domingo, 6 de fevereiro de 2011

Pires











Carla Giffoni*

Ele é um pires. Um pires que não faz parte de nenhum conjunto. Não tem como família nenhum bule de café, nenhuma xícara ou açucareiro. Não é sequer par de um pequeno bule de leite. Não tem ninguém para lhe fazer companhia.

É um pires bonito. Não excepcional. Isso não. Mas é um simpático pires que está ali na feira hippie, dessas que vendem quinquilharias antigas.

Um pires solitário com ar de quem não foi criado na pós-pós-mudernidade. Nasceu num mundo em que o conceito de designer sequer tinha sido pensado. Um mundo artesanal em que o bonito era bonito e pronto. A feiúra não era nunca considerada como sendo bela, e as pessoas carregavam certezas absolutas que mudavam instantaneamente.

Branco, com pequenos detalhes dourados, esses aspectos lhe dão um jeito de nobreza decadente. Não é um pires feminino, desses que as mulheres da elite econômica usam ao se reunirem com as amigas para tomar chá e falar das últimas modas na Europa enquanto a guerra campeia nas ruas.

Não, ele certamente não é um pires que se sirva para esses fins.

Quem sabe com seus ares de aristocrata empobrecido não tenha sido par de um conjunto cujo dono fosse um grande intelectual? São conjecturas que ninguém tem certeza se são verdades ou mentiras. Mas olhar aquele pires, tristemente solitário, faz qualquer pessoa levantar suas suspeitas. Afinal o que aconteceram aos seus pares?

Quem foi seu dono?

De onde vem?

Para onde vai?

Perguntas que fazem parte da natureza do homem.

O pires não dá respostas. Mas é possível imaginar sua existência solitária, seu jeitão encalhado a olhar quem passa com a certeza de que dificilmente será comprado.

Se ainda fosse um prato!

Mas não. É apenas um simples pires com um passado desmemoriado.

Ninguém falará: Getúlio Vargas bebeu nesse pires. Ou, princesa Isabel comeu nesse pires.

Triste é a sina de quem é pires na vida.

Quem nasceu para ser par, mas a existência lhe fez uno.

Quem poderá dizer seu destino?

Será vendido?

Ficará encalhado?

Ou algum gato mais desavisado passará por ali, esbarrando nele e levando-o ao chão?

Mil pedaços quebrados. Fragmentos de uma história que ninguém contou se perdendo entre os paralelepípedos da rua.

*Carla Giffoni tem 16 anos de experiência como jornalista atuando nas Editorias de Política, Polícia, Cultura e Cidades, revistas, sites, jornais e emissora de TV. Pós-graduada em Jornalismo Cultural e graduada em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo. Aluna do curso de Letras/Formação de Escritor da PUC-RJ. Contato: carlagiffoni@yahoo.com.br.