domingo, 12 de dezembro de 2010

O Capitão Nascimento e o gigante adormecido











Eduardo Sabino*

Uma das famigeradas estatuetas do Oscar, na categoria de melhor filme, foi para o longa Crash (2004), que abordou, com coragem, as relações entre os moradores de Los Angeles, especialmente os conflitos, ainda intensos, entre brancos e negros, estadunidenses e imigrantes. É natural que a arte tenha como fonte de inspiração a realidade e que, no Brasil das lutas de classe, veladas ou não, despontem filmes como Carandiru, Ônibus 174, Cidade de Deus, Quanto vale ou é por quilo (obra máxima de Sérgio Bianchi), entre tantos outros, dos quais destaco, recentemente, o Tropa de Elite 2, já considerada a produção cinematográfica nacional mais vista de todos os tempos.

A continuação da franquia dirigida por José Padilha aprendeu com a ingenuidade do primeiro filme, que colocava o tráfico como uma mera relação entre vendedores e consumidores e soltava a fúria do vingador Capitão Nascimento como um soldado divino a desfilar coronhadas, frases feitas e discursos autoritários. O Capitão Nascimento agora nasce e amadurece para um mundo mais amplo. Ao ser empossado secretário de segurança pública, ele se vê às voltas com a corrupção e começa a entender melhor a relação entre tráfico, política e mídia. Na trama, os políticos manipulam a seu favor a miséria e a violência das favelas. Na corrida por votos, o governador candidato à reeleição e sua equipe chegam a planejar um assalto a uma delegacia, executado por policiais corruptos disfarçados de traficantes. A armação acaba por justificar a invasão da favela, que repercute bem na mídia sensacionalista e melhora a posição do candidato nas pesquisas de voto. Óbvio, o inimigo do Capitão Nascimento agora é outro. É o sistema, essa fábrica de verdades de plástico nem sempre denunciadas pela História, muito menos pelo jornalismo (vide Getúlio Vargas queimando nossos teatros para culpar os comunistas, a suposta viagem à Lua que ajudou os EUA a “vencer” a Guerra Fria, o improvável atentado às Torres Gêmeas carimbando a invasão do Iraque).

Do ponto de vista técnico e, arrisco, artístico, Tropa de Elite 2 é um bom filme. O capitão agora é um narrador confuso, ciente de erros e limitações, e a sua violenta jornada é também uma busca pelo conhecimento. As cenas se alternam mostrando os olhares distintos que formam a teia à qual chamamos realidade. Se antes a câmera era muito focada na ação dos policiais do Bope contra os traficantes, desta vez ela se desloca para as consequências e causas da guerra do tráfico, por exemplo, para uma aula de Sociologia (academia), exibição de jornal sensacionalista sobre a violência (mídia), uma reunião em gabinete político (Poder Executivo) e até para uma CPI em assembleia legislativa. As tensas relações institucionais se refletem nos relacionamentos dos personagens, muito bem compostos. Nascimento se separou, e a ex-esposa e o filho estão morando com um inimigo público do Bope: o professor de Sociologia e deputado estadual Diogo Fraga. No meio do tiroteio, está o filho de Nascimento, entre um padrasto de ideias e diálogo e um pai de ação e poucas demonstrações de afeto. A concisão e a intensidade das cenas garantem a tensão do espectador.

Maravilha, mas os elementos descritos são suficientes para explicar o recorde de bilheterias do filme? Não. Nada é o bastante para explicar qualquer coisa. Daqui em diante, é preciso tratar o cinema como um fenômeno social. Por detrás da telona, há o contexto adequado para a venda da mercadoria. E o destes tempos, diga-se de passagem, é terrivelmente sombrio.

“Infeliz o povo que precisa de heróis”, dizia o poeta e dramaturgo alemão, Bertold Brecht. Neste país, não só precisamos, somos devotados a eles. Por isso, em época de eleições, depositamos mais esperanças na tela de cinema do que nas urnas. Afinal, lá estava o homem fardado, o Rambo tupiniquim, disposto a eliminar os políticos corruptos da Terra (ou pelo menos do Brasil). Fora das sessões, nas seções de votação, víamos apenas um modo de, no máximo, dar continuidade à situação. O sucesso do Tropa é também a soma das nossas desilusões e desejos mais perversos, a possibilidade de ver, ao menos ficcionalmente, um político corrupto sendo preso ou levando uma surra. Era de se esperar que o boca a boca arrastasse multidões.

Um conto de Rodolfo Walsh, escritor argentino assassinado pela ditadura nas ruas de Buenos Aires em 1977, narra uma bela alegoria sobre o herói e os perigos que representa. Em "Um sombrio dia de justiça", um grupo de adolescentes de um orfanato de padres da Irlanda é submetido às loucuras do bedel Gielty. O religioso organizava lutas entre os internos, com a justificativa de prepará-los para o mundo. Ao escolher os rivais da primeira sequência de confrontos, ele opôs o habilidoso e esquivo Gato ao frágil e preguiçoso Collins. As surras colecionadas pelo pequeno Collins, dia a dia, vão revoltando o menino e a multidão de espectadores. Até que, em gesto desesperado, Collins escreve ao tio Malcolm pedindo ajuda. Logo recebe a breve resposta de que ele estava a caminho e daria uma surra no tirano religioso. No segundo movimento do conto, acompanhamos as expectativas dos jovens para o grande confronto. Todo um imaginário dos heróis é explorado. Desenhos do tio de Collins como um homem robusto, alto, confiante. Slogans, bandeiras, cartazes. Todo o material apontava uma esmagadora vitória do herói sobre o vilão. Mas, no tal dia de justiça, Walsh nocauteia o leitor, e Malcolm frustra os adolescentes ao ser derrotado pelo bedel. Walsh dá de brinde o sentido político do texto na conclusão do conto, ao passar a chamar os mais de cem adolescentes decepcionados de povo:

Ali acabou a felicidade, tão boa enquanto durou, tão parecida com o pão, o vinho e o amor. Recuperado, Gielty sacudiu o saudante Malcolm com um murro no fígado, e enquanto Malcolm se dobrava depois de uma careta de surpresa e de dor, o povo aprendeu, e enquanto Gielty o arrastava na ponta de seus punhos como nos chifres de um touro, o povo aprendeu que estava sozinho, e quando os socos que soaram na tarde abriram uma chaga incurável na memória, o povo aprendeu que estava só e devia lutar por si mesmo [...]

O povo brasileiro está longe de aprender a lutar por si mesmo. É mais fácil se conformar e vibrar com o fantástico Capitão Nascimento enquanto comemos pipoca e bebemos coca-cola. É mais fácil anestesiar esse poder de ação em uma figura heroica. Transferir para o outro a força para a melhoria. Acompanhá-lo como quem torce em uma partida de futebol. Continuamos à espera dos messias. Novos Antônios Conselheiros, Lampiões, Tiradentes, Lulas...

O Tropa de Elite 2 diz que “agora o inimigo é outro”. Os inimigos da mudança são também os heróis. Atrás deles, escondem-se massas alienadas, sem articulação alguma. Um povo sedento de pasto e cultura cujos representantes temem que aprenda a pensar, exigir, a se mobilizar. Heróis de nós mesmos?

Quanto tempo teremos de esperar para ver os políticos corruptos se dando mal? O Padilha já avisou: não haverá o terceiro filme.



*eduardosabino@caoseletras.com