domingo, 7 de novembro de 2010

Romance à primeira vista











Paulo Lima*

São muitas as artimanhas que um narrador é capaz de criar para manter um leitor cativo até o fim de uma história. Inícios bem elaborados podem, sem dúvida, ser um desses truques, particularmente nos romances, dada sua extensão. Neles, o leitor é vencido por pontos, caso se confirme ao longo da leitura que o “produto” era de fato bom, que o autor foi capaz de cumprir o prometido.

Talvez leitores que se deixem apenas guiar pelo critério de inícios promissores não sejam lá muito dignos de confiança. Pode ser que ajam como certas pessoas que confiam apenas na primeira impressão que têm de alguém. Afinal, assim como nos relacionamentos, muitos romances revelam sua qualidade à medida que nos aprofundamos neles. É apenas ao final que sua grandeza será ou não revelada.

É claro que tanto livros quanto pessoas podem mostrar altos e baixos e ainda assim nos causar uma impressão positiva. Mas sem dúvida que bons começos têm seus atrativos intrínsecos, certo?

Recentemente, o site American Review of Books fez uma lista com os 100 melhores inícios de romances. No topo da relação – não se sabe se o critério foi o de qualidade literária – está o Moby Dick, de Herman Melville, e seu começo tão econômico quanto enigmático: “Chame-me Ismael”.

A frase pode até não soar como um pontapé inicial cativante. Eu mesmo não percebo sua grandeza. Mas veja só: a história da baleia de Melville é uma dessas unanimidades do mundo literário, trata-se de um dos maiores romances de todos os tempos.

Mas o fato é que esse negócio de começos inesquecíveis tem seu charme, e vai além de listas divertidas e polêmicas de suplementos literários. O escritor israelense Amós Oz chegou a dedicar um pequeno livro ao assunto, relacionando ele próprio começos de romances que o impressionaram.

Na introdução, Amós Oz justifica o porquê da empreitada: “Começar a contar uma história é como passar uma cantada numa pessoa inteiramente desconhecida, num restaurante.”

Ele sabe que um romance pode conquistar o leitor por pontos, mas começar com um bom soco no queixo é uma excelente estratégia, e é com uma cantada magistral que Oz começa seu romance Meu Michel:

Jerusalém, 1960.

Escrevo porque as pessoas que amei já morreram. Escrevo porque quando era menina havia em mim muita força para amar, e agora esta força está morrendo. Eu não quero morrer.

Como não ter a curiosidade atiçada e seguir adiante? Como não querer saber o que levou o narrador (no caso, uma mulher) a chegar a esse ponto? E o que esse narrador fará para resolver sua situação? A indicação de um local e data confere à narrativa um sabor documental, memorialístico, como se se tratasse de uma história real, de uma situação vivida por alguém, em algum lugar.

Comprei o romance nocauteado por esse início poderoso. Valeu cada centavo e cada palavra. Amós Oz entregou o que prometeu.

Essa, porém, não foi a primeira vez em que um bom cruzado me atingiu logo de início. Um dia, ao folhear Desonra, o romance que deu a J. M. Coetzee o Nobel de Literatura, topei com este início:

Para um homem de sua idade, cinquenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema do sexo. Nas tardes de quinta-feira, vai de carro até Green Point. Pontualmente às duas da tarde, toca a campainha da portaria do edifício Windsor Mansions, diz seu nome e entra. Soraya está esperando na porta do 113. Ele vai direto até o quarto, que cheira bem e tem luz suave, e tira a roupa. Soraya surge do banheiro, despe o roupão, escorrega para a cama ao lado dele. “Sentiu saudade de mim?”, ela pergunta. “Sinto saudade o tempo todo”, ele responde. Acaricia seu corpo marrom cor-de-mel, sem marcas de sol, deita-a, beija-lhe os seios, fazem amor.

Você quer saber o que acontecerá com esse personagem? O que o levou a pagar por sexo aos 52 anos? E como era sua vida antes? Eu também quis, e continuei a ler o livro ali mesmo na livraria, concluindo a leitura muitas horas depois, sem qualquer esforço. Tinha a certeza de que lera um grande romance, escrito numa linguagem inacreditavelmente seca e objetiva, quase jornalística. Um romance que ainda carregava o mérito de nos mostrar a situação de uma África do Sul ainda nos tempos do apartheid.Muitos motivos podem nos levar a comprar um romance: uma resenha favorável, uma indicação de um amigo, uma capa atraente, um título chamativo. Contudo, nada é mais sedutor e poderoso do que um começo bem urdido. Intimidade, romance de Hanif Kureishi, foi outro que me acertou o maxilar no primeiro contato. Eis o começo:

É a noite mais triste, pois estou indo embora e não vou voltar. Amanhã de manhã, quando a mulher com quem vivi durante seis anos sair de bicicleta para o trabalho e as crianças forem jogar bola no parque, arrumarei a mala, deixarei minha casa levando pouca coisa, torcendo para que não me vejam, e pegarei o metrô onde Vitor mora. Lá, dormirei no chão por um período indeterminado, no quartinho que ele me ofereceu gentilmente, ao lado da cozinha. Devolverei o fino colchão de solteiro ao guarda-louça, todas as manhãs. Guardarei o acolchoado malcheiroso numa caixa. Ajeitarei as almofadas de volta no sofá.

