domingo, 7 de novembro de 2010

Literatura latina pós-moderna: violência, droga, rock e cidades emblemáticas











Márcio Almeida*

Enterram-se as ilusões com os iludidos, cheios de generosa ingenuidade. O mundo, agora, é outro.”
Jorge Colli

Com o título “Americanos esquecidos”, Carlos Herculano Lopes publicou no Estado de Minas (30/5/04, pág. 4 – Cultura) matéria em que alude ao suposto “esquecimento” editorial dos autores latinos, após o boom por que passou a literatura do continente nos anos 60 e 70. Para resumir: o artigo faz um recuerdo em tom às vezes nostálgico daquele período neo-iluminista-barroco-mágico-fantástico e são lembrados os principais escritores, a exemplo de García Márquez, a luta da maioria contra as ditaduras então instaladas em seus países de origem, o glamour e o batismo de fogo propiciados pelo prêmio oferecido pela Casa de las Américas, em Cuba, e o progressivo desinteresse do mundo pela “imagem que se tinha de um continente exótico, palco de paixões exacerbadas, de regimes políticos violentos, de uma natureza luxuriante e belas mulheres”, como dá suporte teórico a professora da UFMG Maria Antonieta Pereira. Ao reconhecer a América Latina como “continente a ser descoberto”, alguns nomes novos haverão agora de vir à tona, entre outros o da chilena Damiela El Tit, os mexicanos Margo Glantz, Angeles Matiretta e Jorge Volpi; os argentinos César Aira e Alan Pauls; os cubanos Pedro Juan Gutierrez, Zoé Valdéz, Leonardo Padura e Reinaldo Arenas, todos prosadores. O artigo não se refere a nenhum poeta e a nenhum autor contemporâneo, em prosa e verso, do Brasil.

O que aconteceu? “Tudo agora ruiu, até o prodígio” (Eugênio Montale) da nossa sabedoria ilhada, de presunção requ(i)(e)ntada de loas submissas aos topi que engendram o pós-colonialismo de uma pretensa desterritorialização? Viva Homi Bhabha! “O que seria esse espaço político, como realidade local ou transnacional, é o que se interroga e se inaugura. O passado-presente torna-se parte da necessidade, e não da nostalgia de viver.” O esquecimento, se verdadeiro e mantido pelo truste editorial, seria em função de tirar sangue de “esqueletos luminares”, porque, lembrando o Conselheiro Aires machadiano, “os mortos se vão depressa”, e porque a reificação, segundo Gottdiener, assegura ao passado o “controle dos lugares, sua hierarquia restrita, a homogeneidade do todo e a segregação das partes”? Enfim: não se publica autor novo latino-americano porque é preciso “conter toda potencialidade real de oposição” àqueles cânones literários que desvelam “arcaicas exibições de decadência”? Nada disso. A atual produção de autores novos da América Latina, ao contrário dos simulacros fantásticos e mágicos típicos das décadas de depressão tem outro norte. E, nesse novo caminho da experiência de linguagem, o óbvio: “Todos os bens culturais têm uma origem sobre a qual não se pode refletir sem horror.” O leitor terá certeza disso já já. O momento, portanto, é oportuno para deixarmos de ser “prosélitos extasiados.”

