domingo, 6 de fevereiro de 2011

O professor de piano: o real e o absurdo em narrativas breves e vastas











Eduardo Sabino*

O livro O professor de piano, lançamento da 7 Letras do autor Rinaldo de Fernandes, apresenta narrativas de estrutura peculiar, em diálogo profundo com o mundo contemporâneo, compostas minuciosamente para impactar os leitores, ainda os mais prevenidos.

Rinaldo expõe-se em uma linguagem acadêmica, precisa, enxuta, pontuada por muitos verbos que conferem grande agilidade ao texto. Basta uma leitura em voz alta para conferir o cuidado com a palavra, a sonoridade fluindo sem entraves. Não há pretensão de inovação linguística, mas no universo temático e na estrutura narrativa o autor alça voos de mestre.

Os onze contos do livro têm em comum a representação da violência nos espaços público e privado, num realismo estético que flerta com o fantástico. São personagens fadados ao fracasso em suas relações com o semelhante e com o mundo, perdendo-se, frequentemente, em ações e circunstâncias inusitadas.

A violência em Rinaldo de Fernandes se aproxima da “paixão pelo real”, conceito muito trabalhado hoje por alguns filósofos, como o esloveno Zizek. Nas últimas décadas, a arte, especialmente o cinema, tem buscado, nas obras realistas, uma certa autenticidade perdida no mundo exterior, o real em sua forma mais bruta e chocante.

Algo parecido com alguns comportamentos frequentes, como o do sujeito que corta os pulsos para conferir se há sangue nas veias, a literatura de Rinaldo investiga a natureza humana pelo choque das desigualdades psicológicas e sociais, trazendo ao leitor a experiência do hiperreal. O que se tem, no final das contas, é um universo paralelo, uma ficção, para usar as palavras de Zizek, “mais real que a própria realidade”.

As melhores narrativas do livro começam pela confusão mental dos personagens, arrasados de antemão, e ganham com isso o ritmo necessário para contar-se uma história intensa. Os elementos com os quais o leitor desbravará o texto são distribuídos com cautela, às vezes nas entrelinhas, nem sempre de forma linear.

É assim em “Beleza”, o conto de abertura. Um homem miserável adentra uma cidade litorânea montado em uma égua roubada (nomeada ironicamente de Beleza). A cena apresenta ao leitor a chegada de um pobre-diabo no mundo sedutor e hostil (mas real) de boa parte das narrativas do livro. No galope da égua, o leitor viaja nas reminiscências de Ismael, e vai descobrindo os motivos da sua fuga conforme monta um mosaico psicológico perturbador do personagem. Ao final do conto, Ismael responde às mazelas vividas por ele com um gesto brutal contra um indivíduo bem sucedido.

“O professor de piano”, a pequena obra-prima do livro, também começa com um fato inusitado, um professor rouba o carro de seu aluno e se manda estrada afora, numa espécie de fuga alucinante, inspirado por um plano oculto ao leitor (o principal combustível de interesse do texto). Somente quando o atormentado músico perde o carro, pifado na estrada, e toma carona em um ônibus até a cidade mais próxima, embarcamos no fluxo de consciência que, como em “Beleza”, montará o perfil do narrador-personagem e nos contará os motivos de seu comportamento insano. Aqui Rinaldo revela o domínio de uma técnica difícil: o texto é composto para um desvio radical na narrativa. A peripécia se dá no último parágrafo do conto e nos obriga a retomar pontos aparentemente sem importância: o carro abandonado na estrada e até “o barro nos pneus”. O conto nos conduz para um possível resgate de um piano vendido por dificuldade financeira, mas termina com a abertura de um novo e terrível horizonte. O desvio inverte os rumos do conto e a história continua, pela lacuna sugestiva, após o ponto final.

