domingo, 12 de dezembro de 2010

O senhor Alter Ego











Joaquim Moncks*

Chega de Pelotas, minha terra, o salutar pedido de crítica provindo de uma pessoa que ocupa lugar de destaque no meu espírito. Inteligente, lúcida e altamente preparada... Pede a análise do texto abaixo. Ao trabalho, seu Moncks!

Poesia ou fluxo de consciência?

Lígia Antunes Leivas (Lilu)

Qualquer ponto da estrada
qualquer paradouro sem indicação
ao despertar de um sono pouco, breve
com sonho de gaivotas voando
como se tudo fosse paz...

Sorriso amarelo... apenas a boca
com lábios estirados
(melhor mesmo era não ter
nem que olhar para o lado)
Aquele pregador a noite toda nos meus ouvidos
a insistir que deus existe...
(sei lá se existe ou não
os homens também criam cada coisa...)

Irritante essa sempre concordância com as regras
com o previamente estabelecido
para o mundo ser melhor
(e se não fosse assim,
será que não seria mesmo muito melhor?)


Transgredir a hipocrisia,
dar autenticidade a tudo...
– ...mas fui eu mesma que disse isso?
(–... por que será que hoje sou verdade?)

Algumas ruas acima o silêncio daquela cidade
(nem sei qual é...
faz horas que esse 'bus' dá voltas e voltas...
– que lugar do mundo é este?)
passa no meio dos tiros.
Todo lugar é igual.
Cidade esvaziada nesta hora da madrugada
e a lua é cheia... linda!

No meu canto converso com tantos!
(todos vão comigo no meu pensamento...)
E o pastor quer as minhas respostas
– por que duvido da existência de deus?
Ora, nem eu sei... isso é coisa sem resposta.

Segue-se... Seguimos todos...
o ronco do motor, a força das marchas
os morros com luzes ao longe
mais uma parada ao longo do caminho.

– E por que estou aqui?

A chuva sempre é fria em qualquer estação.
A estrada começa a ficar cidade... apitos
barulhenta, desperta-me para o real.
Já nem sei quem é mesmo essa que vem dentro de mim...

– a passagem.
O rumo virá ao meu encontro...

Eis um texto de difícil apreciação, desde a sua apresentação formal. No entanto, facilmente perceptível que provindo de fluxo de consciência, tanto que título alternativo como proposta pensamental. Autora mergulhada no que o caldeirão fervente do processo criativo propõe ao inquieto espírito. Naturalmente que fluiu o processo inspiracional...

Curioso é que fruto de perquirição intelectiva, segundo os signos forjados num auto-questionamento (como se houvessem dito algo ao ouvido que lhe sugerisse novos padrões e enfoques) sobre vida e verdade, como queria Göethe. Questionamento ótimo para o teatro, como legou Shakespeare: "To be or not to be"...

O que causa espécie é que a apresentação está em versos e não em prosa... Sempre que me topo com versos prosaicos fico pensando: o autor poderia ter escrito linha a linha, margem a margem, parágrafo a parágrafo, porque o fundo – o conteúdo – apontará a classificação.

É curioso, repito, que o ritmo da lavratura é cursivo, com um andamento que não nega o poético, seguindo até a antepenúltima estrofe de verso único, interrogativa, lembrando Álvaro de Campos, de F. Pessoa...

Depois, é hiato confessional, sobrevindo o questionamento de rumo para a "viagem"... Novo complemento interjeicional sublimado pelas reticências me parece que – como em vários textos meus e nos da autora – a “Barca de Caronte” num redivivo mitológico clássico, traveste-se, nessa ebulição, no "ônibus proletário" dos tempos atuais...

Ao menos, quando chegar a hora, seguiremos com mais rapidez, tal a destreza e a imediatidade virtual dos sonhos e do encantado mundo das imagens, no plasticismo que a Palavra constrói.

Compreensível que, na titulação alternativa esteja a Poesia, porque, mesmo no suprarreal, é ela que reconstrói a vida, mormente quando o hostil da realidade nos sugere perdas ou até o Armagedon.

E reporta-se, após o escorço no limbo da discussão filosofico-poética: "... quem é mesmo essa que vem dentro de mim...(?)

Sê muito bem-vindo, senhor Alter Ego!

– Do livro O novelo dos dias, 2010.
Publicado também no Recanto das Letras.



*joaquimmoncks@gmail.com