domingo, 7 de novembro de 2010

Imagem e palavra












Joaquim Moncks*

Pelo que observo, tu estás ainda na casa dos vinte anos... E aonde foste buscar este gosto literário, rítmico-musical? É o que vivo a dizer: a cabeça dos poetas é similar ao periscópio de um submarino, sempre a ver o fundo e o longe das coisas... Também percebo que, nos poetas, a idade cronológica é diferente daquela que tem a sua cabeça... Os poetas olham os fatos dispostos no mundo pelo seu final, ou seja, com o olhar dos escolados, dos experientes de muito andar... Mesmo que o vate, nesta passagem, seja ainda muito jovem, o olhar é antigo... Surge daí que sempre propõe a ótica sobre a novidade: a face recém-nascida. Aliás, tem coerência o Senhor dos Mundos. Como chegar ao novo sem a antevisão do antigo? A figura do poeta chega com a perplexidade haurida não sei de onde, de que inesgotável fonte... Não há, neste plano, figura mais complexa do que aquele que percebe o mundo por máscaras e entrelinhas. E sem as desvelar, sem as desnudar, lança a verdade de sua observação pelos códigos de imagem e palavra. Tudo para que renasça o Novo na cabeça do receptor...

Do livro O novelo dos dias (2010).

*joaquimmoncks@gmail.com