tão duradouro quanto o desejo de amar? O mastigar dos afetos, no limiar dos corpos, é saudade ensaiada ou o retorno ao útero?

Deixa-me nadar na tua placenta... Talvez seja este o elemento instintivo de todo o vivente: boiar, tal uma cortiça, à flor da memória.

Ou eu sou eu mesmo dentro Dele numa permanente fagocitose?

– Do livro O novelo dos dias, 2010.
Publicado também no Recanto das Letras

*joaquimmoncks@gmail.com