domingo, 6 de fevereiro de 2011

Súmula sobre poesia de vanguarda, poesia concreta e poema-processo

Leitura de Flash, de Oscar Kellner Neto












Márcio Almeida*

Ao longo de 45 anos de luterária pelas vanguardas brasileiras, como poeta e como crítico, foi possível concluir que a pífia recepção às experiências marcadas pela ousadia, a ruptura, a inventiva, pelo radical estranhamento deu-se, entre outros fatores, em razão da falta de uma pedagogia poética que esclarecesse, no sentido adorniano, a razão de ser do poema anticonvencional, aquele que antes de tudo superou os cânones acadêmicos, a teoria estabelecida historicamente, as tradições dos estilos de época, e se impôs como produto de transformações culturais, tecnológicas, poéticas e teóricas em relação às linguagens das artes.

Ao sugerir fosse a poesia concreta uma “arte popular”, por utilizar meios de comunicação de massa, Décio Pignatari, por exemplo, estaria convicto na época de que a recepção popular seria tão eficiente quanto a concedida a meios massivos como a televisão e o rádio, o que, a bem da verdade, só fez por ampliar o dissídio entre uma arte erudita, como era o caso dos concretos, da popularesca telenovela. Do mesmo modo, ao propor “espantar pela radicalidade”, difundir que “o poema-processo não é poesia”, “exclui a informação estética”, “é uma intervenção semiológica” e subentende a necessidade de um “contra-estilo”, o movimento do poema-processo lograria êxito confinado a autores que aderiram, em diversas regiões do País, mas o povo se manteria à margem de uma recepção convincente ou mesmo em nível de consumo.

Em um país cuja população ainda tem 20% de analfabetos, no qual 60% dessa mesma população não leem, e, quando leem, não têm capacidade de discernimento de conteúdos, onde até o preço do livro é forte concorrente contra a criação do hábito de leitura, mormente de poesia, e a própria academia, por interesses especificamente acadêmicos, tem a propensão de manter a produção de vanguarda em segundo plano, entre outros entraves, convencer um determinado leitorado a vler e consumir vanguarda é um desafio merecedor inclusive de estudo.

Não obstante o crescimento anual de universitários prevalece no Brasil a leitura do gosto baseado na Antiguidade Clássica com seus quadros de cavalete, seus conjuntos de câmera barrococós, seus incensos e pomânderes beletristas e midiáticos, seus strip-teases subjetivos, românticos, parnasianos e simbolistas e, quando atrevidos, dados a um realismo cheio de neuras oriundas da própria convenção social via família caracterizada pelo politicamente correto. Ou, no viés paralelo, algumas poucas admissões mais ousadas provenientes de poetas oriundos da cultura popular, do folclore ou da linha vagina-frustrada, da metafísica de fim-de-tarde em shopping center escópico, da autoajuda new age, do letramento musical de um roquinho cocô que espraia no rap inclusivo, de uma marginália não raro inconsequente, e mesmo das experiências mais sérias que sacudiram a pasmaceira, o besteirol, a mesmice de um país dado a convenções, cujos líderes muito fizeram para digladiar entre si por valores hoje insustentáveis como a leveza do ser.

O Brasil é um país onde não se assimilou que vanguarda é algo que se supera no dia seguinte. Como um tsunami que obriga a reconstrução do ser pelo próprio ser a partir do quase nada, não fossem as lições do passado servirem de exemplo para não se repetir o que, se funcionou, não faz mais sentido. Não depois de Walter Benjamin, do computador. E da globalização.

No cotidiano da universidade da vida – botecos, puteiros, feiras, mercados, supermercados, campos de futebol, associações comunitárias, festas domésticas, entre muitos outros loci, a simples menção de poesia de vanguarda leva à entropia, à aporia, ao constrangimento e à indiferença pelo que é assumido, desde a origem, como vanguarda, o novo produzido pelo novo.

Um poema de vanguarda, neste contexto, é um ET cultural, pior, perfeitamente dispensável do conhecimento popular. Não faz falta. E, na maioria das vezes, nem sentido. Ledo Ivo engano o de Oswald de Andrade, quando até com certo otimismo anunciou: “O povo ainda vai comer do meu biscoito fino.” Talvez o mestre tenha se esquecido de que o povo prefere mesmo é broa. E de fubá. Para piorar, é irrefutável que uma parte dos brasileiros ainda passa fome, e que o poema realista cobrou engajamento político que poucos assumiram o compromisso de produzir. O populacho um dia ainda vai consumir poesia de vanguarda? Ou a questão vai, de novo, bater na esparrela da discussão inócua entre elitista X popular?