Em “Ilhado”, temos talvez a perspectiva narrativa mais sofisticada do livro. O narrador observa com tranquilidade os entornos de um restaurante à beira-mar. O olhar, distante, passeia pelas palmeiras, mesas, funcionários e foca, enfim, um casal à margem. O homem veio do mar para encontrar a mulher na praia, prendeu o barco na margem e deixou seu par de tênis amarelos na areia. No segundo movimento do conto, um mendigo invade a paisagem romântica e, às escondidas, apossa-se do tênis do barqueiro. O mendigo se refugia no último andar de um prédio abandonado e, diante da revolta do homem furtado, o narrador intervém, apontando o esconderijo do ladrão. O homem vai até o mendigo, e, diante dos espectadores do restaurante, dá-lhe uma surra, quase o lançando pelo terraço do edifício. O ritmo aumenta ainda mais, quando, na terceira sequência da narrativa, o mendigo aparece munido de um facão. Daí o narrador omisso, como bem observou Regina Zilberman no posfácio, passa de observador a participante direto. Percebendo ser um alvo por ter delatado o pedinte, ele foge de barco com o casal para um desfecho sangrento em alto-mar. A estrutura lembra a do filme Janela Indiscreta, do cineasta Alfred Hitchcock. No longa, um fotógrafo está ilhado num quarto de apartamento, a perna engessada após um acidente de trabalho. A única diversão dele é observar, pela janela do quarto, as cenas da vida privada. Quando começa a desconfiar de um suposto crime cometido pelo vizinho (no filme, um assassinato), o narrador, como o de Rinaldo, decide interferir na paisagem.

A ultraviolência encontra sua forma mais dura em “Você não quis um poeta”. O conto apresenta uma figura ambígua: sensível e cruel. Um poeta que, diante de uma rejeição, estoura os miolos da musa inspiradora. A ironia do conto reside na resposta realista à paixão não correspondida. O poeta também assassina, no gesto brutal, o autosofrimento do romantismo. Como diria Morpheu ao companheiro recém liberto das ilusões da Matrix, “Bem-vindo ao deserto do real”.

Em “O cavalo”, “Onde está o agente”, “Alucinação”, “O caçador” e “O besouro”, a narrativa se entrega de vez ao insólito, com referências aos labirintos do surrealismo, nos três primeiros, e à alegoria política, nos dois últimos. Em “Alucinação”, Rinaldo desloca, pela única vez na coletânea, a narrativa para a terceira pessoa. A escolha diz muito sobre o estado psicológico da personagem, Lúcia, que talvez não estaria em condições de narrar coisa alguma. De início, Lúcia se encontra em um apartamento e observa uma praça pela janela do quarto (novamente uma janela para o leitor, tão essencial na ficção de Rinaldo). Enquanto isso, o marido Carlos, às suas costas, fala sobre uma promoção no supermercado e sobre coisas corriqueiras do dia a dia. Enquanto isso ela vê um homem com óculos escuros descer de um fusca e beijar uma moça. Quando o homem tira os óculos, o susto, o rosto é o de Carlos, que não está mais consigo. No quarto, na verdade, aparece um velho, o dono do apartamento, assustado por ver uma estranha ali. Quando, desesperada, Lúcia deixa o prédio, Carlos não se encontra na praça, mas na janela pela qual ela observava a rua. O conto trabalha com muita competência a desconstrução da narrativa e da lógica do olhar.

As vertentes do realismo fantástico revigorado e da ultraviolência urbana definem a linha mestra da obra. A recorrência ao insólito talvez seja um instrumento para captar o irrealismo do mundo concreto, uma realidade sem centro, deserta, construída nas bases das imagens midiáticas e publicitárias. Os grandes artistas contemporâneos talvez saibam, como só eles, que só o absurdo dá conta do atual estado das coisas. Mas longe de propor soluções discursivas alheias à arte, Rinaldo cria um universo ficcional amplo, sem moralismos, sempre intenso e surpreendente.

O professor de piano tem tudo para agradar os amantes da narrativa breve. Trata-se de um trabalho primoroso de um dos nossos maiores contistas em atividade.

 

Título: O professor de piano
Autor: Rinaldo de Fernandes
Editora 7 Letras (2010)

*eduardosabino@caoseletras.com