sábado, 9 de outubro de 2010

O signo do perneta











Júlia Gaspar*

Acordei às 5h30min da manhã como todos os dias. Resmunguei com o despertador e cochilei mais 10 minutos. Levantei num impulso, tomei um demorado banho, me perfumei e tomei um farto café da manhã. Fui até o ponto de ônibus, reclamando minhas unhas mal feitas. Deixei o primeiro passar, estava muito cheio. Peguei o segundo e sentei na janela como sempre faço.

Escutava o meu "MP3", quando entra, pela porta da frente, um homem de apenas uma perna. Comovi-me, mudei de estação. Numa rapidez incalculável, ele distribuiu papéis, pedindo dinheiro. Não tive tempo de negar. Para minha surpresa, ele senta ao meu lado. Para a minha repulsão, encosta seu braço no meu.

Fico nervosa. Penso em mudar de lugar, penso no primeiro ônibus que era o que eu deveria ter pegado. Fico quieta e guardo o meu "MP3", que reproduzia os versos: "Ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir, tenho tanto pra contar, dizer que aprendi." Ele ajeita o curativo da sua "metade perna", levanta com agilidade, recolhe os papéis e desce do ônibus. Alívio...

Chego à faculdade. Minhas amigas comentam os efeitos da "escova progressiva", alguns dos amigos matam aula para fumar maconha na esquina, outros se realizam contando as proezas das "nights".

No intervalo, vou à biblioteca folhear os jornais. Só dá grã-fino. Quase me esqueço de olhar o horóscopo. Vejo a previsão para o meu signo, para o da Claudinha, o da Renatinha, e é claro... Não podia deixar de olhar o do Fabinho. Leio tudo o que queria que estivesse lá. Ao fechar o jornal penso: "Qual seria o signo daquele perneta?”.

Voltei para a aula. Assunto de filósofos, gente que pensa muito e acaba ficando louca. Depois... Sociologia. Esse cara acha que saca tudo do mundo. Será que ele saberia o signo daquele perneta? Não resisti. Perguntei mesmo, fui até educada. Mas a turma toda riu. O professor me mandou sair de sala. Quanta censura... E eu aposto que sabe o signo do Hegel, do Comte e dessa galera toda.

Fiquei muito contrariada. Tentei negociar. O cara achou que eu tivesse falando de signo linguístico, mensagem, paradigma, índice, ícone, símbolo... Eu disse: "Nããão! Eu só queria saber a sacanagem que a astrologia armou para um mendigo que conheci." O diretor me mandou sair da sala, porque ele tinha coisas sérias para resolver.

Passei na cantina e fui para casa, desta vez de van. Chegando, fui logo tomar outro banho e almocei tomando coca-cola light. Depois dormi um pouquinho. Com a boa consciência dos justos.

Acordei com o meu pai ligando de Brasília. Ele trabalha lá, rodeado de gente importante. Do capital e do poder. Antes que ele fizesse as mesmas perguntas, indaguei sobre o signo do perneta. Algum daqueles engravatados de Brasília deveria saber! Mas antes que eu terminasse de falar, me interrompeu dizendo que eu não andaria mais de ônibus. Por que as pessoas ficam com raiva quando eu falo do perneta?

Liguei a tevê e assisti a todas as novelas. Acompanhei o telejornal, acreditando sempre em tudo. Fui dormir entre lençóis cheirosos e pensei: "Que injusta e desigual é a conjunção dos astros".

*Júlia Gaspar é jornalista e poeta. Contato: gaspar.julia@gmail.com.