domingo, 6 de fevereiro de 2011

Pequenos milagres sem registro











Fernando Portela*

Para Martha Gallego Thomaz

Alguns meses antes, eu nem teria me concentrado e posto a mão sobre a cabeça da criança, pedindo a Deus que a fizesse retornar à vida. Não ousaria. Mas a expressão da menina, que devia ter uns oito anos e parecia muito mal, me comoveu. Esquálida, largada no catre, revirava os olhos como se ensaiasse a própria morte. O pai, um desempregado, chorava baixo; a mãe e a avó, muito alto – a avó me pareceu histérica; os irmãos, todos mais velhos do que a menina, brincavam de alguma coisa dentro do barraco imundo.

Após o meu toque, a menina fechou os olhos (“morreu”, eu imaginei), ficou assim uns dez minutos, aspirando pesadamente, depois acalmou a respiração, os olhos se abriram e ela, até com uma certa agilidade, se sentou na cama. Olhou para mim e para os pais, sorriu e disse: “estou boa”.

Confesso: foi uma grande surpresa, tanto para mim quanto para os pais da criança, vizinhos e amigos. Era o terceiro milagre. Eu conseguira reviver um velhinho, um mês antes, quando ainda andava pelo Paraná. Ele se engasgara com um pedaço de bife, coitado, talvez pela ansiedade com que engoliu a comida, coisa rara. Estava roxo e já não respirava, quando cheguei. Levantei-lhe meio corpo, no seu colchão fedido, bati-lhe nas costas, ele cuspiu longe o pedaço de carne, teve um ataque de tosse, e voltou, reclamando. “Cadê meu prato? Cadê meu prato?” Eu e os circundantes não pudemos deixar de rir.

E há três dias, nessa mesma estrada que dá acesso aqui, à favela, fiz levantar um sujeito destroçado, dentro de um fusca, que uma jamanta havia jogado longe e nem parara para conferir. A mãe dele me pediu intercessão.

“Seu Thomaz”, ela disse, agarrando-me pelo braço, “eu já soube da sua fama, sei que o senhor cura os doentes e faz com que os mortos voltem à vida. Meu filho não se mexe dentro do carro dele, destruído lá na estrada. A mulher dele está grávida do segundo neném, é uma moça doente, e eu não tenho como sustentá-los. Eu sei que ele saiu bêbado com o carro, mas é um bom rapaz e merece uma chance.”

“Pode deixar, dona, se Deus quiser ele se salva.”

“Mas é o senhor quem tem de fazer a intermediação.”

O rapaz parecia, realmente, um monte de carne sangrenta, preso às ferragens do fusca. Me concentrei e pedi. “Jesus, quantas vezes o senhor não fez isso durante sua passagem pela Terra? Atenda aquela mãe e faça este rapaz voltar.”

De repente, o que era carne sangrenta virou apenas ferimentos profundos, o rapaz se mexeu e conseguiu se livrar dos ferros. As pessoas que estavam perto, inclusive o guarda rodoviário que já chamara a ambulância, fizeram o sinal da cruz. “Quem é você?”, o guarda me perguntou, a expressão atemorizada. “Um andarilho”, respondi. “Meu nome é Thomaz.”

Agora, foi a vez de curar a menina quase morta na favela. A avó perturbada ajoelhou-se aos meus pés e agradeceu, soluçando.

“O senhor é o nosso milagreiro!”, ela gritava, e eu me senti contrafeito, pois as pessoas começaram a me tocar e a pedir graças. Duas mocinhas queriam casar, um rapaz implorou apenas um emprego, “qualquer coisa”.

“Eu preciso ser forte, Senhor, para suportar essa prova”, disse a mim mesmo, sentindo medo. “Sou imperfeito demais para imaginar que posso, de fato, ser veículo de um poder divino.”

Aos poucos, as pessoas foram se afastando, ainda reverentes, e eu fui obrigado a me livrar, com um empurrão, de um sujeito seboso que me veio pedir reza para ganhar uma empreitada. “Sai de mim, cara!”, foi apenas o que disse, mas o homem, com um hálito pesado de bebida, afastou-se meio assustado.

Talvez eu metesse medo, mesmo, por causa da minha aparência. Precisava tomar um banho, conseguir umas roupas melhores. O policial rodoviário só deixou que eu chegasse próximo do fusca acidentado por causa da pressão dos populares. “Que é que esse mendigo vai fazer aqui? O que ele vai mudar no cadáver?”, perguntava o policial, quase rindo.

Do lado de fora do barraco, onde deixei a menina ressuscitada conversando com os pais, quedavam-se os meus quatro seguidores: Tomilho, Anacleto, Ramiro e a moça Vivinha. Eu não quis que eles andassem atrás de mim, chamando-me de mestre, mas eram andarilhos como eu, não tinham destino, esperança ou família. E aceitavam rezar e rezar, que era só o que eu pedia que fizessem, para acabar com o sofrimento das pessoas.

Quem anda pelas estradas sabe que só existe sofrimento, dos postos de gasolina aos pequenos sítios, passando pelas cidadezinhas: todo mundo precisa de médico, os adolescentes ainda não acreditam em aids, bandidos e vítimas de bandidos são uma mesma família, interligados por ignorância e carência. Até os religiosos são mais sofridos à beira dessas estradas do nosso país.

“Vivinha”, eu puxei o assunto, uma vez mais, para a moça tão bonita, e tão meiga, que começara a nos seguir na semana passada, “você não tem de vir conosco. Você pode não se sentir bem. Nós somos respeitadores, disso não tenha dúvida, mas somos homens e não temos onde pernoitar, nem para onde ir…”

“Eu vou com vocês”, respondeu com um sorriso. Ela parecia muito segura das suas opções, sempre.

