domingo, 12 de dezembro de 2010

Café com letras











Márcio Almeida*

CAFÉ

 - Desde o século XII, seja etíope, africano ou árabe, o café destaca-se por facilitar a digestão, espantar o sono e melhorar o humor.

- Itália, 1615: o café entrou no país via Veneza e sofreu forte resistência da Igreja: cristãos fanáticos incitaram o papa Cliemente VIII a condenar o consumo da bebida, tida como invenção de Satanás.

- Turquia, séculos XVI e XVII: quem fosse pego tomando café era condenado à morte.

- Mudança de hábito: do consumo caseiro, o café passou a ser consumido em lugares públicos, criando assim pontos de encontro e centros da vida literária, artística e política. Passou a ser tema de música, óperas, ficção, artes plásticas e literatura.

- Século XVII: já se encontra registro de haver cafés em Paris como pontos de encontro entre pessoas para conversar, escrever, fazer arte, surgindo uma proliferação de cafés por toda a Europa.

- Brasil, 1727: o café chega ao país, na cidade de Belém do Pará. em 1773: chega ao Rio de Janeiro.

- Século XIX: o café tornou-se um dos principais produtos de exportação do Brasil.

- 1876: foi inaugurado em são paulo o primeiro café da cidade, instalado num ambiente de muito luxo e requinte, na esquina do Beco do Inferno com a Rua da Imperatriz.

- Tema café: presente em vários símbolos nacionais, como moedas, brasões.



CAFÉ COM LETRAS

- Cordel: predomínio do tema na zona central do país através de trovas e cantigas de desafio.

- José Bonifácio, no poema “O tropeiro”, põe na boca do cozinheiro da tropa esta quadrinha:

Vamos depressa
tomar café;
depois veremos
quem bate o pé.

- Cornélio Pires, em sua Seleta, de 1926, no soneto “Ideal de caboclo”, diz:

Um rancho na bera d´água
vara de anzó, poca água,
pinga boa e bão café.
fumo forte, de sobejo,
pra compretá meu desejo,
cavalo bão e muié.

- Nos Cantos populares do Brasil, de 1897, Sílvio Romero registra o café no “ABC do lavrador”, colhido no Ceará:

Quase sempre os lavradores
de cana, café, cacau,
têm feitores de campo,
para não passar tão mal.

- No Cancioneiro do norte, de 1903, do poeta paraibano Rodrigues de Carvalho, há a seguinte estância sobre o café:

Usei de plantar café
quando nasceu foi andu
botou fruta de jacu
e semente de inhoré.
Sei que a sorte não me quer...

- Há um poema chamado “Rio Preto”, nome de um temível bandido do sertão da Paraíba, que diz o seguinte:

Senhor subdelegado
venha tomar café comigo,
pois enquanto eu me vir solto,
serei um seu bom amigo,
só depois de me ver preso
serei um meu inimigo.

- Do folclore de Pernambuco, Pereira da Costa, em livro publicado em 1908, registrou uma genuína poesia popular com a chocarrice sertaneja, muito conhecida:

O Zé Prequeté,
tira bicho do pé,
pra comê com café,
na porta da Sé!

- Crispiniano Tavares publica em seus Contos inéditos muito do que viu e ouviu nos sertões de Minas Gerais e Goiás, inclusive o recortado em que um violeiro-cantador faz referência ao café numa festa pública do Divino Espírito Santo:

Não te dou chá
porque não tem,
queres um beijo?
Vem cá, meu bem!

Até no alto
eu vou contigo,
do alto pra lá,
não tem perigo.

Ah! Quanto a isso
muito obrigado.
Não te dou café
que não tem torrado.

- A colheita do café, ao norte do Brasil, tinha muita semelhança com a colheita da uva em Portugal. Nessa ocasião muito namoro tinha início e, depois de um ano, muito choro de criança nova no mundo. Por isso a quadra colhida na Paraíba que diz o seguinte:

Quem tivé fia bonita
não mande apanhá café.
si fô minina, vem moça,
si fô moça, vem muié.

- No Brasil já teve até um doutor Domingos Jaguaribe que se pôs a educar macacos para colher café. Isso para poupar as mulheres que eram colhedoras com seus grandes balaios ou cabazes. E esse fato histórico originou a seguinte quadra:

Eu quisera sê penera,
na coieta do café,
pra andá dipindurado
nas cadera das muié.


- Nos chamados Autos setentrionais, Catulo da Paixão Cearense colheu a quadra seguinte:

Prece história, parece,
mas fantasia não é:
a vaca branca dá leite,
e a preta é que dá café.

- As folias de reis cantam assim:

Deus lhe pague sua comida
e também o bão café.
no céu haveis de comer
com Jesus de Nazaré.

