domingo, 6 de fevereiro de 2011

A fonte da juventude











Eduardo Sigrist*

O velho, protegido por um chapéu de palha, estava sentado em um tronco apodrecido, à beira do rio. A mão trêmula segurava a vara de pescar, e os dedos finos confundiam-se com o bambu que pendia sobre a água. Tal como a vara, que se ligava ao fundo do rio por um fio transparente, assim também o pescador parecia sustentado por cordéis invisíveis que vinham do céu, a mover seus frágeis braços de títere.

Devido à falta de chuva, o rio estava baixo, longe da mata. Um ano antes, o velho pescara um pouco mais acima, sob a sombra de um angico-branco. Hoje não havia onde se esconder. Resignado, suportava o castigo infligido pelo sol.

Castigo merecido. Afinal, como o genro lhe dissera, ele não era um vagabundo, que passava o dia todo sem fazer nada? Vagabundo! Dispensado pela madeireira, não conseguira encontrar outro emprego, mas ainda vivia na colônia de funcionários, perto da mata, juntamente com a filha, o genro e a Amélia, a netinha. Havia uns dois anos que moravam juntos, desde que ele conseguira indicar o Osmar para um cargo de operador de motosserra. Arrumou-lhe emprego, ofereceu seu cubículo para eles morarem, e agora era tratado como um malandro.

Pois ia lhe mostrar quem era o velho Moraes. Não conseguia mais trabalhar na mata, mas o céu lhe dava a força necessária para pescar. A Amélia adorava lambari frito. Se ela não fosse tão pequena e se o calor não queimasse tanto, ele a teria trazido para a pescaria. Mesmo assim ela ficaria feliz e correria ao encontro do avô, no final da tarde, a gritar: “Oba! Lambaí!” Sim, ele levaria milhares de peixes, que matariam a fome da família pelo resto da vida. Por isso trouxe todas as espigas de milho que havia encontrado no armário. Se atrás de cada grãozinho viesse um lambari esfomeado, a boia estaria garantida.

Os peixes, no entanto, não queriam aparecer. Nem um beliscão. Com a boca seca, Moraes abaixou a cabeça até o rio e sorveu um gole de água. Ao levantar os olhos para o céu, viu as nuvens negras que começavam a se formar lá adiante. Na cidade já devia estar chovendo. Era um bom sinal. Já estava na hora de vir a chuva. A própria mata parecia sofrer com a estiagem. Seu verde estava desbotado, cor de sede.

O velho Moraes, embora satisfeito com a visão, agitava os braços, como se quisesse espantar as nuvens. A chuva era bem-vinda, mas não para agora. Já que demorara tanto para chegar, que esperasse pelo menos até o final da pescaria.

Voltando a atenção para a vara, ele continuava esperançoso, embora não houvesse o menor sinal de peixe naquele rio.

“Meu Deus, faz um milagre aqui. Sou velho, já sofri demais, mereço a misericórdia dos céus. Mas aí de cima só vem esse fogo. Ah, meu Jesus, vem aqui embaixo sentir o peso dessa cruz em forma de brasa, a martirizar tua gente. Vem aqui e me traz uma rede cheia de peixes. Sou teu filho tanto quanto Simão Pedro.”

Um barulho ecoa atrás dele. Passos vão se aproximando epifanicamente. Atônito, ele não se vira. “És tu?” Espera de olhos fechados a consumação do milagre e em oração agradece a dádiva celeste. Ao passarem ao lado dele, fazendo um ruído de algo que pisa na água, os passos cessam. O velho abre os olhos: um filhote de veado bebe calmamente água no rio.

A princípio decepcionado, logo o homem se encanta com a beleza do animal e estranha o fato de um bicho tão arisco estar próximo assim dele. Deve ter confundido seu esqueleto com um galho de árvore seco. A pouca distância, Moraes não se mexe, temendo assustá-lo.

“Bebe, filho. É toda sua a água da fonte da juventude. Bebe para preservar sua mocidade pelo resto da vida. Não se torne um caco velho, inútil, como eu. Bebe, e depois sai por aí, a pular e nos alegrar com sua beleza tão cara. Que Deus o preserve da velhice, porque a velhice é só a espera da morte. É pensar nela a todo instante e até desejá-la. Mas você é só um bicho, não tem pensamento. Não pensa na morte. Ah, deixa eu tocar seus lustrosos pelos, respirar um pouco da sua juventude.”

A meio caminho, quase já apalpando o corpo do animal, a mão de Moraes para e recua. Uma mancha enegrecida, abaixo das costelas, revela um ferimento grave, talvez provocado pelo tiro de um caçador, a exalar um cheiro podre. Um calafrio percorre o corpo de Moraes, que solta um lamento alto, a praguejar contra o céu e contra os homens. Em vez de fugir, o veado levanta a cabeça e fixa os olhos no velho. Olhos pequenos, lamuriosos, denunciando uma terrível dor. Não é dor física. É a dor de saber que, tão cedo, a vida vai se apagando em seu interior.