Ao povão é desejável consumir somente quadrinhas, trovinhas, sonetos, ditados, provérbios, repentes, música sertanoja, reuniões brahmicas zecapagodinhescas, receitas de amor à moda Vinicius de Moraes, baladas robertocarlianas nas baladas caretas das emoções banais, ou, quando muito, no ápice da “tolerância”, algumas canções-recados SCANKaradas, incursões progressivas de um U-2, as top-musics de celular tipo Lady Gaga e Amy Winehouse, revivals de gostos em cãs/ções com Paul McCartney e Lou Reed, as declarações patriótico-jocosas de Lula, o reality show ao vivo do confronto bélico entre bandidos X polícia, as alocuções cínicas dos políticos fichas-OMO e imundas, os discursos de padres pré-pedófilos e pastores altamente faturantes, as loas de réquiem por balas perdidas, as utopias da fé dos classificados de "graças alcançadas”, a leitura must da gente-ibope de Caras, as cartas-cobrança de bancos, os esperançosos cartões de loteria?

O fato é que houve mesmo dissídio entre povo e poesia. Qualquer pessoa pode fazer o test drive poético: basta perguntar a alguém se ele(ela) sabe de cor algum poema. O povão sempre tem na ponta da língua um poemeto qualquer que lhe diz respeito por afinidade que não foge à regra: ou porque o teor do poema é sôfrego, incluindo a lírica de corno, ou é humorístico, incluindo a veia piadística do brasileiro. Se um ou outro, não importa, o que interessa constatar publicamente tem dois vieses: 1º - o povo gosta de poesia desde que o poema fale a sua linguagem e seja por ele identificado como uma arte capaz de sublimar o trágico e de enaltecer a bobagem. Isso é típico da índole brasileira; 2º - o povo desconhece por completo o que seja poesia de vanguarda, vanguarda, experimentalismo e, portanto, não dá valor algum àquilo que nem sabe se existe. Em consequência, o óbvio: quem lê poesia são poetas, e, no limite, especialistas que de certa forma vivem disso, como críticos, resenhistas e acadêmicos.

O povo somente toma conhecimento de situações poéticas de vanguarda quando, muito esporadicamente, se vê envolvido por um happening, mais comum há décadas, uma performance de rua, ou um acontecimento inusitado que ele vê en passant sobretudo em cidade grande.

Nem mesmo agora que as vanguardas históricas e suas sucedâneas “da hora” chamam mais a atenção mesmo de gente up to date – salvo se o mesmo público universitário ou de uma classe média que geralmente se entedia com tudo em tempo veloz – parece ser injustificável ou desnecessário falar em vanguarda. Fica, contudo, o hiato, o buraco negro entre uma produção de vanguarda e uma recepção retrógrada, ou, por baixo, lenta e nem sempre antropofagicamente deglutida, como queriam Oswald de Andrade e outros.

Numa sociedade líquida exposta às contradições de crises permanentes, tudo é vanguarda: o day after foi amanhã. O 11 de setembro foi só um ensaio. A guerrilha oriunda das favelas é apenas a cota diária da neura entre a incompetência e o abuso, a provocação e o enfrentamento. A Riolência (J. Simão) é só um cartão-postal do cenário megalopolitano prestes a se generalizar no mundo. O bulling é o atrevimento infanto-aborrescente para treinar a violência “de menor”. O Oriente Médio já sofreu demais – e fez sofrer muito – para só brincar de fazer rojões nucleares. “A questão, Thomas Friedman dixit, não é o que mudou, mas reconhecer o que não mudou.” Vanguarda será o que exterminará mais rápido? O que transferirá a História para outro planeta? O que garantirá a tecno-imortalidade? O já desgastado contato de 3º grau? O cara a cara com Deus ao vivo e a cores?