- No livro Mil quadras populares brasileiras, de 1916, recolhidas por Carlos Góis, encontra-se a expressiva quadra de galantaria espontânea:

Menina dos olhos pretos,
sobrancelhas de retrós,
dá um pulo na cozinha,
vai quentar café pra nós.

- Há uma moda da viúva, em oitavas, extraído de um Cancioneiro de trovas do Brasil Central, de 1925, conforme registrado por Americano do Brasil:

Eu oiei na cara dela
fiquei muito invergonhado
meu braço pegô tremê
que ficô disguvernado.
minha xicra de café
derramô mais da metade
e meu coração batia
como o baque do machado.

- A graçola popular que inspirou Manuel Bandeira tem origem nos sinos de São Francisco quando repicavam, segundo pesquisa do erudito J. da Silva em seu A voz dos campanários baianos:

café com pão
café com pão
bolacha, não!

- O café já foi também motivo para começar um grande amor no sertão brasileiro. Uma pesquisa registra que um sertanejo que se julgava na Turquia, influenciado pela Bíblia onde abundam patriarcas polígamos, escreveu:

Eu também vou casar já,
com uma dúzia de muiés:
três chiquinhas, três aninhas,
três teresas, três zabés.

Três para coser a roupa,
três para lavar meus pés,
três pra anelar meu cabelo,
três para me dar café.

- O poeta Murilo Mendes, de Juiz de Fora, dos maiores do Brasil, é autor do poema “O café dos emboabas”. Nele, o poeta compara o café ao ouro negro e à gema das pedras preciosas dos emboabas.

Os emboabas entraram
na fazenda dos paulistas
os paulistas, de sabidos,
mandam servir o café.

- Mário de Andrade, um dos mais importantres precursores do modernismo brasileiro, em seu poema “Paisagem nº 4”,  fala da importância do café na vida de São Paulo:

Os caminhões rodando, as carroças rodando,
rápidas as ruas se desenrolando,
rumor surdo e rouco, estrépitos, estalidos,
e o largo coro de ouro das sacas de café!

- Cassiano Ricardo, um dos melhores poetas da língua portuguesa de todos os tempos, registraria a contagiante criação dos cafés em São Paulo, ao escrever:

Café expresso – está escrito na porta.
entro com muita pressa. Meio tonto
por haver acordado tão cedo...
e pronto! Parece um brinquedo:
cai o café na xícara pra gente
maquinalmente.
E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo
nesta pequena noite líquida e cheirosa
que é a minha xícara de café.

- O sempre maravilhoso Mário Quintana também deixaria sua leitura do café:

O café é tão grave, tão exclusivista,
tão definitivo que não admite acompanhamento sólido.
Mas eu o driblo, saboreando, junto com ele,
o cheiro das torradas-na-manteiga
que alguém pediu na mesa próxima.

- Um dos mais populares poemas de Carlos Drummond de Andrade tem o título de “Infância” e nele o itabirano diz:

No meio dia branco de luz
uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala
e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
e eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.


- Manuel Bandeira tem dois poemas antológicos sobre café. Um, transformado em canção por Tom Jobim:

Café com pão
café com pão
café com pão
Virge Maria, que foi isso maquinista?

O outro poema intitulada-se “Momento num café”, e diz o seguinte:

Quando o enterro passou
os homens que se achavam no café
tiraram o chapéu maquinalmente.

- Cora Coralina, a poeta goiana, registrou em seu poema “Visitas” o hábito de servir café, no começo do século XX:

Chegavam visitantes à fazenda
as notícias...novidades, assunto da terra,
gados, criação, preços, mercado de Goiás, safra,
roça, paióis, doença.
Corríamos a fazer café, oferta de praxe.
Depois, aquela conversa infindável, invariável.

- Na pós-modernidade, temos o registro, entre tantos outros, da poeta Ana Cristina César que escreveu:

Quando entre nós só havia uma carta
certa a correspondência completa
o trem os trilhos a janela aberta
uma certa paisagem sem pedras ou sobressaltos
meu salto em equilíbrio
o copo d´água a espera do café.

- E finalizamos com Adélia Prado e seu “Bucólica nostálgica”:

Ao entardecer no mato, a casa entre
bananeiras, pés de manjericão
e cravo-santo,
aparece dourada. Dentro dela, agachados
na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo
rápidos como se fossem ao êxodo,
comem feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,
muitas vezes abóbora.
Depois café na canequinha e pito.
louvado seja Deus!

- Só pra lembrar: 21 de abril é o Dia Internacional do Café.

Oliveira, 8 de julho de 2008.



* marcioalmeidas@hotmail.com