domingo, 6 de fevereiro de 2011

Escrever por dinheiro











Homero Gomes*

"Ele precisava escrever um livro, a qualquer preço. A qualquer preço, ele precisava escrever um livro. Ele precisava, a qualquer preço, escrever um livro."

(Otto Winck, no romance Jaboc)


O computador do trabalho travou.

Não era a primeira vez.

“Com o tempo que estou perdendo nessa espera inútil poderia escrever um conto ou um poema”, Ele não escreveu nem um nem outro, pois recebe seu salário para ficar à disposição da empresa por 8h30min diárias, mas manteve sua posição enquanto eu repassava as notas fiscais.

“A primeira coisa que penso ao levantar todas as manhãs é que financio minha escrita com o que ganho aqui.”

“E se dê por satisfeito”, disse eu, sem olhar pra Ele, que bateu na mesa. Caminhando até a mesinha, onde ficavam as bolachas Maria e a térmica de café, Ele virou-se para mim, indignado.

“Escrever não é como comprar uma máquina de lavar, pô.”

“As máquinas, pelo menos, tiram os encardidos das roupas”, eu havia parado de conferir os números, Ele parecia cansado.

“Essa cara encardida nem alvejada de elogios. Chega, quero dinheiro.”

“E com literatura dá pra pagar os balões que a construtora joga na sua mão mesmo não estando em junho?”

“Cai, cai, balão.”

Com a epígrafe retirada do Jaboc martelando ou não na cabeça, Ele sai da sala e entra no escritório do chefe. Consigo ouvir, com algum esforço, algumas palavras d’Ele.
“... o computador não podia ter travado... ficar esperando quanto tempo?...“

Enquanto isso, o computador d’Ele tentava acertar os seus 0s e 1s entre uma e outra vibração do cristal do processador.

“... pra casa... não... prazo não pode... minha casa... escrever... não adianta... demitido nada... estourado... o prazo... ameaçando sim... faça, então... amanhã... só amanhã... fui!”

Ele saiu da sala, o chefe ainda falando, de pé; climão chato. E a epígrafe retirada do Jaboc martelando na cabeça.

“O que houve lá dentro, cara? Cê deixou o chefe falando sozinho.”

“Comecei a ficar com arritmia com sensação de estômago vazio com palpitações nas pálpebras não aguentei tive que sair dali estava ficando angustiado com dor no braço esquerdo será que isso é ataque de pânico tenho que ir pra casa não vou ficar esperando esse troço pegar o prazo já estourou mesmo.”

Andando em direção à saída, muitos perguntam se Ele está bem. Tentando disfarçar o cansaço mental, a angústia, Ele diz que sim, ou sou eu que digo?

Pelo menos, Ele consegue, consigo, concatenar alguns pensamentos enquanto anda, ando, pelo longo estacionamento.

“O Otto escreveu um dos romances com os quais mais me identifiquei. Um dos melhores romances que li durante esses últimos anos. O problema é que não se deve pensar demais, faz mal. Chega de elogios. Isso não serve de nada. Quero dinheiro. Chega de todos achando lindo sem compreender patavina.”

Aquela epígrafe O impelia a escrever. “Me impelia com força. A escrever qualquer texto que fosse, não necessariamente um romance. Essa epígrafe martelava na cabeça.”

Um poema, uma novela juvenil, um conto. “Qualquer texto, até este.”

Mas quando não se está satisfeito consigo mesmo, nenhum texto presta. Não adianta revisar. “Dinheiro me daria, sim, muita motivação; por que não? Escrever não pode ser à força. Na forca, não há criação. Difícil olhar-se de fora. Por isso, escrevo outros”, mas a que preço?

Folheando o romance Jaboc, guardado no porta-luvas, outro trecho previamente sublinhado: "Um quarto da população com fome (...) E você, artista, não tem vergonha de se preocupar com um livro?"

Ligando o motor e respondendo como se o narrador de Jaboc pudesse ouvi-lo, “Cara, tenho contas pra pagar, quem sabe um dia eu consiga pagar uma parcela do meu carro com um texto que escrever por qualquer dinheiro? Quero escrever, mas preciso de dinheiro como todo mundo. Então, porque não posso escrever por dinheiro? Quem disse que eu não posso mais que um bacharel ou um engenheiro?”

Queria ser apresentado a quem definiu essas diferenças. “Não iria sobrar placa bacteriana que fosse.”

Título: Jaboc
Autor: Otto Winck
Editora Garamond (2006)










*Homero Gomes (Curitiba-PR, 1978) é escritor. Autor dos trabalhos ainda inéditos Sísifo desatento (contos), finalista do Sesc de Literatura, edição 2007, e Jamé Vu, que foi publicado na internet durante o primeiro semestre de 2010. É editor do site Jamé Vu. Colaborou com Rascunho, Cult, Germina Literatura, Ficções e Triplo V. É colunista do site Página Cultural (www.paginacultural.com.br). Contato: homero.gomes@gmail.com.