domingo, 7 de novembro de 2010

O amante da literatura











Alberto Pucheu*

Desde há muito, há uma separação entre os poetas e os amigos dos poemas. Entre os que fazem literatura e os amigos da literatura. Entre os que fazem literatura e os amantes da literatura. Ao longo da história, filósofos, teóricos, críticos, historiadores, tradutores e leitores de poemas ou da literatura de modo geral, entre outros, ocuparam o lugar daqueles últimos. No que diz respeito aos poetas e ficcionistas, muitos de seus textos, incluindo cartas, diários etc., oferecem indicações do voto que realizam para a obtenção da coisa desejada.

Marguerite Duras, por exemplo, mostrou que para escrever, para viver enclaustrado no livro e, a partir dessa ambiência, ter a ousadia de sair por aí e gritar e sussurrar e falar em nome de alguma coisa que seria a vida, ou, pelo menos, a vida do livro – a vida no livro –, é preciso ao escritor pagar um preço: sob o risco da loucura ou da morte, viver a fundo uma solidão não compartilhada que se impõe por si mesma e que o escritor a confirma, sair de si, entregar-se completamente ao livro, ser forçado a não poder compartilhar nada com mais ninguém, distanciando-se, em nome do livro desconhecido – sua razão de ser –, de tudo que poderia ser compartilhado e das pessoas que o poderiam rodear. Já Mário de Andrade, em nome de dar ao Brasil o que ele ainda não tinha, em nome de dar ao Brasil o ainda não vivido pelo país, em nome de dar uma nova alma ao Brasil, na língua – dita imbecil – que escrevia, com todas as ilusões gramaticais de que gostava, com toda a estilização do brasileiro vulgar, com todas as caricaturas modernistas que realizava, com todas as ingenuidades de pensamento que voluntariamente engendrava, com toda sobreposição da polêmica e do teórico sobre a arte, sabendo e querendo que toda sua obra, estraçalhada, fosse transitória e caduca, confessou ter sacrificado (e recebido, em contrapartida, uma pletora de felicidade) ninguém menos do que si mesmo e a durabilidade maior da eternidade de sua produção artística.

Em uma carta de 1902 a Antoine Bibesco, à espera da possibilidade de escrita do que virá a ser a Recherche, que permanecia então na pura latência de seu pensamento, Proust afirmou: “Tudo isto que faço não é trabalho verdadeiro, mas apenas documentação, tradução etc. Isto basta para despertar minha sede de realizações, sem naturalmente me satisfazer em nada. Do momento em que desde este longo torpor pela primeira vez virei meu olhar para o interior, para o meu pensamento, sinto todo o nada de minha vida, cem personagens de romances, mil ideias me demandam lhes dar um corpo como as sombras que, na Odisseia, demandam a Ulisses lhes dar um pouco de sangue para beber de modo a trazê-las à vida e que o herói as afasta com sua espada”. Para realizar seu trabalho verdadeiro, para fazer com que, indo do despertar ao ápice, sua sede de realizações o satisfaça, para que, do nada de sua vida, algo de importância maior aconteça, para que o longo torpor se torne vigor repentino e sustentado, para viabilizar a demanda de vida de algumas entre centenas de suas personagens e algumas entre milhares de ideias exangues (afastando muitas outras com a espada de sua escrita e pensamento), o escritor sabe que precisa ofertar algo, que precisa sacrificar: um pouco de sangue. É tomando o sangue ofertado pelo escritor ou o sangue derramado dos vivos que, do reino das sombras, nasce o corpo da palavra poética, vive o mundo de toda a literatura. Comparando-se a um dos mais significativos personagens de todos os tempos, Proust pode estar igualmente dizendo que, por ofertar o sangue em nome da vida de seus personagens e ideias, o escritor só se realiza plenamente quando dá algo da vida (o sangue, a vida mesmo) a fim de se transformar na criação da obra na qual mergulha. Tornarem-se sanguíneas, o devir das personagens e ideias literárias; tornar-se livro vivo, o devir do escritor que imola o sangue à causa da literatura. Mas isso em nome de quê o sangue é derramado só se oferece, em contrapartida, se o sangue for dos melhores e se o que se pedir for, de fato, o que de mais importante houver na vida do suplicante, o que mais intensamente ele trouxer dentro de si e o em que precisa ser completamente introduzido ou estar inteiramente submerso.