Se se quiser avançar a intenção de C. Herculano Lopes, ou seja, reconhecer outros parâmetros de leitura desse suposto “esquecimento” editorial, há que se considerar olhares mais amplos e verticais do reboombar latino-americano. E, nesse caso, é viável, por exemplo, diz Gilberto Dimenstein, “a universidade se inserir numa comunidade de aprendizagem conectada com o que existir de inovação no planeta.”1 Do mesmo modo salutar, a crítica e a informação de resenhistas deveriam considerar, como analisa Alfredo Bosi, que “talvez o nosso processo de aculturação euro-afro-americano ainda esteja longe de ter-se completado.”2 É muito possível que o nietzschiano esquecimento aludido advenha de uma também provável intratemporalidade, que segundo Heidegger, se dá como “ser-no-mundo” para um “ser-no-tempo”, característica tão típica da especificidade literária da atual produção latino-americana. Nesse sentido é pertinente a reflexão do professor Ettore Finazzi-Agró, autor de Um lugar do tamanho do mundo (ed.UFMG) de que o pretenso esquecimento dos escritores latino-americanos (em prosa e verso) talvez seja apenas (o que todavia não é pouco) reflexo do “tempo preocupado” pontuado por Paul Ricoeur. Ou seja: o relógio “não vale para ajudar a pensar uma história que não se submeta ao tempo linear, continuando, porém, a ser pública apesar do seu anacronismo e da sua anomia, continuando a ser efetiva apesar do seu instalar-se numa falta.” A suposta falta, por sua vez, de interesse em se publicar obras de escritores latinos, pós-boom. O que, convenhamos, não bate com a realidade.

O que leva a professora Maria Antonieta Pereira a ter, há alguns bons anos, homéricas dificuldades para convencer editores pátrios a publicar livros de ilustres desconhecidos? Muitas podem ser as respostas. Uma, formulada indagativamente por Gerald Thomas: “Meu Deus, será que ninguém consegue mais escrever uma linha original nos dias de hoje?3 Ver-se-á que não é esse o caso. Outra, de Gilles Deleuze, que, inconscientemente, parece traduzir a opinião “de reserva” de muitos que omitem haver uma generalização digna da liberalidade literária, artística e cultural grassante no mundo, e o Brasil não foge à regra: “Espalhou-se a ideia geral de que todo mundo pode escrever, desde o momento em que a escrita se tornou o pequeno problema de cada um, de arquivos familiares, de arquivos que cada um tem na sua cabeça.”4 Ainda uma terceira (entre muitas outras que cada leitor poderá apor) referente ao fato de que talvez seja cabível à crítica acadêmica, hoje, incluir em sua prática aquela “visão a partir de lugar nenhum”, proposta por Thomas Nagel, visando a uma “humildade analítica” em desejável detrimento, diga-se, da “arrogância dialética.”

Outras vozes: o coro desafinado não diz amém

Existe uma nova literatura latino-americana. Debochada, anárquica, fragmentária, impiedosa consigo mesma, hiperrealista, sem papas (em todos os sentidos) na língua e na linguagem. Uma literatura anti-literatura que detona os conceitos arraigados na sua teoria específica, problematizando o pós-modernismo para gerações pós-modernas. É o que faz o colombiano Efraim Medina Reyes em Técnicas de masturbação entre Batman e Robin (ed.Planeta), onde detona a imagem de Gabriel García Márqueting, como o jovem refere-se ao prêmio Nobel seu compatriota. Com outros autores jovens, impõe o realismo urbano com sua crítica social, a incorporação da violência nas cidades, o narcotráfico, os elementos da cultura de massa, a narrativa-estilhaço. Em vez de se espelharem em clássicos paroquianos, endossam a influência da televisão e de uma nova forma utilitária da cultura popular, de Raymond Carver, Paul Auster, Truman Capote, Prince, Wim Wenders, Pixies e Nirvana, John Galliano, boxeadores, Emily Dickinson, Cesare Pavese, Kierkegaard, técnicas policialescas e o que marca o “desencanto” utópico, analisa M. Flamínio Peres5