Caminhando penosamente, o animal se afasta do rio. Vai devagar, cabeça baixa, até chegar perto da trilha que atravessa a floresta. Ali, senta-se com esforço, entregue à esperança de que o vigor de sua juventude consiga poupá-lo de uma morte prematura.

O pescador permanece um bom tempo paralisado, absorto. As nuvens já cobrem todo o céu, e o azul dá lugar ao cinza. O homem nem percebe a ausência do sol, pois dentro dele a escuridão já se instalara antes de as nuvens tomarem conta do dia. Pensa no veado a morrer, pensa na morte que não poupa pessoas nem animais, jovens nem velhos. Desperta do torpor somente quando algo molhado lhe escorre pela testa. A chuva o traz de volta à vida.

A vara, enroscada num buraco a seus pés, começa a balançar. Deve ser o impacto de um pingo de chuva. Mas o bambu se enverga de maneira diferente, brusca. O velho, a princípio desconfiado, levanta sua arma e vê um lambari de rabo vermelho a balançar na ponta do anzol. Finalmente! O céu enviou-lhe a chuva e, com esta, os peixes. Apressado, ele coloca o danado no samburá e lança a fisga de volta à água. Logo, sente outro peixe a puxar a linha.

À medida que a chuva aumenta, Moraes vai enchendo de peixes o saco. Ele não se importa com a roupa encharcada. Depois de tanto tempo debaixo do sol, sem pegar nada, quer aproveitar ao máximo esse momento de fartura. Sem dúvida, era um milagre. Quanto mais água caía, mais peixes eram fisgados.

Mas o temporal se enfurece tanto que o velho resolve ir embora. Já tinha peixes demais no saco, era melhor não abusar da ajuda de Deus. Ele cogitou tirar a peixeira da cintura e limpá-los ali mesmo. Pensando bem, como teria apenas uma hora de caminhada pela floresta, dava tempo de chegar em casa e prepará-los lá, antes que estragassem.

Arrumou a tralha, desceu do tronco e foi em direção à mata. Perto da trilha, notou que o veado ainda estava lá. Sem forças para fugir da chuva, o animal continuava deitado, com a água a lavar aquela grossa gosma que saía do ferimento. Por alguns segundos, conseguiu levantar a cabeça e olhar o homem que passava apressado. Sem coragem para encarar aquele olhar súplice, Moraes embrenhou-se pela trilha.

O caminho era difícil, em determinados trechos, com muita lama e pedras escorregadias. Mesmo assim ele foi bem, só temendo pela hora em que chegasse ao final da mata, onde havia um córrego manso que descia da serra, mas que formava uma enxurrada violenta quando chovia forte.

Todo o esforço seria recompensador. A filha e a neta ‒ e até o genro ‒ ficariam felizes. Naquela idade, sua única preocupação era com a felicidade da família. Ele sempre se lembrava do próprio pai, homem sábio e trabalhador que, todas as noites, na hora do jantar, falava da importância da família, da fidelidade à família. Dizia que era função do patriarca impedir a infelicidade da família, que a infelicidade era uma maldição de Deus contra os ímpios e desonestos, mas que as pessoas boas e justas viveriam em comunhão tanto na terra como no céu, todas fariam parte da grande família celestial. O pai morreu cedo, e Moraes saiu de casa para ganhar a vida. Não teve chance de estudar, mas guardou esses ensinamentos como um código de conduta que jamais poderia quebrar.

E foi pensando em seu pai que ele chegou ao riacho. Fortalecidas pela tempestade, as águas corriam por cima de uma frágil pinguela, parecendo que levariam tudo para dentro do mato. Mas Moraes sabia que, para fazer sua família feliz, precisava aguentar a fúria da correnteza. Agarrado ao samburá e à vara de pescar, deu o primeiro passo, experimentando a rigidez da tábua. Seguro de que conseguiria passar sem problemas, foi andando mais um pouco. Já estava no meio do caminho quando ouviu um estalo e sentiu a madeira ceder sob os pés. Sem ter onde se segurar, foi carregado pelas águas ferozes.

***

Acordou com o corpo dolorido, jogado em uma das margens, vários metros abaixo do local onde caíra. Ainda segurava com firmeza o samburá e a vara. Não sabia quanto tempo ficara ali. Com certeza passara várias horas desmaiado, pois o céu estava bastante escuro e algumas estrelas se destacavam entre as últimas nuvens. Uma dor na cabeça o alertou de que havia se ferido, provavelmente nas tábuas da pinguela.