Essa noite triste também se abateu sobre mim após essa leitura inicial. Que razões levam um pai desalmado a abandonar assim o lar e os filhos? Num romance pequeno, talvez mais para uma novela, Hanif Kureishi consegue concentrar, com sabedoria e charme, uma história atual de amor desfeito.

Nem sempre um bom arranque é garantia de um final vitorioso. Comprei o romance Uma breve história dos tratores em ucraniano, de Marina Lewycka, seduzido por esse título exótico (eu estava mesmo querendo entender um pouco da conturbada realidade soviética pós-comunismo) e por um começo maravilhoso:

Dois anos depois que minha mãe morreu, meu pai se apaixonou por uma ucraniana divorciada, loura e glamourosa. Ele tinha 84 anos, e ela, 36. Ela explodiu em nossas vidas como uma granada rosa e fofa, agitando as águas sombrias, trazendo à tona um lamaçal de memórias deixadas de lado, dando um pontapé no traseiro dos fantasmas da família.

Isso é que se pode chamar de um sortudo. Aos 84 anos e ainda com fogo nas entranhas. Que confusão ele criará para si mesmo e para a família? E essa tal russa de 36 anos? Será uma espertalhona? A narradora (a filha protetora) conseguirá arranjar as coisas, de modo a manter a harmonia familiar?

Esse foi o primeiro romance da autora, e consta que ela foi rejeitada por várias editoras antes de conseguir publicá-lo. Ela disse em entrevistas que se inspirou na própria família para escrever o livro. A narrativa flui muito bem. Vai ficando cada vez mais evidente que a ucraniana de 36 anos só quer tirar proveito de sua vítima. As filhas fazem o que podem para afastá-la. Um bom drama ucraniano e universal, não? Mas perdi o interesse pela leitura.

Existem começos tão perturbadores que nos acompanham pela vida afora. Meu exemplo preferido é o de A metamorfose, de Franz Kafka. Aliás, eu diria que este é talvez o começo mais intrigante e poderoso de um romance na literatura ocidental:

Certa manhã, após um sono conturbado, Gregor Samsa acordou e viu-se em sua cama transformado num inseto monstruoso. Deitado de costas sobre a própria carapaça, ergueu a cabeça e enxergou seu ventre escurecido, acentuadamente curvo, com profundas saliências onduladas, sobre o qual a colcha deslizava, prestes a cair. Suas inúmeras pernas, terrivelmente finas se comparadas ao volume do corpo, agitavam-se pateticamente diante de seus olhos.

Algumas manhãs depois da leitura, temi acordar como o pobre Gregor Samsa. O impacto foi tão tremendo que o sobrenome Samsa, para mim, passou a significar sinônimo de inseto. Poucas cenas de violência na literatura, mesmo aquelas tão comuns numa certa linhagem de romance urbano (e policial), são tão impressionantes como essa de Kafka.

Às vezes bastam umas poucas, escassas linhas, para atingir o leitor. Já vimos acima o exemplo do Moby Dick, de Melville. Um romance caudaloso como Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño, cuja primeira parte é estruturada na forma de um diário, abre com um parágrafo curto composto por quatro frases apenas.
Ei-lo:

2 de novembro

Fui cordialmente convidado a fazer parte do realismo visceral. Claro que aceitei. Não houve cerimônia de iniciação. Melhor assim.


Aos poucos, a história de Juan García Madero e suas aventuras literárias, o iniciado no tal realismo visceral, vão se apossando do leitor. García Madero é apenas um dos muitos personagens do livro, que traz diversas histórias dentro de uma história, uma narrativa polifônica típica da obra de Bolaño. Mas a dimensão do livro e sua geografia anárquica são, paradoxalmente, um dos muitos atrativos desse romance inovador.

Exemplos podem ser dados à exaustão. Tudo está relacionado com a experiência e o grau de maturidade de cada leitor. O que começa bem nem sempre termina bem. Este não é um princípio válido apenas para a literatura – e muito menos para ela, cuja regra fundamental é não obedecer a regras ou cânones. Mas um começo arrebatador não deixa de ser um passaporte, uma senha poderosa para o que virá a seguir. É uma prova de que o escritor logrou êxito sobre a página em branco e, ao menos inicialmente, foi bem sucedido ao tentar conduzir uma narrativa. O que não é pouco. O que não faltam na literatura são histórias de retumbantes fracassos.

*paulo_val@uol.com.br