domingo, 12 de dezembro de 2010

O silêncio e o sagrado











José Castello*

Publicado originalmente no blog A literatura na poltrona, no Globo On-line

Muito se fala, hoje, do sagrado. Em nome do sagrado, muito se faz, muito se desfaz _ e muitas coisas e pessoas se destroem. A literatura oferece uma chance de pensar o sagrado não como a voz que ordena e empurra, mas como um segredo. Em contraste com um segredo, toda afirmação peremptória se esfarela. Diante dele, só nos resta agir com suavidade. Só nos resta tentar, sem jamais conseguir.

Essas ideias, que sempre rumino com inquietação, encontram eco em um belo texto da psicanalista Maria do Carmo Andrade Palhares. Chama-se "Territórios do silêncio" e ela o apresenta em uma mesa de debates que dividimos na Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Uma mesa de debates prudente paradoxo sobre o silêncio.

Em silêncio, limitando-me a rabiscar algumas ideias imprecisas, ouço Maria do Carmo falar de coisas espantosas. Por exemplo: do direito do paciente de não ser descoberto. Seu direito inalienável de calar. Seu direito de conservar um segredo. Será um direito só dele? Maria do Carmo sugere que não, que é um direito de todos nós. O direito de conservar, a todo custo e com toda intransigência, o segredo _ esse núcleo ardente e inacessível que nos constitui como pessoas. A garantia de que ele nunca será violado é a garantia de que cada um de nós é um sujeito singular.

Escritores lidam, todo o tempo, com o paradoxo palavras-silêncio. A literatura não passa de uma dança sinuosa e tagarela em torno de algo que jamais se diz. Por isso toda literatura fracassa: escritores acariciam o segredo. É bom advertir logo: ele nada tem de místico, ou de transcendente; é só o núcleo íntimo em torno do qual existismos. Ali, naquela zona obscura, existimos como seres singulares e inconfundíveis.

Maria do Carmo é uma leitora aplicada do psicanalista inglês D. W. Winnicott (1896-1971). Com ele, aprendeu que existe no centro de cada pessoa um elemento incomunicável, onde se guarda inestimável tesouro um idioma pessoal. Onde se esconde aquilo que todo escritor procura obsessivamente e jamais chega a encontrar: sua voz interior. Aquele silêncio insistente e atordoador que o leva a escrever.

Escritores precisam do silêncio para escrever  ele é uma caixa de segredos da qual, em raros relâmpagos, eles arrancam, a dentadas, sua escrita. Escritores permanecem mais tempo em silêncio, ruminando ideias vagas, pensamentos incoerentes, sentimentos paradoxais, do que escrevendo. As palavras surgem com grande dificuldade. O silêncio, e não a palavra, é sua ferramenta. Escritores não são mestres da palavra só os falsários e os arrogantes acreditam nisso.








Artistas, em geral, desenvolvem, mais que outras pessoas, um ouvido interno, que os aproxima, só um pouco mais, do outro (esse grande estranho) que trazem em seu interior. Desse outro que é, sempre, inacessível. Núcleo duro e inviolável _ que os loucos, desejando tudo possuir e tudo saber, profanam e destroem. Ouço as ideias de Maria do Carmo com grande espanto: suas palavras fazem eco com pensamentos antigos, mas inarticulados, que carrego há muito dentro de mim. É como se Maria do Carmo, com suas palavras (de escritora?), roçasse o meu segredo.

Escritores lidam mais com o silêncio do que com palavras. Não sei se lidam: desejam lidar. Lidam mais com a escuta do que com a escrita, ainda que, na maior parte do tempo, fiquem apenas com ruídos e murmúrios. Sem essa escuta para dentro, que tem como objeto um núcleo inacessível, ninguém escreve para valer. Podemos escrever "à moda de", ou para agradar a crítica, ou para vender muito. Nunca escrever para si mesmo  e, em literatura, cada escritor é seu próprio destinatário. O leitor não passa de um desconhecido.

A comunicação com o outro, Maria do Carmo nos diz, parte sempre do desconhecimento de nós mesmos. Não se dá de homem para homem, ou de mulher para mulher, mas de segredo para segredo. E é nesse abismo inacessível, no qual dois segredos resvalam, que se guarda o que podemos chamar de sagrado. Arrisco-me a pensar: sagrado não porque seja elevado, ou puro, ou superior; sagrado porque é radicalmente humano. Sagrado porque falha  e a falha é o homem.

Dois cegos avançam em uma estrada. Em meio às trevas, perseveram em seu caminho. Como não conseguem se ver, acreditam que estão sozinhos. Quando enfim chegam a falar, desconhecem seu destinatário. Sem saber por que falam com alguém que talvez nem esteja ali, suspeitam de si mesmos. O que fazem? Talvez seja isso: escrevem. Pode haver algo mais sagrado para um escritor?



*José Castello é jornalista e escritor, colunista do suplemento Prosa & Verso, de O Globo, autor de Vinicius de Moraes: O poeta da paixão (Companhia das Letras, 1993), Inventário das sombras (Record, 1999) e Ribamar (Record, 2010), entre outros.