domingo, 6 de fevereiro de 2011

Holofotes











Cristiano Silva Rato*

As estrelas estremeceram quando a avalanche de pobres, sem conotações, passou a descê-las e seus valores começaram a deturpar-se em meio à solidão das notas recolhidas. Seus valores já não existem mais. Fodas. A cidade é o próprio artifício, indigestão recheada de restos. De tudo. Nuvens cinzas em um outubro de um ano marcado pela falta de sensatez. Humanidade. Estúpida. Perdida nas porras dos números. “Esclarecidos” da modernidade, esses moderninhos filhinhos de papaizinhos “esclarecidos”. Nem sei se devo tomar partido. Às vezes me recubro de pensamentos fascistas, quero persegui-los e demonstrá-los em gráficos como animais em extinção. Quantos por cento? A quantidade necessária. Cientificamente inferiores, não é? Não são inteligentes. Será que têm alma? Matar todos.

Esta noite os sons se ruíram. Me atirei como uma foice russa na direção de todos e queria acariciar, dolorosamente, seus fios de cabelos bem cortados e aparados. Suas roupas estetica-mente, perfeita-mente fora dos eixos. Toda revolta simulada me dá nojo. Subi como louco em uma das mesas do Mc Donald’s e, em gotas, saiu a, vodka, b, o cachorro-quente do tio da esquina com bastante maionese e ketchup, c, o álcool etílico, que queimou minhas cordas vocais, por isso, acho, não urrei feito um motor de caminhão no meio da madrugada. Provei em segundos aquele gosto azedo do vômito no salão e nos corpos purificados que estavam lá.

Interferência – Antes do fogo queimar, vaguei feito o desespero, haviam olhos ardilosos/ porco asqueroso/ o ar sempre fica pútrido/ algo neles me arrepia.

Passo vagamente. Um felino, rajado, cambaleando por todos os lados, dançando feito um chinês americanizado dos filmes da Sessão da Tarde. A metáfora não é uma metáfora. Os sentidos estão menosprezados na massa ardilosa assentada toscamente em uma parede de um quarto de motel na Guaicurus com São Paulo. Todos os cômodos deste hospício são resquícios de pessoas perdidas nas esquinas mal iluminadas, cheias de carros novos e sem-tetos. Virei a lágrima na boca e reconfortei a mente com mais um pouco. Chega.

Estamos agora parados em frente à máquina. Ela nos olha, vigia-nos, foi programada para isso. Logo chegaram os guardas, com seus olhos esfumaçados enxergando microcoisas, treinados, socando e atirando, dissimulando, nos campos de concentração. A raiva sob os olhos. Necessidade e desejo de tocar algo real. Senti uma forte pressão nos calcanhares, como se fosse uma batida entre caminhões frigoríficos. Meu peito ardeu com a mão, mas os dentes resistiram ao impacto com o chão. Olhei debochadamente para todos e sorri.

*cristpsilva@gmail.com