Ao levantar-se, Moraes avistou as luzes da sede da madeireira. Sua casa estava próxima. Era só pegar a estrada de terra e em poucos minutos estaria protegido. Infelizmente já era tarde, a Amélia devia estar dormindo e não viria recepcioná-lo. Ao chegar lá, ele iria direto para a cozinha, limpar os lambaris antes que estragassem. Não sabia quanto tempo estivera desacordado, então era melhor não arriscar.

Abriu a porta mansamente para não acordar ninguém. Colocou o samburá na pia e sentou-se, sentindo muita dor na cabeça. O corpo todo latejava. Exausto, já que o desmaio mais servira para maltratar seu corpo do que para lhe dar um pouco de descanso, Moraes acabou dormindo.

Sonhou. Sonhou que era jovem e pescava sentado sobre o mesmo tronco de árvore. O sol corava sua pele lisa e o encorajava a puxar os reluzentes lambaris que vinham se enroscar no anzol. Amélia também estava lá, a galopar em cima do viçoso filhote de veado e gritar: “Lambaí, lambaí!”

Acordou com o grito do genro:

– Onde andou, velho safado? Todo sujo, deve ter enchido a cara e dormido na rua. Vagabundo!

Ainda era madrugada, Osmar acordava muito cedo para ir trabalhar. O resto da família continuava dormindo. Moraes, sabendo que seria melhor não responder nada, apenas apontou o saco de peixes sobre a pia.

– Então finalmente fez algo de útil! Mas o que é isso? Peixe podre! Tão podre como essa sua carcaça enrugada.

Irado, Osmar lançou o saco no chão, espalhando seu conteúdo. Aturdido, Moraes não acreditava. Abaixou-se e conferiu. Realmente, todos os peixes estavam sem brilho e com um cheiro de matéria em decomposição. Não querendo acreditar, começou a colocá-los de volta no samburá.

– Agora não adianta mais querer limpar. Já apodreceram. O que você queria era que eu limpasse tudo, né? Eu, que passo o dia todo dando duro no serviço. Tem cabimento? Velho inútil. Pois vai aprender uma lição!

Osmar agarrou a vara de pesca, agitou-a no ar e, com toda a força, golpeou as costas do velho:

– Safado! Pois vai aprender a trabalhar. Toma aqui, vagabundo – Osmar gritava e açoitava o corpo prostrado do sogro.

A filha e a neta acordaram com o barulho e, chorando, tentaram debalde acalmá-lo. Ele não se comovia, e continuava a bater.

– Olha, Sílvia, o que virou aquele milho que seria nosso almoço! Comida de peixe podre.

Moraes se contorcia no chão. Ao tentar proteger-se dos golpes, sentiu algo cutucando sua cintura. A peixeira! Sim, a arma poderia acabar com seu martírio, livrá-lo para sempre daquele ser abjeto. Moraes nunca matara ninguém, sempre fora um homem pacífico, tanto é que, até aquele dia, aguentara as injúrias de Osmar. Mas dessa vez era demais, não suportaria tamanha humilhação. Buscando sua última gota de energia, retirou a peixeira e, erguendo-se, ficou pronto a ferir o genro. Esforço vão. Osmar havia acabado de bater a porta e ir para o serviço. Empunhando a faca, Moraes cambaleia e também sai atrás dele.

***

A manhã estava clara, nem sinal de nuvens no céu. O sol voltara a lançar seus raios sobre a terra, mas agora uma ligeira aragem atenuava o calor. A chuva trouxera de volta o verde característico da mata. Tudo recendia a vida.

O rio amanhecera barrento. O tronco de árvore, parcialmente submerso, servia de porto para uma garça, cujas penas brancas também estavam amarronzadas. Faminto, sem conseguir encontrar nenhum peixe naquela água suja, o pássaro bateu as asas e partiu.

No céu, pequenas manchas negras maculavam o azul. Dessa vez, não eram as nuvens que voltavam. Eram os urubus. Após perceberem comida na beira da mata, preparavam-se para pousar e se banquetear.

Debaixo do angico, o corpo gelado e duro do veado se oferecia para saciar a fome daquelas criaturas. Elas, no entanto, não arriscavam uma aproximação. Ao lado do animal morto, Moraes, brandindo sua espada, afugentava os inimigos. Acariciava a cabeça de seu Pátroclo e ria da estupidez das aves.

“Bichos tolos. Não enxergam que você é somente um filhote e tem toda a vida pela frente. Mas estou aqui para proteger sua mocidade. Vai, levanta daí, meu filho, e mostra para eles que está vivo e forte. Levanta e me acompanha pela verde mata, pelo caminho só conhecido por nós, que bebemos a água da fonte da juventude.”

*eduardosigrist@gmail.com