domingo, 12 de dezembro de 2010

A vida em quadrinhos











Paulo Lima*

Quem nunca leu uma história em quadrinhos na vida, que atire a primeira pedra. Quem, tendo se tornado adulto, continua lendo história em quadrinhos, que atire outra pedra.

Zás! Ploft! Pou! Hum... hum... poucas pedras.

Bah! Isso é um sinal! Sinal de que, no Brasil, as histórias em quadrinhos ainda são vistas como uma espécie de passatempo praticado apenas por crianças e adolescentes. Ou, vá lá, marmanjos que tentam conservar o espírito da infância e da adolescência.

Oh, não! Chuiff, chuiff...

Aqui nos trópicos, a leitura de quadrinhos ainda é considerada um tipo de atividade lúdica – algo assim como preencher palavras cruzadas –, sem muita relevância intelectual. Tipo da coisa que se faz como mero lazer, ligeiro, vapt!, como um gole de Coca, um sorvete ou  toddynho com canudo.

Chiii... Essa não! Grrrrr!

Talvez essa visão seja uma disneyficação (glup!) do que se entende por história em quadrinhos.    Hã?!! O velho Walt adormeceu e encantou gerações com seus sonhos de princesas e príncipes, patos, ratos e outros bichos falantes.

Zzzzzzzzzzzz...

Mas faz tempo que os quadrinhos conquistaram outro status. É um gênero cultuado lá fora como qualquer narrativa séria. Só que em quadrinhos... ha ha ha ha ha ha ha.

A tal ponto que os anglo-saxões até inventaram uma expressão para as histórias de fôlego que são contadas por meio desse recurso visual (a língua inglesa tem mesmo uma palavrinha pra tudo).

São as graphic novels. Ou, ao pé da letra, romances gráficos. Em vez de o cara sentar e encarar um tijolo só de texto, aquele copião infindável (blá, blá, blá, blá), ele parte pro desenho recheado de balõezinhos que ajudam a contar a história. O resultado, em muitos casos, é algo que beira o genial. Saber com sabor. Diversão e conhecimento.

Hip hip hurra! Hip hip hurra! Hip hip hurra!

Pra quem quiser conferir, podem ser facilmente encontrados nas melhores livrarias ao menos três desses produtos absolutamente sensacionais. Garantimos satisfação – ou retorne ao caixa e pegue sua grana de volta.


O trio que vou sugerir representa um giro por três pontos do planeta, em três épocas diferentes. Começando por Marjane Satrapi e seu romance gráfico Persépolis. Se você quer entender como foi desencadeada a Revolução Islâmica no Irã, então leia o livro. Marjane exilou-se na Áustria, ainda criança, para fugir do rigor da revolução. De lá, mudou-se para a França, onde escreveu sobre o drama de seu país sob a perspectiva da história de sua família. Tradição, modernidade, Oriente, Ocidente, o pop e o histórico. Tudo se mistura em Persépolis. O livro, por sinal, virou filme de animação muito elogiado e premiado.

Clap! Clap! Clap! Clap! Clap!

Depois vem Maus, a premiada graphic novel do americano Art Spiegelman. Em Maus, Art conta a história de sua família sobrevivente do Holocausto. No livro, os judeus são ratos, os nazistas são gatos e os poloneses são porcos. Ratos provavelmente nunca foram tão interessantes e emocionantes como nessa obra. É impossível não virar cada página na expectativa do que acontecerá com a pobre família Spiegelman, enquanto o Nazismo vai fechando o cerco, como numa ratoeira opressiva.

Clap! Clap! Clap! Clap! Clap!


Se você não compreende patavina do que a tevê e os jornais falam copiosamente – e diariamente – sobre as confusões entre israelenses e palestinos, então dê um stop! Aquilo lá não é mesmo coisa fácil de entender.

Mas se você quer o passaporte para uma aproximação do tema, então o caminho chama-se Notas sobre Gaza, os geniais quadrinhos do ítalo-americano Joe Sacco.

Nessa graphic novel, Sacco investiga um episódio sangrento que ocorreu na Palestina em 1956, quando quase 300 palestinos foram mortos por soldados israelenses. Uma ação remota no tempo, sem dúvida. Contudo, ao explorar o assunto, Sacco pesquisou sobre o entorno da questão e assim vai à gênese dos conflitos entre árabes e judeus.  O resultado é um livro com alto requinte visual e muitíssimo bem escrito.

Clap! Clap! Clap! Clap! Clap!

No Brasil, a graphic novel atingiu um nível bastante elevado, apesar do gênero ainda ser visto com certa desconfiança, inclusive dos editores. Em 2008, os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá receberam o Eisner Awards, uma espécie de Oscar dos quadrinhos. O prêmio é uma homenagem a Will Eisner, considerado um dos maiores quadrinistas de todos os tempos. Dele foi lançado recentemente no Brasil o romance gráfico Nova York, com cenas da vida naquela megalópole. Um trabalho de rara beleza estética.

O escritor Daniel Galera e o quadrinista Rafael Coutinho contribuíram para enriquecer o mercado das HQs no Brasil, com o lançamento recente do livro Cachalote.

Se você passar a frequentar a praia das graphic novels , irá encontrar por aqui os trabalhos de outros grandes quadrinistas, alguns deles considerados revolucionários no gênero, como o americano Robert Crumb.

Definitivamente, a vida cabe num quadrinho.


*paulo_val@uol.com.br