domingo, 7 de novembro de 2010

Conhaque com gelo











Waldemir Marques*

Desconheço alguém outro que beba assim desse veneno.

A monotonia da rotina é cheiro forte de fêmea que não mais entesa.

Chega no terceiro arroto da madrugada com cara de preciso dormir. Abaixa a calcinha.

Tá certo, excita a gente. Gostoso, quase sempre. Mas não é o Santo Graal, a fórmula da coca-cola, a ressurreição de James Dean. É só o buraco por onde elas mijam o tempo todo e sangram por uns dias durante um tempo de vida. Até nojento, de certo modo.

Sem esquecer do cheiro. Ah! O cheiro!

Não sei porque achava que devia fazer aquilo.

Daí, decidiu ficar ofendida quando falei: “Dá pelo menos para esperar que eu peça? Enjoei, porra! Dá vontade de vomitar.” Me xingou a mãe. O pontapé no meio da barriga seco, sem barulho. Nem geme, recupera a respiração, as mãos até os pés, sobe a calcinha, ajeita o elástico na cintura, sai. Na raiva surgida do sem mais - apanha sempre sem reclamar, sabe que é e deve ser assim - esqueceu que devia ter vestido o resto das roupas.

Três pedras no conhaque.

Barulheira e gritaria do cacete.

Porta aberta no estrondo da porrada.

Onde, nessa diarreia defecada pela ignorância do colonialismo lusitano, a vadia foi encontrar um tira a essa hora?

A velha de cima reclama que é toda noite isso. O velho de baixo diz que no tempo dele só se via assim na zona. Estridente, o veado do fim do corredor guincha que “O-DEI-A!” escândalo de rachada por causa de macho.

Se contar da pacoteira de maconha muquifada na caixa da descarga, juro que mato ela assim que botar o pé fora da grade.

Que toda noite chega da vida com a grana, me encontra na cama com o Shell Scott, cansada de apanhar.

Quem era nem interessava: o rato já com satisfação bastante para manter a ironia no sorriso cínico por saber que eu dou o rabo. "O mistério das quatro pintas”. Foto do traseiro, pista única. A bunda dela, de vez em quando tem perebas, mas não pintas.

“Não, não sou o Ronaldo que despenca aídascurys curradas de sacadas de apartamentos. Só pareço com ele, mas sou mais bonito. Cabelo comprido por razão de promessa, sim senhor. Não, não conheço, não sei onde está o Promessinha.”

O tira covarde me leva de lado pelo colarinho, tapa na cara, me chama de vagabundo, o cano do berro na minha bochecha, pede duas notas de mil, diz pra eu ficar bonzinho, senão volta, "dessa vez para me matar" e me manda entrar.

Escorneio na porrada o primeiro vizinho que reclamar do volume alto. O que é que eu posso fazer se é cafona? O pau endurece dentro da cueca cada vez que ouço o Johnny Mathis cantando It’s not for me to say.

Beicinho na boca da cara de peixe morto. Que não sabe o que deu, arrependida, vai ver que a menstruação que está para descer.

O fio de sangue desce vermelho e gostoso do canto da boca antes mesmo de sumir o eco da bofetada.

No quarto, barulho de que está mexendo em fundo de gaveta lá dela. Volta na mão com umas cédulas de grana bem dobradinhas, deixa no pé do porta-retrato com a Marilyn pelada sorrindo provocadora feito em revista de sacanagem. Promete que amanhã sai mais cedo, se esforça para trazer mais. O filho da puta do tira levou os dois mil no achaque da mão grande. Noite dessas, na escuridão de qualquer quebrada, ganho ele na faca bem no meio das costas da sombra dele.

Porque, viver, no fundo, é apenas contagem regressiva. Pra que dar tanta importância ao que acontece de bom ou de ruim? No final, acaba tudo no estômago dos vermes, ou, mais ainda, na merda que eles cagam na terra.

Fungando o nariz melequento escorrido de choro engolido, ela abaixa a calcinha.

O cheiro: Ah! O cheiro!

Três pedras no conhaque.

* Waldemir Marques é jornalista em São Paulo e pratica “literatices”. Tem no prelo o livro Perversidades (não tão) Secretas. Costuma dizer que “é um tremendo sucesso como celebridade anônima no papel de identidade secreta do soldado desconhecido”. Contato: waldemir.marques@globo.com