domingo, 6 de fevereiro de 2011

O cavalo que era burro











Alessandro Faleiro Marques*

Aquele quadrúpede ali, de boca requebrante a moer o capim. Quem o vê nem imagina o que o bicho já fez pelo bairro, talvez pela cidade. Não sabe, mas hoje é o último expediente dele (e do dono) no serviço de entrega de uma loja de materiais de construção. Enfim saiu a aposentadoria. Não sabe.

Sempre pronto, do seu jeito, acha que ainda hoje carregará mais algum peso no veículo atrelado ao dorso. Meio cansado, meio disponível, rói o milho que acaba de ganhar do velho homem, com quem trabalhou uns bons anos. Parece estranhar o quitute raro, afinal não estava muito acostumado com algo além do capim cortado nos lotes vagos pelo caminho, cada vez mais raros.

Inverbalizado, sente que o dono está estranho, falando mais baixo, bem diferente dos roucos gritos pré-chicote, outrora mais vigorosos. Ganha um inédito afago de dois homens, os mesmos de sempre, que costumam colocar na carroça aquilo que ele deve carregar. Também, hoje, conversam leve.

O mamífero orelhudo, meio censurado pelas viseiras, viu as ruas dali se alterarem. Aos poucos, foram sumindo os atoleiros e alisando-se o piso. O antigo silêncio, algumas vezes quebrado por algum moleque, cantar de galo ou martelar, foi dando lugar ao ruir de motores, depois às sirenes e até aos estalares estranhos aos seus ouvidos. Estes últimos, notava sem muita pretensão, eram quase sempre seguidos de gritos, de mais roncos mecânicos e, logo em seguida, de apitos de emergência. Nunca escondeu de ninguém ser os estampidos cheirando a enxofre os mais a incomodá-lo, sendo responsáveis pelos quase acidentes e açoites mais nervosos do velho que agora o dá outra espiga.

Ele não sabe, mas deveria ganhar uma estátua ou pelo menos uma placa lá na pracinha, cuja grama lhe já foi mais abundante. É o último dia. Ninguém reconhece, mas o cavalo é quem ajudou a construir a comunidade. As viseiras o impedem de entender isso. Coitado!

* faleimar@hotmail.com