domingo, 12 de dezembro de 2010

Parabólica











Eduardo Sigrist*

O rastro que seguia a estradinha em direção à periferia da periférica cidade de Imburana não era feito por nenhum pneu de automóvel, pois disso só existia por ali um Passat 81 que não saía de casa havia três meses, por conta de uma moléstia nos ossos do joelho esquerdo de seu proprietário, o delegado, que, este sim, saía de casa vez em quando, mas deixava um rastro triplo com o contorno de dois pés e de uma bengala de carvalho. E nem era pegada de cobra, tatu, porco, lambisgoia, saci, porque tudo isso existia por ali, mas não costumava andar durante o dia naquela estradinha à beira dos poucos e pobres casebres das redondezas, sob pena de ter os segredos da vida desvarridos de debaixo do tapete por uma das rendeiras que ficavam a tecer fofocas na ponta da agulha.

O rastro, que acompanhava um par de calosas pegadas, era uma marca riscada na terra pelo arame desgrenhado de uma antena parabólica. Chegava a arrancar pedregulhos do solo, desmanchar formigueiros, estrebuchar trevos de três e de quatro folhas, tanto faz a quantidade, pois a sorte daquele povaréu não era direta nem inversamente proporcional ao número de folhas de um trevo, era um denominador zero. E essa antena parabólica, puxada com tanto suor pelo braço sem parábolas do Vicente, estava chegando meio estragada ao quintal do Vicente, vinda lá da cidade, da casa do cunhado do Vicente, que lhe vendera fiado aquela geringonça havia muito abandonada, concha abortada pela ressaca do sertão. A Isabel, irmã do cunhado do Vicente, e por coincidência mulher do Vicente, fazia tempo que pedia uma parabólica para ver a novela das nove e nove, para ver a protagonista da novela das nove e nove, a Suzy, porque o sinal VHF atravessava com dificuldade a serra e chegava meio empoeirado a Imburana, deformando o rosto da atriz e impedindo a Isabel de ver como ficou a plástica no nariz da Suzy. Nariz que, se se levassem em conta as histórias que a Isabel lia na revistinha da venda do Malaquias e recontava ao Vicente, devia ser a cada dia maior, porque, segundo lenda da região, as mulheres que enganavam o marido encompridavam o nariz próprio e o chifre alheio, e a tal da Suzy não era brincadeira em matéria de cornear o digno esposo.

Comprara fiado o Vicente, pois estava desempregado, e só mesmo o cunhado para lhe fazer aquele favor. Tinha um mês pra pagar, sob pena de perder para o bom cunhado a tevê de 14 polegadas, que entrara no roteiro daquele melodrama financeiro fazendo o papel da multa e que fora, aliás, presente de casamento do próprio cunhado. Mas o que importava no momento era a felicidade da Isabel, os três anos de casados, os três anos de choradeira querendo uma antena decente para ver a novela.

A antena estava lá, descansando no quintal, enquanto o Vicente entrava para tomar um gole de água e repor os sais minerais que seriam necessários para instalar o monstro, apesar de o Vicente não entender nada de eletrônica, não saber o que era satélite, não atinar com nada que não fosse feito de madeira e pedra. Mas entendia de mulheres, principalmente da sua, e sabia que, se a Isabel chegasse mais tarde e não encontrasse a tevê tinindo, ela ia entrar fuzilando, irritada depois da viagem de algumas horas de jardineira até a cidade vizinha, disse que pra comprar uma calcinha vermelha, pois esse tipo de artefato não era vendido no casto comércio local. Essa história excitava o Vicente, que queria de todo jeito agradar a mulher para, depois da novela, pedir que ela vestisse e desvestisse a nova aquisição.