A passagem em que Ulisses sacrifica sangue dos vivos aos mortos para que eles falem é conhecida. Antes de se realizar no canto XI, ela começa a ser diretamente preparada no canto X. Em busca da Ítaca perdida, em busca, portanto, do que no momento lhe é mais imprescindível, arremessado com seus soldados de um lado a outro por alguns deuses, desesperançado, o herói vaga por anos em águas sem paradeiro conhecido. Finalmente, Circe lha dá uma indicação, a única possível para saber seu caminho de volta: antes de ir a Ítaca, é preciso que viaje rumo ao Hades para indagar a Tirésias, o cego adivinho “cuja alma os sentidos mantém ainda intactos”, a rota segura para a cidade natal. Se Ulisses não sabe como chegar ao Hades, o sopro de Bóreas e as informações da deusa o farão alcançar o local desejado. Chegando lá, é necessário que Ulisses cave um fosso com sua espada e libe aos mortos, primeiro com mel, depois, com vinho, em seguida, com água e, por fim, com farinha. É preciso, entretanto, mais. Diz-lhe a deusa: “Férvidos votos promete às cabeças exangues dos mortos,/ de que hás de em Ítaca, em casa, uma vaca imolar-lhes estéril,/ a de melhor aparência, queimando preciosos objetos,/ e que a Tirésias, também, ofertar hás de um belo carneiro,/ negro, sem mancha, o que em vossos rebanhos a todos exceda./ Mas, depois que suplicado tiveres ao coro dos mortos,/ deves, então, um carneiro matar e uma ovelha bem negra,/ pondo-os virados para o Érebo; mas nesse instante teu rosto/ deves torcer para o curso do rio; verás, nesse passo,/ que muitas almas afluem, de seres da vida privados./ Os companheiros exorta, depois, e lhes manda que as reses,/ que se acham mortas no chão, pelo bronze cruel abatidas,/ queimem, depois de esfolá-las, e os votos aos deuses dirijam,/ Hades, o deus poderoso, e a terrível e horrenda Perséfone./ Tu, porém, saca de junto da coxa teu gládio cortante,/ senta-te e espera; não deixes que as pálidas sombras dos mortos/ no sangue toquem, sem teres, primeiro, a Tirésias falado./ Logo há de a sombra te vir do adivinho, o pastor de guerreiros,/ que há de o roteiro apontar-te e a extensão do caminho a fazeres/ para voltares à pátria, cursando o oceano piscoso”.

Se o canto X termina com Circe amarrando no barco de Ulisses um carneiro e uma ovelha, que serão sacrificados na hora oportuna, o XI começa com o colocar primeiro das reses à bordo. Quando chegam ao local desejado, de novo, são as reses as primeiras a serem retiradas do barco, mostrando o privilégio dos animais sacrificados, que têm de ser os de melhor aparência, os mais belos, os que excedam a todos os outros. Ulisses realiza o que a deusa o havia mandado fazer. A espada, o fosso, as libações, os votos, o sacrifício das reses, seus esfolamentos, a queima dos animais. Com o sangue, inúmeras almas imediatamente afluem (inclusive a de Anticleia, mãe do herói, morta pela saudade do filho), obrigando Ulisses a sacar sua espada para não deixar nenhuma tocar o sangue antes de Tirésias. Apenas Elpenor se antecipa ao vidente cego, mas é compreensível, pois acabou de morrer no castelo de Circe e ainda não recebeu as honras fúnebres – por isso, ele é o único a falar sem beber o sangue derramado. Mesmo a alma da mãe é, a princípio – só a princípio –, enxotada, pois urge a fala de Tirésias. Haverá tempo depois para a mãe e para os heróis mortos. Com o cetro de ouro em suas mãos, o adivinho afirma a Ulisses: “Mas, para o lado do fosso retira-te e a espada recolhe,/ para que eu possa do sangue provar e dizer-te a verdade”. A quem for permitido provar do sangue, falará, palavras infalíveis, sem erros. Para que os mortos falem, para que a verdade dos vivos fale pelos mortos, para que a verdade dos mortos fale para os vivos, é preciso o sacrifício do sangue dos vivos. Morto, Tirésias se aviva com o sangue dos vivos para dar vida aos vivos. Ele toma o sangue e diz como será o retorno de Ulisses a Ítaca. Daí, o uso da passagem por Proust, que precisa ofertar “um pouco de sangue” para que seus cem personagens de romances e mil ideias, ganhando corpo, venham à vida.

E os teóricos da literatura, que voto os teóricos da literatura realizam? Que sacrifício os críticos e historiadores da literatura precisam fazer para lidar com os livros? O que os amigos e os amantes dos poemas ou da literatura de modo geral ofertam para obter o que desejam? Quais são suas obrigações para receberem o que recebem? O que recebem os teóricos literários? No fim do filme Fahrenheit 451, cujo roteiro de François Truffaut – que o dirige – e Jean-Louis Richard parte da novela homônima de Ray Bradbury, somos apresentados aos homens-livros. Eles escaparam da sociedade de extremo controle cujos bombeiros são aqueles que queimam os livros, considerados subversivos, contra a lei, perturbadores da ordem, inimigos da paz, causadores da infelicidade e de posturas antissociais... Entre esses amigos da literatura, entre esses amantes da literatura, entre esses homens-livros, alguns foram presos e escaparam, outros foram soltos depois de presos, outros fugiram antes mesmo de serem presos. O que vale é que muitos desses homens-livros se escondem em paz fora da cidade, nas montanhas, por entre os bosques situados rio acima, onde a lei urbana não os consegue alcançar. Há também os que se perdem pelas estradas, os abandonados em canteiros de estações de trem, vagabundos por fora, bibliotecas por dentro. Onde moram, não fazem nada de proibido; caso adentrassem de fato a cidade, poderiam não durar muito tempo.

