domingo, 7 de novembro de 2010

Transição











Fernando Portela*

Comecei a vê-los hoje. No começo, apenas um, parado em frente ao portão da empresa, olhando os passantes, que são milhares, àquela hora da tarde. Não me assustei, nem me sobressaltei, pelo contrário: à visão dele, que vestia roupas lisas e claras, e no rosto imberbe transmitia doçura e paz, senti-me realizado. Ver, enxergar outras realidades: isso, sim, era o maior dos privilégios. Será que atingira, finalmente, a sonhada transição? Perdera a conta dos anos em que me lamentei por não conseguir atravessar os portais da mente, de ser obrigado a conviver apenas com a matéria óbvia. Estava cansado de vislumbrar outros mundos através de sonhos confusos.

Sorri, então, olhando-o de perfil: no rosto moreno havia traços orientais, como se ele fosse um mestiço de japonês e brasileiro. Não se parecia com uma pintura renascentista. Era apenas um homem/mulher que se encantara.

Sim, porque era assexuado. Sua face de rapaz-moça-mestiço-jovem lembrava-me adolescentes indefinidos, de cabelos curtos, que tantas vezes observara em vários lugares do mundo.

Eu já sabia da existência deles, por intuição, porque sentia sua presença nos lugares mais estranhos. Cheguei até a ver um deles, certa vez, mas não na forma basicamente humana que, pelo jeito, costumam usar quando nos visitam. Aquele tomou o corpo de uma gata.

Foi quando Beatriz morreu. Era a minha amiga mais íntima, desde os nove anos de idade, no curso primário. No primeiro dia de aula nos encontramos e conversamos durante todo o recreio. Como se fôssemos irmãos.

Seguimos nossas vidas, a família dela era rica, tudo era fácil, tudo acontecia para Beatriz. Casamos mais ou menos na mesma época, o marido da minha amiga era bonito e influente, mas apaixonado por todas as mulheres, além dela. Beatriz foi obrigada a conviver durante décadas com o problema. Teve um único filho; o marido morreu cedo, intoxicado de tanta farra. Quando o filho cresceu e, por sua vez, casou, Beatriz lhe passou toda a fortuna.

A partir daí, empobreceu. Não lhe davam tratamento médico, nem mesmo alimentação suficiente. Eu, que a visitava de vez em quando, desconfiava até que a espancavam. Nos últimos anos, sua única companhia, seu único prazer era uma gata branca, sem raça.

Quando Beatriz morreu, cheia de manchas roxas pelo corpo, e eu, em prantos, cheguei ao velório com mais alguns amigos comuns, vi exatamente uma gata branca deitada numa cadeira próxima ao caixão. Percebi, espantado, que não era a gata de Beatriz, que nem mesmo se tratava de um animal real, mas a forma que um daqueles resolveu usar.

A gata olhou para mim e trocamos uma breve comunicação. Todos a viram e estranharam o fato: como uma gata, tão parecida com o bicho de estimação da falecida, que com certeza permanecera no apartamento, poderia entrar num velório e acomodar-se daquele jeito?

‘Será’, pensei comigo, ‘que eles, os algozes, estão percebendo a sutileza dessa mensagem?’

Tenho minhas dúvidas. Mas, de verdade, a gata foi o primeiro deles que vi. Agora vejo este outro, na porta da empresa. Não olhou para mim, estava muito preocupado com os pedestres, como se orasse por cada um deles, enfrentando essa loucura que é viver na Terra, sobretudo em uma grande cidade.

Minha surpresa maior aconteceu no estacionamento ao lado, quando fui pegar o carro. Havia dois, um negro e um branco, tão iluminados como seu colega ali perto. Observavam, também, as pessoas a pagar, nos dois caixas, e os manobristas a correr de um lado para o outro, recolhendo os carros. O negro chegou a trocar um olhar comigo, e não foi preciso dizer nada – eles transmitem toda a beleza do seu próprio mundo, de que temos tanta necessidade, mas que permanece tão distante, sempre, por nossa culpa.

No caminho de casa, vi outros, atravessando as ruas, sempre com as roupas leves, cabelos longos ou curtos, todos de sexo indefinido, quase lânguidos, como eu sempre imaginei que fossem. Talvez se materializassem daquela forma para atender às minhas expectativas.

‘Meu Deus’, pensei comigo, ‘o que fiz de bom para merecer isto?’

Foi estranho o trajeto do trabalho para casa; quase não o senti, distraído com as lembranças daquelas visões. De repente, “acordei”, andando pela minha própria rua, em direção ao prédio. Já não havia humanos por ali, somente eles. Em grupos de dois, três, ou andando sozinhos, cruzando comigo na calçada, sentados diante dos edifícios, ou ainda olhando o movimento através das sacadas das janelas.

Comecei a chorar, de pura felicidade, acho que pela primeira vez na vida. Na entrada do prédio, no lugar do porteiro, encontrei uma mulher de rosto jovial, sorrindo para mim. Era a única que não fazia parte da multidão angelical que tomara completamente o bairro. Era Beatriz, quarenta anos mais jovem.

“Quantas saudades, meu querido!”, ela me disse somente com o olhar, sem pronunciar uma palavra.

E foi aí que eu entendi tudo.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

*fatportel@gmail.com