Além de tudo, ele a adorava, amava mesmo, embora o povo dissesse que amor por aqueles lados era ventania, ia-se embora se não fosse nutrido com um bom prato de feijão com arroz e farinha. Não era um vagabundo, o Vicente, só dera azar de perder o emprego logo depois do casório, e até agora não encontrara nenhum trabalho sério, só aquele bico ajudando o irmão na pedreira, que lhe garantia umas migalhas para comprar migalhas. Ele queria provar que de amor se podia viver sim, era homem e sabia fazer uma mulher feliz, sabia honrar as promessas do matrimônio, e aquela antena ia trazer felicidade para o lar, porque era um ato de amor.

Felicidade não se espera, se constrói, e o Vicente voltou rápido ao quintal para começar a instalação daquele receptor de bem-aventuranças domésticas. “Não tem segredo, Vicente”, vinha de longe, pelo satélite, a lembrança da voz do cunhado, “ela já tá montada, é só enfiar o cano no chão, puxar os fios e direcionar o centro pro Cruzeiro do Sul.”

Apesar de o Vicente ter tomado uma boa dose de sol durante a caminhada, o algoz ainda tinha muito calor para tostar a testa do caboclo, antes de se refugiar atrás da serra. Até o anoitecer dava tempo de o Vicente fazer o buraco e desemaranhar aquela teia de fios e cabos que o cunhado lhe empurrara, mesmo sem saber para onde diabos teria que apontar aquilo, pois o Cruzeiro caminha no céu, não tem pouso fixo, mas isso ele ia ver à noite, agora tinha muito que fazer.

Pegou o enxadão e começou a cavoucar o chão, cavoucar o pensamento, imaginando a alegria da Isabel, o suspiro da Isabel, ai, que sempre o atacava e o enchia de ternura, o suspiro do início do namoro, sonhando filhos e eletrodomésticos, sonhando antenas parabólicas e novelas, sonhando o galã que o Vicente nunca fora, mas que servia pro gasto.

A terra seca ia se amontoando ao lado do buraco, terra que poderia voar ao léu depois de um suspiro da Isabel, o suspiro, ai, que sempre o atacava e enchia de desejo, o suspiro do início do casamento, nas noites de sábado, quando os dois se entregavam a todo tipo de carícia, quando os dois se entregavam a intimidades que o Vicente agora, vendo a terra seca, estéril, recordava com saudade. Quem sabe esta noite, com a ajuda da parabólica e da calcinha vermelha, a Isabel volte a procurá-lo com a mesma necessidade dos primeiros tempos.

A cova já era suficiente para enfiar o cano da parabólica, atochar lá no fundo e depois, ufa, o trabalho mais cansativo, que seria apenas empurrar a terra de volta, preencher os contornos do metal, apertar, pisar, para ficar tudo rijo, mas como era pesado aquele serviço, se ao menos houvesse o suspiro da Isabel para ajudar, o suspiro forçado das últimas noites, ai, que sempre o atacava e enchia de ciúme. Ela já não era a mesma desde que passara a ir à venda do Malaquias ler sobre a Suzy e os namorados da Suzy, porque o nariz da Suzy isso, o nariz da Suzy aquilo, o namorado da Suzy que parecia um deus, o outro namorado da Suzy que parecia um leão garboso, o amante da Suzy que tinha o cabelo do... Malaquias!

Como ele não desconfiara? Não, não podia ser, estava imaginando coisas, culpa daquele sol a fritar a mente, culpa daquela antena a prenunciar novelas e filmes impróprios que mexiam com a cabeça das senhoras casadas, culpa daquela antena-sol que mexia com a cabeça dos senhores casados. O Vicente não conseguia parar de cavar e já podia se enfiar até o joelho na cova de tatu, quase até as coxas, quase até o sexo seco de vontade, mas era preciso cavar mais e mais e mais.

Por que uma antena daquela? A vida por ali já era gigante demais, com todas as histórias contadas pelas rendeiras sobre lambisgoias e mulas sem cabeça, não era preciso uma parabólica pra saber sobre o resto do mundo, porque o mundo ali era gigante demais, embora coubesse sei lá por que traquinagem de saci dentro do cachimbo dos anciãos, nos causos que eles contavam sobre lambisgoias sem cabeça, o mundo era grande e pequeno, vai entender, e cabia em tudo, menos naquela meia cabaça apocalíptica feita de arame e pesadelo.

