domingo, 12 de dezembro de 2010

Sobre a sutil poesia de um certo cinema de ficção científica:

The Wild Blue Yonder, de Werner Herzog, e Amor Voraz, de Walter Hugo Khouri











Alfredo Suppia*

Dirigido por Werner Herzog, The Wild Blue Yonder (2005) é sugestivamente subtitulado uma “science fiction fantasy”, conforme estampado em cartazes e na capa de seu DVD. Mas seria possível uma ficção científica que não fosse fantasia? Talvez o subtítulo de Herzog seja uma “pista falsa”. O filme combina imagens documentárias submarinas, realizadas por Henry Kieser no Oceano Antártico, registros da NASA e trechos de ficção, nos quais Brad Dourif interpreta um alienígena do sistema Andrômeda. Esse personagem vai narrar a aventura da humanidade em busca de outro planeta, em contraposição à empresa de seu próprio povo, interessado em colonizar a Terra.


No decorrer desse épico sobre exploração espacial, Herzog ainda reúne depoimentos de cientistas sobre as possibilidades de viagens espaciais de longa distância. A combinação entre imagens ficcionais (essencialmente as intervenções de Dourif) e documentárias (tomadas submarinas, registros de operações da NASA e depoimentos de cientistas) confere um realismo peculiar à narrativa híbrida de ficção científica, lembrando-nos da ideia de “documentário de futuro” já proposta por Raymond Bellour em relação a La Jetée1.

A estratégia de deslocamento (o emprego de imagens documentárias em circunstâncias ficcionais) e intercalação adotada por Herzog não é nova. Lembra filmes como Phase IV (1973), de Saul Bass (curiosas intercalações da ficção a tomadas documentárias de formigas feitas por Ken Middleton), Level 5 (1997), de Chris Marker, outra espécie de “documentário de futuro”, e até mesmo uma chanchada brasileira tardia, Os Cosmonautas (1962), de Victor Lima, no qual a expedição de astronautas brasileiros (Grande Otelo e Ronald Golias) é baseada nessa estratégia de deslocamento, intercalando imagens do programa espacial americano, depositadas no arquivo da Herbert Richers, a sequências ficcionais. Por sua vez, Herzog organiza uma narrativa híbrida extremamente coesa e eficiente, apostando duplamente no caráter realista e poético das imagens.


A exploração da “poesia” interpretável em conceitos científicos e imagens da NASA também não é novidade. Muitas pessoas utilizam screensavers da agência espacial americana pelo mesmo motivo. Mas The Wild Blue Yonder explora esse potencial poético com grande competência a serviço de um longa-metragem. Esse duplo movimento - a “poesia” e a “realidade” por trás da ciência, e da imagem documentária científica -, aparentemente paradoxal, já foi a joia de documentaristas científicos como Jean Painlevé ou Carl Sagan, e parece constituir uma bela chave de interpretação para a ficção científica em suas diversas manifestações.

O alienígena interpretado por Dourif, bem como toda a especulação científica em torno de viagens no tempo e espaço, mobilizando conceitos como a Teoria da Relatividade, lembra também outro filme de ficção científica de caráter poético-realista, rodado no Brasil. Amor Voraz, filme de 1984 escrito e dirigido por Walter Hugo Khouri, é uma ficção científica sem efeitos especiais nem recurso a elementos muito evidentes de identificação com o gênero. Baseado no romance O Beijo Antes do Sono, de Fausto Cunha, publicado em 1974 pela editora ArteNova, o filme, sobre o relacionamento entre uma mulher e um alienígena, é representativo de uma vertente da ficção científica mais sutil, poética e intimista, na linha praticada por cineastas como Andrei Tarkovski. Quando se comenta obra de Khouri, fala-se de Antonioni, de Dreyer e de Bergman, mas há também em Amor Voraz alguma similitude com o estilo do Tarkovski de Solaris e Stalker, nos longos planos contemplativos (especialmente aqueles voltados para a água: lagos, cachoeiras, corredeiras, etc.). Sobre sua afinidade com a narrativa fantástica, o próprio Walter Hugo Khouri comenta:

