domingo, 7 de novembro de 2010

Fim cinzento











Eduardo Sabino*

“Rosa, não me peça opinião sobre o seu vestido roxo”. Hoje ela veste alguma cor entre o inferno e o arco-íris. As bordas da saia estão longe dos pigmentos de moralismo abaixo dos joelhos.

Falar das cores, descrever um desfile de sombras. Veja este vulto elegante, que pode ser marrom, este outro, que pode ser verde, e mais outro, que pode ser cor-de-namoro-quando-acaba.

Sim, o espírito desbotado do fim está conosco.

Passou o tempo da hegemonia dos carros pretos, dos valores bilaterais. Invoco em visão panorâmica o tumor urbano: as células multicoloridas congestionando os vasos de asfalto. Poderíamos falar de objetos diversos que nos entopem, eu sei, mas prefiro as extensões do homem. Com exceção dos espelhos, tudo nos reflete.

As partículas de luz caem dos olhos de Rosa. Vejo-as estourando no sanduíche e isso me tira a fome. Lanchar ali deveria ser uma experiência psicodélica, pintura de muitas tintas, o fast-food.

“Você não me ama mais?”

Primeiro era o branco, radiação solar. Do branco veio o vermelho, o azul e o verde. Os cones são estruturas do olho humano responsáveis pela captação das cores. São como os amantes mais depravados: não se excitam no escuro. No menor sinal de treva as aquarelas se dissolvem.

“Eu te odeio. Odeio esta sua camisa laranja ridícula. Sua mãe tem péssimo gosto...”

O ódio dela alaranjado feito pôr de sol.

As cores virão a mim como a gravidade a Newton. Uma laranja cairá na cabeça e passarei a enxergá-las.

“Você está em trevas”.

Entre a treva e a luz. Nasci com a visão acromática. “Doença raríssima”, o médico revelou. A vida se desenrola em preto e branco, claro-escura. As figuras, das pedras aos homens, não passam de tonalidades de cinza.

Ela se levanta. Os olhos claros, que nunca saberei se são mesmo verdes... “Seu ingrato, eu aceitei sua doença, eu te dei apoio...”

Não sou um doente. Isso não faz diferença, ela deveria saber. Existe um vírus por aí pintando paisagens e descolorindo almas.

Rosa chora por mim como chorava pelo ex. Amanhã ou depois encontrará outro namorado. Se ele tiver um carro metálico-azul, muito papel verde, cartão de crédito... – de que cor são os cartões de crédito? – e outros utensílios carnavalescos, será chamado de “meu amor” logo, logo. Logomarcas não faltam para estimular tão nobre sentimento!

“Então, você não me ama mais?”

Ela sai andando em círculos no piso quadriculado. É a última vez que a verei assim, feito barata louca. Rosa ficará bem. Esse redemoinho não é amor. O amor se esconde entre imagens produzidas em série. Ainda descubro a sua cor.

*eduardosabino@caoseletras.com