“Tá bom, então vamos seguir”, eu disse, fazendo um gesto com a cabeça para que retomássemos o caminho. Havia dias em que andávamos mais de vinte quilômetros sem parar. Chegava uma hora, na verdade, em que as pernas se mexiam automaticamente, e nos entregávamos aos nossos sonhos. Sequer ouvíamos o ronco dos motores nas estradas. Eu queria que os outros não sofressem, mas Tomilho só pensava na Argentina. “Um dia vou chegar lá, e ver aquelas vacas muito gordas, com aqueles peitos enormes. Um argentino vai-me deixar mamar diretamente naqueles peitos.” Anacleto nos dizia que o sonho dele era esquecer o passado, mas não sabíamos nada dele, nem eu perguntei. E os outros dois, o Ramiro e a Vivinha, nunca revelaram qualquer detalhe das suas vidas. Eu temia um pouco pela moça. Anos atrás, logo que comecei a andar pelas estradas, acercou-se de mim uma outra mulher, mais velha e não tão meiga como a Vivinha, mas com uma grande disposição de ajudar os outros, sobretudo os bichos que sobreviviam aos atropelamentos. Andamos, juntos, durante mais de três meses. Dormimos lado a lado, mas nem eu nem ela, que dizia chamar-se Ercília, tocamos um no outro. Naquela época eu já me considerava um monge moderno, e já havia tomado minha profissão de fé. A castidade fazia parte dela.

Um dia, lá íamos nós, eu na frente e Ercília a uns vinte metros, acompanhada de mais de dez cachorros apaixonados, quando duas picapes muito grandes frearam, cantando pneus, bem adiante de nós, no acostamento. Homens jovens e bem vestidos pularam para fora dos dois carros. Queriam Ercília. Nem me assustei. Eu já havia visto de tudo naquela vida. Vira homens ricos, em carros importados, que estupravam andarilhas. Caminhoneiros que nos torturavam só para se divertir. Quando acontece algo assim – como aqueles rapazes pulando das picapes – a gente sempre oferece a Deus nossa hora.

“É ela, pai!”, gritou um dos rapazes, apontando Ercília pra um homem muito alto, de cabelos completamente brancos. Os outros cercaram a moça, que tentou fugir, fazendo com que um automóvel, desviando-se dela, quase provocasse um acidente.

“Pegue! Pegue!”, gritava um rapaz para outro.

“Minha filhinha!”, o homem mais velho se aproximou, chorando.

Um dos irmãos de Ercília, que não tinha este nome, e que de vez em quando fugia da família para andar pelas estradas, ainda tentou me bater, como se eu tivesse algo a ver com as opções dela. Ela gritou que eu era apenas um amigo, e o pai se aproximou de mim, ainda choroso, e agradeceu por ter tomado conta da “minha menina”.

“Sua filha é uma pessoa muito boa, ajudou todo mundo na estrada”, eu depus, sereno.

Ercília chorou muito ao se despedir de mim, e acabou levando um dos cães, o mais feio e doente, junto com a família.

Eu temia que Vivinha fosse um caso idêntico e dobrei minha vigilância sobre os outros, para que não lhe destinassem nenhuma iniciativa sexual. Cheguei a conversar com eles sobre o assunto, e eles reiteraram fidelidade e obediência.

“Por mais que o senhor não queira”, disse-me Ramiro, “o senhor é o nosso mestre e nós vamos fazer tudo o que o senhor mandar.”

“Será que, um dia, nós também vamos poder curar os doentes, e reviver os mortos, como o senhor?”, quis saber Tomilho.

“Não se preocupem com nada disso”, eu lhes disse, “dentro de pouco tempo iremos para o sacrifício, vocês e eu.”

“Como, mestre?”, Anacleto assustou-se.

“Vocês acreditam que os verdadeiros donos deste mundo, os líderes religiosos, a polícia, os políticos e os bandidos vão permitir que um andarilho, ou um mendigo, e seus amigos, consigam produzir milagres?”

“Mas o senhor começou a fazer isso…”, ponderou Tomilho.

“Mas não tenho certeza se vou continuar… Não seria lógico, não há clima para fenômenos, ninguém quer saber de milagres e só os pobres acreditam neles. E mesmo os pobres, hoje em dia, querem mais é morrer. Cumprir a missão neste planeta está cada vez mais difícil. E nós somos privilegiados, somos andarilhos, vivemos para nós mesmos. O que vocês fariam se fossem o pai daquela família, a da menina quase morta, e vissem seus filhos abandonados, não por ela, mas pela sociedade que teria a obrigação de cuidar de todos? Diga-me, Tomilho: estou errado?”

Caía uma noite linda na estrada, um céu repleto de estrelas graúdas, como só aparecem nos céus do interior, ainda convivendo com um sol vermelho que se deitava por trás das montanhas de uma reserva de mata atlântica.

“Está errado, mestre. O pai desesperado contou com o senhor. Nós também contamos com o senhor. O nosso maior privilégio é estar aqui, agora. Não importa que ninguém ligue para os milagres. Eles, em si, valem a pena. Aliviam dores, fazem sorrir.”

Andamos quase três quilômetros, em silêncio, para que eu respondesse. A noite havia chegado completamente.

“Talvez você tenha razão, Tomilho.”

Todos sorriram, discretos, mas Vivinha soltou risadas de criança, deu uns saltos, e a sua alegria iluminou o breu da estrada, como se ela fosse uma pequena lua.

Do livro O homem dentro de um cão, Editora Terceiro Nome (São Paulo, 2007).

*fatportel@gmail.com