O meu fascínio pelo clima fantástico, pelo irreal, pelo estranho e pelo insólito vem desde as minhas leituras de infância e continuou pela adolescência e pela idade adulta, ali já abrangendo todos os domínios da arte: literatura, artes plásticas em geral e, naturalmente, cinema. (2

Enquanto se recupera de problemas nervosos numa casa de sua família, fora da cidade, Ana (Vera Fischer) encontra um desconhecido (Marcelo Picchi), homem de saúde precária com quem conversa telepaticamente e pelo qual se apaixona. Esse homem é um extraterrestre que viajou no espaço, por meio da luz, com o objetivo de encontrar refúgio para seu povo, civilização muito avançada e antiga cujo planeta está prestes a se extinguir. Ele levou milhares de anos para “germinar” como homem num lago nas proximidades da casa de Ana, e sua missão é reportar dados sobre a Terra. A Teoria da Relatividade de Albert Einstein é incorporada por alguns diálogos do filme, como se vê no trecho em que Ana explica a Sílvia (Márcia Rodrigues) a origem do homem desconhecido, ou quando este informa a Ana que deve partir, ao que ela protesta, referindo-se aos anos em que ele teria ficado “germinando” naquele lago, muito antes de ela nascer, bem como aos anos que ele levaria viajando até seu planeta, lá chegando muito tempo depois da morte dela. Segundo Jairo Ferreira, “Filme de science-fiction sem efeitos especiais ou visuais, Amor Voraz é um raro exemplar da inesgotável força do cinema como veículo de sugestões poéticas.”3 Convém notar que Amor Voraz trabalha praticamente o mesmo assunto de O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, EUA, 1951), de Robert Wise, ou E.T. – O Extraterrestre (E.T. – The Extra-Terrestrial, EUA, 1982), de Steven Spielberg, ou seja, o contato com um alienígena e as repercussões desse evento na psicologia humana. A diferença entre esses três filmes estaria essencialmente no tratamento do tema: em Wise o contato é público e de teor notadamente político; em Spielberg o contato é com a criança, expondo a disparidade entre os valores infantis e adultos; em Khouri, o contato repercute na psique de uma mulher jovem e solitária.


Filmes como The Wild Blue Yonder, La Jettée, Level Five, e mesmo Phase IV ou o brasileiro Amor Voraz, demonstram a possibilidade de outra vertente do cinema de ficção científica, mais sutil e intimista, experimental, conceitual e eventualmente em diálogo com o campo do documentário. Substancialmente diversa do cinema de ficção científica mainstream - o dos blockbusters pirotécnicos -, essa vertente mais sutil acaba colocando em questão a consagrada relação do gênero com os efeitos especiais, acenando com outras formas audiovisuais possíveis no horizonte da fantasia e da especulação.

Notas
1 - Raymond Bellour, Entre-Imagens, pp. 170-1.
2 - Walter Hugo KHOURI apud Jairo FERREIRA, Cinema de Invenção, p. 234.
3 - Ferreira prossegue: “Só com muito talento é possível conseguir a densidade que Khouri atinge aqui com recursos mínimos: uma casa à beira de um lago, extraindo pura magia a partir da paisagem, muito também devido à extraordinária luminosidade da fotografia de Antonio Meliande, à música altamente funcional de Rogério Duprat, à precisa montagem de Eder Mazini.” (“Voo entre galáxias”, Filme Cultura, nº 45, mar/1985, p. 84. Esse mesmo texto pode ser encontrado em Jairo FERREIRA, Cinema de Invenção, p. 236).


*Alfredo Suppia é professor de cinema do Depto. de Artes e Design da Universidade Federal de Juiz de Fora. É líder do grupo de pesquisa LEFCAV (Laboratório de Estudos de Ficção Científica Audiovisual) na mesma Universidade. Especialista em ficção científica audiovisual, é membro da Science Fiction Research Association (www.sfra.org). E-mail: alsuppia@terra.com.br.