domingo, 12 de dezembro de 2010

Calor demais











Fernando Portela*

Vi-o atrás de uma garrafa de cerveja, a umas quatro mesas, no fundo do bar. Era ele, sim, mas difícil de acreditar: sozinho, triste, mal vestido, barba suja, os olhos fixos na bebida que demorava a sorver, como se estivesse fora do mundo. Ainda há um mês havia lido uma reportagem extensa sobre os grandes foragidos do Brasil. A foto do Señor Ramirez era a maior. Falei baixinho para Galván, à minha frente, com medo de que, de longe, o bandido pudesse fazer leitura labial.

“Não olha, Galván, mas o Señor Ramirez está lá no fundo, tomando uma cervejinha...”

Galván apenas franziu a testa, continuou a bebericar sua Coca-Cola de alcoólico anônimo. Fazia muito calor naquele pedaço da fronteira e alguns homens no bar haviam tirado a camisa. Nós dois usávamos camisetas escuras, mas, se pudéssemos, andaríamos de cuecas. O Señor Ramirez parecia não sentir a temperatura absurda: vestia uma jaqueta jeans, velha e pesada, com uma camisa vermelha por baixo.

Passava do meio-dia. Boa parte daquela gente só sairia à noite do bar, amparando-se, cantando músicas em português e espanhol. Muito provavelmente, alguém encrencaria com alguém e levaria um tiro nos cornos. Era sempre assim, às sextas-feiras.

“Tem segurança?”, perguntou Galván, entre dentes.

“Aparentemente não”, respondi, excitado. “Atrás dele há uma mesa vazia e o pessoal que está na frente trabalha na construção do shopping...”

“Puta merda. Vou até o banheiro”, disse Galván.

“Dou cobertura.”

Eu tremia. Se o pegássemos, seria o meu primeiro grande caso.

“Não, fica aí, garoto. Só quero entender melhor.”

Galván era vinte anos mais velho e eu costumava atendê-lo. Às vezes me parecia meio porra-louca, até suicida, enfrentando de peito aberto umas situações-limite. Mas todos o consideravam um bom policial. Havia histórias de que dava proteção a uns comerciantes coreanos, que amaciava caminhões do Paraguai, mas tudo isso diziam de mim também, de todos nós. Éramos corruptos por definição. Eu não acreditava nas histórias que contavam sobre Galván. Estava de dupla com ele havia dois meses e não percebera nada.

Galván se levantou devagar, se espreguiçou, e tomou o caminho do banheiro lá no fundo. A essa altura do dia já não deveria estar dando nem para entrar no pequeno cubículo, sem pia e sem descarga. Um nojo, aquilo.

Eu me sobressaltei quando meu companheiro parou em frente ao bandido, curvou o corpo, pôs as mãos na mesa e lhe disse alguma coisa. De longe dava pra ver que o Señor Ramirez respondeu com rispidez. Galván fingiu que se dirigia ao banheiro. O homem me encarou com um olhar estranho e começou a mexer nos bolsos, procurando dinheiro, com certeza para pagar a conta.

Eu fiquei paralisado com a atitude de Galván, mas não podia fazer nada. Tudo muito claro: meu próprio colega fazia parte do esquema de proteção do Señor Ramirez. Deveria haver outros por ali; mas eu estava armado e tinha obrigação de prender o bandido e denunciar o policial corrupto – só que... teria alguma chance?

Quando Galván voltou, apenas nos olhamos. Eu disse tudo com meus olhos, mas ele baixou os dele e bebeu devagar um gole da Coca-Cola.

O bandido pagou a conta e levantou-se para sair. Passou ao nosso lado e pude sentir, vindo dele, um odor insuportável de suor seco. Algo me disse que eu deveria encará-lo e dar-lhe voz de prisão, fodam-se Galván e os outros guarda-costas por ali. Mas não me mexi. Continuei examinando o rótulo da garrafa de cerveja.

“Você não vai mudar o mundo”, disse-me Galván, quebrando o constrangimento.

Silêncio. Bebi um gole mais generoso.

“Eu entendo, Galván. Há quanto tempo o Señor Ramirez vive por aqui?”

“Dez anos. Todo mundo sabe, menos os novatos. Você é menino. Mas não é mais novato.”

Eu bebi uma dose maior, a cerveja fica quente muito rápido nessa porra de lugar. Respirei fundo:

“Quando crescer, Galván, vou ser que nem você? Como é que dizem mesmo? ‘Vivendo e deixando viver?'"

“Vai. Vai ter medo de morrer, largar sua futura mulher, deixar seus filhos órfãos, vai querer comprar um videocassete que o salário não permite...”

“Não dava pra ser diferente, Galván?”

“Não. Faz calor demais neste lugar. A gente se larga. Viu o Señor Ramirez? Sozinho, relaxado, fedendo. Às vezes eu acho que ele está louco para ser preso – só para fugir da rotina, sair desta pocilga a quarenta graus.”

Muito discretamente, eu me cheirei nas axilas. Estava fedendo também.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

*fatportel@gmail.com