sábado, 9 de outubro de 2010

Uma leitura de Conto dos dias











Márcio Almeida*

Concentrado como uma pílula, o opúsculo Conto dos dias, lançado recentemente por Adriana Versiani, traz em si a dificuldade, hoje, de agrupar sob rótulos genéricos as tendências da narrativa curta produzida no País.

O livreto, no entanto, tange convergências para a identificação de uma literatura biológica, subjetiva, monológica, emocional sob rígido controle, feminina, urbana.

É uma experiência intimista como elemento do saber. “Uma escrita”, diria Heloísa Buarque de Holanda, “que não quer ser literatura”.

Fragmentária, em tom introspectivamente confessional, a micronarrativa de Versiani insere-se no “índice da impossibilidade da confissão total” praticado, por exemplo, por Ana Cristina César; da impossibilidade das relações humanas, da cidade como ameaça, mesmo olhada do alto da janela, a provocar desejos de um salto no espaço, como, aliás, ocorreu com a poeta de Inéditos e dispersos e de outros livros, em 1983.

Conto dos dias tem três dimensões estruturais de leitura: a primeira, alusiva à literatura como referência de si mesma, agora sob produção de uma nanonarrativa de que são autores Marçal Aquino e Mauro Pinheiro:

Universo da palavra (...) essência da palavra (...)
oco da palavra (...) com quantas palavras se
desvenda um enigma?

A segunda, caracterizada por uma linguagem física e orgânica, incomum, originária, por exemplo, na linhagem de uma Clarice Lispector. Nela, com palavras de Lúcia Helena, “caberia à literatura ir além do seu próprio corpo, embora a partir dele.”

Não flui não toca células impermeáveis abrigam
mitocôndrias e seu ciclo. Não flui não troca esgo
tam-se as possibilidades de produção de energia.
Inércia. Não flui não troca enzimas engolem enzi –
mas que engolem enzimas que engolem enzimas...

A terceira, marca a presença periclitante da paisagem e do cenário urbano:

No centro dessa praça onde tudo reverbera:
pássaro, rosa, chuva, verbo. Morro, topo do
mundo, coração disparado na linha de tiro(...)
no coração do mundo.

A tríade linguístico-temática põe em choque e xeque a condição humana, a situação anódina, a recepção de um texto em seu contexto agônico. Como se a autora assumisse Ferreira Gullar: “uma parte de mim é só vertigem, outra parte linguagem.”

A consciência visceral de estar escrevendo, vindo (de novo) do fundo de um abismo para cima, após a vivenciação real e em tempo idem de um conflito de vida/sobrevivência agora veladamente explícito.

O que originou essa situação-problema no conto diário de um abril fatídico (ou quase?) “Medo da morte e da violência, constatação da solidão inevitável, da impossibilidade da família, do consolo impossível de ser encontrado”, como Beatriz Resende elenca entre as especificidades da narrativa curta na produção brasileira contemporânea?

“Uma saída de vida”, como arrestou Ana Cristina César com a própria vida? Impactos de emoções em suspenso(e) é que não faltam:

Sobressalto. Sensação que desliza pela cintura
e ganha as plantas dos pés. (...) Com o coração
na boca digo sim. (...) Cérebro, não me abando
ne nessa nuvem (...) Vi um bebê de meio palmo
que respirava...

Conto dos dias tem essa profundidade de quem busca cantar “para o furacão dormir”; da sublimação do “realce de uma coisa que o entender da gente por si só não alcança”; “uma luz enorme que devora” emoções cansadas, eivadas de fastio e previsíveis, e uma certeza felizmente muito bem vinda para leitores exigentes – a revelação de Versiani: “permaneço escrevendo.”

This van der Lee tem razão: “o menos é mais”.

***

Mais amostras de Conto dos dias


18 de abril de 2007

8:00 h

universo da palavra massa escura antimatéria: corrente que arrasta esse mistério
essência da palavra cristal turvo, luz que dilacera toda luz: treva
oco da palavra, abismo que o abismo ronda. grandes dentes, margem que devora
barriga do mundo músculo teso vaso sagrado que te abriga
essência, procura, palavra






8:10 h

No parque, o jardineiro adolescente cuida do viveiro de mudas.

-O que vocês fazem com elas, quando elas crescem?
-Elas não crescem.

O viveiro de mudas é a Terra do Nunca.







23 de abril de 2007

7:20 h

Presa em um cubículo e uma situação aterradora lá fora.
Uma amiga me salva.

Ás vezes o inconsciente me apavora.

16:58 h

Tigre, dizem.
Percebo um milhão de feras dentro de mim.

Às vezes o inconsciente me apavora.

18:08 h

Mapa do céu, dragão solto na lua
Uma grande batalha se insinua
Valei-me São Jorge, guerreiro da fé!

Às vezes, o inconsciente me apavora.






18:34 h

Cantos escuros cercas de espinhos ondas gigantes
Nado de costas para ver o céu e beber a chuva e sentir o vento
Músculos tesos empurram a água

Inconsciente,

uma luz enorme que devora.
 

*marcioalmeidas@hotmail.com