Como amostra disso, há na cidade o caso de uma das personagens, cuja família fora presa numa manhã, mas que, surpreendentemente, estava em casa justo na hora em que os bombeiros chegaram à sua casa em busca dos livros, mostrando que, por algum motivo, não estava com seus parentes quando foram levados pela polícia. No andar de cima de sua casa, uma biblioteca secreta; não uma biblioteca qualquer: o experiente capitão do corpo de bombeiros diz que apenas uma vez em toda sua vida vira tantos livros em um mesmo lugar, e já faz muito tempo que isso aconteceu. Significativamente, essa personagem não tem nome. Seus modos de chamamento são atribuídos apenas pelos bombeiros: “essa mulher”, “essa velha senhora”, “ela”, “madame”. Sabendo de seus destinos afins, ela recebe os bombeiros citando as palavras de Hugh Latimer a Nicholas Ridley: "Seja homem, Mestre Ridley. Neste dia, pela graça de Deus, nos iluminaremos como uma vela que – acredito – nunca mais vai se apagar". Anônima, trazendo-o para si, ela se apresenta com as palavras de um outro. Latimer e Ridley foram dois bispos e mártires pioneiros da Reforma Inglesa que, no dia 16 de outubro de 1555, por terem sido considerados hereges ao estenderem as ideias de Lutero e Calvino, foram acorrentados à estaca em Oxford e, quando a lenha começou a queimar, o primeiro disse a frase mencionada ao companheiro ao seu lado na mesma situação em que ele. Repetindo a frase do mártir, anunciando querer morrer como viveu e dizendo que os livros estavam vivos e falavam para ela, a senhora se recusa a sair do amontoado pronto para ser queimado e, depois do querosene lançado pelos bombeiros sobre os livros pelo chão, ela mesma risca o fósforo e acende a fogueira na qual queimará. Se o risco da permanência na cidade é o da morte, os homens-livros, nos arredores, escapam ao martírio, mantendo-se vivos, tranquilos e falantes por muito mais tempo.

Os homens-livros são amigos e amantes dos livros, já disse. Mas o que significa ser amigo e amante dos livros? Ser amigo e amante dos livros significa ser um homem-livro. Seja homem ou mulher, velho ou criança, cada um dos homens-livros decora um livro escolhido e se transforma nele. Eles sabem o livro de cor e o recitam, o interpretam, para quem quiser ouvir. Mais do que isso: deles, dos homens-livros, desses intérpretes da literatura, é dito: “Eles se tornam os livros”, “Eles são livros”. Sendo amigo do livro, sendo amante do livro, interpretar um livro não é nada menos do que se tornar, desde dentro, o livro que se interpreta, transformar-se, enfim, desde dentro, em um homem-livro. Como esses intérpretes dos livros, decorando-os, se tornam o livro que, desde dentro, recitam ou interpretam de cor, carregando consigo “o segredo mais precioso do mundo” e “todo conhecimento humano”? Qual oferenda que, para isso, eles têm de pagar?

O preço que esses homens-livros pagam para se tornarem livros é seu próprio nome, seu nome próprio. As doações que esses intérpretes têm de oferecer para, desde dentro, serem os livros que amam são seus nomes próprios. Só se interpreta, de fato, um livro, só se torna, realmente, um homem-livro, quando o nome próprio do intérprete é queimado no ato de interpretação que faz com que o nome do livro passe a designar o intérprete que com ele, enfim, se confunde. Assim, não é alguém (Cláudio ou Francisco, Caio ou Renato) que interpreta, por exemplo, a República, de Platão: “Bem, eu sou a República de Platão. Eu irei me recitar para você assim que você desejar”, diz um dos homens-livros. Não nos enganemos, entretanto: para que os amantes dos livros sejam, desde dentro, homens-livros, é preciso igualmente que os livros se tornem, desde dentro, o corpo e a voz dos intérpretes que assumiram seus nomes. Nele mesmo, o livro é o que, junto ao nome próprio, se queima, para que haja o intérprete literário, quer dizer, para que haja o crítico literário, quer dizer, para que haja o historiador literário, quer dizer, para que haja o teórico literário, quer dizer, para que haja o crítico literário, quer dizer, para que haja o tradutor literário, quer dizer, para que haja o leitor literário, quer dizer, para que haja o verdadeiro amigo e amante da literatura, para que haja os homens-livros.

*Alberto Pucheu é poeta e professor de Teoria Literária da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Entre vários livros, acaba de publicar O amante da literatura (Ed. Oficina Raquel), que contém o texto aqui publicado. Contato: apucheu@gmail.com.