Agora, em vez da adoração, da vênia respeitosa, as ações transgressoras, sarcásticas e iconoclastas, como as do grupo chileno McOndo, que desde 1996 satiriza o povoado Macondo criado por García Márquez. Ou a geração “crack” = ruptura, dos mexicanos Jorge Volpi e Ignácio Padilla ;de outros colombianos como Rafael Chaparro, porta-bandeira do neo boom, Mario Mendoza, Jorge Franco – autor de “Rosário Tijeras”, cuja primeira edição, em 1999, esgotou-se em dois dias, Hector Abad Faciolince, Santiago Gamboa e Enrique Serrano; dos peruanos Alonso Cueto, Fernando Ampuero. Justo contra o “esquecimento,” não se pode olvidar os argentinos Rodolfo Walsh, recém-revitalizado pela Folha de São Paulo, assassinado em Buenos Aires, 1977, e Nestor Perlongher, morto em 1992. Para Haroldo de Campos, o autor de O negócio do michê, Evita vive, entre outros, faz “um mergulho no kistch e no cursi urbano-argentino, nos resíduos coloquiais das zonas proibidas da cidade, bem como na apropriação transgressiva (...) dos clichês sentimentaloides, influenciados pelo linguajar do cinema, do rádio e das novelas de TV”, além de “explosões crítico-corrosivas (...) dos assassinatos praticados pela ditadura militar Argentina.”6 

Meu Brasil planeteiro

O país do futebol produz também escritores. E os novos têm dado bons exemplos. Há uma Geração 90 consolidando presença no mercado, caso do ficcionista Nelson de Oliveira, que cunhou essa denominação e é prolífero: sete livros em sete anos. Segundo Luiz Ruffato, autor de Eles eram muitos cavalos, e com certeza um dos melhores autores do país, hoje, Oliveira tem por essência “a procura da não-autoria, da não-originalidade, da não-literatura.” Acrescenta: “Nelson Oliveira é um dos raros escritores brasileiros contemporâneos a relativizar o fazer artístico, trazendo para o seu trabalho um dos pilares que mantém de pé os pressupostos da ficção.”7 Entre outros, Oliveira teve lançada recentemente pela Record a coletânea Sólidos gozosos & solidões geométricas. Marcelo Rubens Paiva, por sua vez, encheu a bola do jovem romancista Santiago Nazarian, afirmando que o autor de A morte sem nome (ed. Planeta) “escreve bem demais, sabe compor personagens e tem um estilo arriscado e fascinante.”8 Nazarian, que já fez roteiros para disque-sexo, foi barman, estudou piano e publicidade, defendeu-se de depressão fazendo traduções e horóscopo, hoje estuda finlandês. Autor de tese detetivesca sobre “suicida serial”, o autor encarna em si e na sua literatura aquilo que é e faz: o senso comum com seriedade, o livro anti-hedonista capaz de, ele o diz, “despertar reflexões, questionamentos”, a experiência literária e pessoal com bungee jump, a intenção de produzir subtextos. Dois mineiros são merecedores de atenção especial: Adriana Versiani e Pedro Maciel, ambos objeto de reflexão crítica neste (e em outros) espaços virtuais e impressos, a exemplo de Germina e Cronópios.

Há um lado de humor e minimalismo na atual literatura brasileira que ajuda a pensar grande o que vem de encontro a um público expansivo e não-dado à mirabolante – e nem sempre útil – produção teórica: as histórias mínimas, enfeixadas por exemplo no livro Os cem menores contos brasileiros do século (Ateliê Editorial), reunidos pelo escritor e agitador pernambucano Marcelino Freire. São microtextos com até 50 letras, na esteira do guatemalteco Augusto Monterroso (1921-2003), autor do miniconto mais famoso do mundo: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá,” que mereceu paródia do noventista Joca Reiners, intitulada “O pesadelo de Houaiss”: “Quando acordou, o dicionário ainda estava lá.” E, por extensão, do autor deste artigo: “O bafo de Matusalém” – “quando acordou, o calendário ainda estava lá.” Freire preveniu que “na literatura, o negócio é sempre diminuir.” A coletânea é também um locus da Geração 90, que tem Ruffato, André Sant´anna, Fernando Bonassi, Marcelo Mirisola, Marçal Aquino, Ronaldo Bressane, Joca Reiners Terron, Evando Affonso Ferreira, entre outros. A miniobra de Wilson Gorj é imprescindível como referência máxima deste viés de produção literária no Brasil, também publicado nas revistas Germina e Cronópios. Em franca ascensão de justo reconhecimento: Jussara Salazar e Eduardo Sabino. Por exemplo.