Cavar era preciso, porque a Isabel logo ia chegar e querer de todo jeito ver a novela pela parabólica, era preciso cavar mais, para o Vicente enterrar bem fundo aquela desconfiança, aquela desgraça de imaginação de desempregado vadio. Mas ele não era vadio, apenas pensava coisas demais sobre a Isabel, coitada, tão boa moça, coisas de novela, não da vida real, pois na vida real havia as rendeiras, os bons cunhados, as cobras, os tatus, a vila, a venda do Malaquias.

O pior era que o Malaquias andava meio arisco com ele, sempre arrumando serviço pra fugir da conversa, sempre num não dizer, num não encarar. E a Isabel andava suspirosa demais, ansiosa demais, muito estranha, muito suspeita com aquela história de comprar calcinha vermelha, se ela nunca gostou de vermelho.

Precisava ir lá, tirar tudo aquilo a limpo, estapear a Isabel, estripar o Malaquias, mas antes tinha que terminar o buraco. O sol já sumira atrás do novo horizonte edificado pela borda do buraco, as primeiras estrelas começavam a aparecer, logo o Cruzeiro do Sul ia apontar lá em cima, e ele não conseguiria sair do abismo, que já estava fundo demais, mas não o suficiente, pois o cano era longo, o chifre era imenso, o nariz da Isabel era descomunal. Tudo tinha de caber ali.

Chega de cavar, preciso sair daqui pra plantar a antena, depressa, já estou ouvindo a risada do Malaquias, já estou ouvindo a risada da Isabel, já estou ouvindo o suspiro dos dois namorados a empurrar a terra pra dentro da cova. Socorro! Ser enterrado vivo não quero, me deixem ir embora, prometo que não vou atrapalhar, e ainda instalo a antena para vocês assistirem à novela juntos, me deixem sair, tenho que apontar a antena pro Cruzeiro do Sul antes que o sol nasça de novo, antes que a Isabel chegue de calcinha vermelha, antes que o cunhado venha cobrar o pagamento e leve a parabólica, a televisão, antes que esse suspiro poderoso e descontrolado da Isabel leve a parabólica, o cunhado, a lambisgoia, o chifre, o tatu, a vergonha. O pó, o pó, o nariz asfixiado, o pó, o pó, a mente asfixiada, o pó, o pó, o nariz, o nariz. O narizinho da Isabel, tão pequeno e bonito.

As pegadas do Vicente e da antena tinham sumido da estradinha. As rendeiras também se esconderam dentro de casa, fugindo da ventania. Os trevos não tinham três nem quatro folhas, todas arrancadas, levadas pela parábola do rodamoinho que se distanciava. Arte de saci, pensou a Isabel. Ela seguia a pé pelo caminho, deixando seu próprio rastro no chão. Rastro rebolado e encarnado como a calcinha que trazia no corpo. O Vicente ia gostar, ele que andava tão borocoxô depois de perder o emprego. Depois de começar a beber na venda do Malaquias. Depois de começar a ficar até tarde assistindo à tevê na venda do Malaquias. E só falava de novela, de histórias distantes e banais sobre traição e romance. Pois se nem a própria Isabel via novela, achava que isso embotava a cabeça de todo mundo, quanto mais a de um desocupado como o Vicente. Ele tinha perdido o ânimo, dizia que sem emprego não havia feijão com arroz e farinha, e que só de amor ninguém vivia. Mas a calcinha vermelha ia reanimá-lo, ia trazer de volta os primeiros tempos. A Isabel queria provar que de amor se podia viver sim. Era mulher e sabia fazer um homem feliz. Sabia honrar as promessas do matrimônio. E aquela calcinha ia trazer felicidade para o lar, porque era um ato de amor.



*eduardosigrist@gmail.com