A poesia dos esquecidos bem lembrados passa, na atualidade, por Ricardo Aleixo, considerado pelo exigentíssimo Sebastião Nunes como “o mais brilhante, consolidado e polivalente talento que sobrevoa a leveza cultural de Minas.” Insere-se com sua ríspida Máquina zero (ed. Scriptum), detonando o maldizer pós-moderno e pondo fim ao coitadismo literário reinante nas paróquias poéticas para lá de politicamente corretas. E também Edimilson de Almeida Pereira, co- autor de A roda do mundo (ed. Segrac), na lista dos livros do vestibular da UFMG deste ano, e autor do fino e erudito Zeosórioblues. Ricardo Lima é autor de Cinza ensolarada (ed. Azougue), e também marca a lembrança da sociedade dos poetas vivos com seu “altíssimo teor emocional” sem pieguismo, num livro sintomaticamente “feito de escombros de experiências.” A produção do movimento Dezfaces, de BH, reunindo professores e autores com fina sintonia contemporânea, Marcelo Dolabela, e os poetas ultra esculhambatóricos do Barkaça também devem ser apreciados numa leitura despreconceituosa, lúdica, necessária.

E para ratificar que os latino-americanos não fazem mesmo parte da “academia dos esquecidos” é oportuno lembrar também a publicação de Musa paradisíaca (ed. Mirabilia), de Josely Vianna Baptista e o artista plástico Francisco Faria, reunindo em 688 páginas a produção da publicação cultural homônima editada entre 1995 e 2000 em jornais de Joinville e Curitiba. Ali se conjugam duas vertentes dialógicas: uma, que faz o registro da incidência hispânica no que se convencionou chamar de neobarroco, envolvendo os cubanos Lezama Lima, Severo Sarduy, José Kozer, mas também Vieira, Juana Inês de la Cruz, Cortázar e Caetano Veloso; a outra, com as dicções contemporâneas de Nelson Archer, Régis Bonvicino, Ademir Assunção, Rodrigo Garcia Lopes, Horácio Costa, Júlio Castañon, Cláudia Roquette-Pinto, e,claro, as escritores suicidas reunidas em Dedo de Moça, por exemplo. Além, naturalmente, dos muitos outros autores não citados aqui mas que você, leitor(a) atento(a), pode acrescentar.

Notas

1. Dimenstein, Gilberto. Uma notável aula de humildade. Folha de S. Paulo: caderno “Cotidiano”,4/4/04, pág. C12.

2. Bosi, Alfredo. Por um historicismo renovado– reflexo e reflexão na história literária, in “Teresa”, n. 1, 1° semestre, 2000, pág. 11.

3. Thomas, Gerald. Emigrantes na colônia real. Folha de S. Paulo: caderno “Mais”, 30/5/04, pág. 14.

4. Deleuze Gilles. Confissões de um pensador; por Alcino Leite Neto. Folha de S. Paulo: caderno “Mais”, 30/5/04, pág. 5.

5. Peres, Marcos Flamínio. Topografia literária da violência. Folha de S. Paulo: caderno “Mais”, 23/5/04, pp. 4-8.

6. Campos, Haroldo de. Perlongher, o neobarroso transplatino. Folha de S. Paulo: caderno “Mais” , 1°/6/01, pp.19-21.

7. Ruffato, Luiz. Nelson de Oliveira busca seu graal da não-literatura. Folha de S. Paulo: caderno “Ilustrada”, 29/5/04, pág. E3.

8. Paiva, Marcelo Rubens. Nazarian intriga com sua "suicida serial". Folha de S. Paulo: caderno “Ilustrada”, 29/5/04, pág. E3.

*marcioalmeidas@hotmail.com