Poesia com(o) pressuposto de vanguarda

O novo, na vanguarda, é a ruptura com o existente e renovação dos processos que tornam as artes contemporâneas de si mesmas. Vanguarda é projeto que rompe com a tradição e afirma o novo com o novo. Novo = experimental – predomínio de processos técnicos de criação contra os parâmetros cristalizados da subjetividade e da natureza psicológica do artista/poeta. Vanguarda pressupõe superar o status quo do existente na criação poética ou a ordem estabelecida. Vanguarda, historicamente, se estabeleceu com a ideia de movimento, de produção numa lógica work in progress. Vanguarda não se permite favorecimento dos poderes oficiais. Vanguarda é sobretudo urbana. Vanguardas históricas transformaram-se em aporias (becos sem saída), anacronismo, sem condições de manterem-se vanguardas ou de superar a mercantilização estética e o kitsch de massa, quando elas tornaram-se “expressão necessária da alienação na sociedade capitalista avançada” (Adorno). Vanguarda subentende em condição sine qua non fazer crítica. Vanguarda institui uma situação contraditória: ao fazer a ruptura com a tradição, instaura a tradição do novo (H. Rosenberg), que no encadeamento da continuidade sucedânea dos movimentos permitiu fazer-se por semelhanças, oposições e conflitos. Vanguarda pressupõe utilização de novos materiais de produção, novos meios de recepção, novas técnicas de leitura e praticar a crítica do seu próprio processo de produção. Vanguarda tem a ver com a reflexão de Ferreira Gullar: “A necessidade de transformação é uma exigência radical para quem vive numa sociedade dominada pela miséria e quando sabe que essa miséria é produto de estruturas arcaicas. Grosso modo, somos o passado dos países desenvolvidos e eles são o espelho de nosso futuro.” Vanguarda, na acepção brasileira, tem a ver com a “estética do fragmento, as intenções antilíricas e um certo gosto pela desarticulação do poema” (A. Cândido). E caracteriza-se também pela “supressão dos nexos sintáticos e consequente descontinuidade do discurso: substituição da ordem temporal, não linear; substituição da metáfora pela paranomásia” (idem). Vanguarda tem por problema seu próprio conflito de criação: ela se supera, ou então não é vanguarda: “O paradoxo da poesia moderna (do Modernismo ao Concretismo) está em que a sua importância independe e transcende de seu eventual sucesso estético; ela criou uma situação literária depois da qual a poesia nunca mais seria a mesma” (W. Martins). E nunca mais foi.

Poesia concreta

Tem duas referências fundamentais: Teoria da poesia concreta (de Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari) e Noigandres 5.

A poesia concreta surge como proposta para radicalizar a construção proveniente das linguagens geométricas. Elimina o intuicionismo, a transcendência, impõe-se com a racionalidade estética, almeja superar o atraso tecnológico do subdesenvolvimento nacional nos anos 50. Se comparada, O plano-piloto da poesia concreta tem a ver com o plano-piloto da construção de Brasília: “o esforço de produzir uma obra de arte total, ultramoderna, funcional, artificial, com o rigor matemático, valorização do espaço.”

“O modelo instaurado pelos poetas concretos pressupõe uma produção que trabalhe com as seguintes questões: a consciência utilitária; a abertura da poesia à cultura dos meios de comunicação; a mudança do espaço de fruição do poema; a mudança da relação sujeito/objeto; a necessidade de construir um paideuma; a concepção de uma historiografia própria, na qual se inclui a revisão da literatura brasileira, com base na eficiência de certos procedimentos; a crise do verso; e a antidiscursividade” (Iumma Maria Simon).

Os poetas concretos propõem noções como “não linear”, “descontínuo”, “simultâneo”, “espaço”, e superam três correntes da crítica presente nos anos 1950: “o velho impressionismo baseado nas livres associações psicológicas dos intérpretes, como Sérgio Milliet; a crítica sociológica do grupo de Antonio Cândido, da revista Clima, dos anos 1940; e um início de new criticism norte-americano, trazido para o Brasil principalmente por Afrânio Coutinho.”

A poesia concreta, conforme Décio Pignatari, é “uma arte geral da linguagem, propaganda, imprensa, rádio, televisão, cinema, uma arte popular”; ela tem “a importância do olho na comunicação mais rápida, desde os anúncios luminosos até as histórias em quadrinhos”, e “a necessidade do movimento” numa “estrutura dinâmica”.

Como também exposto em Nova poesia: concreta (1956), lê-se que “a poesia concreta acaba com o símbolo, o mito, com o mistério, o mais lúcido trabalho intelectual para a intuição mais clara”, para “acabar com as alusões, com os formalismo nirvânicos da poesia pura, a beleza ativa, não para a contemplação”, porque, na poesia concreta”, “o poema é forma e conteúdo de si mesmo, o poema é”, e é “a ideia-emoção”,”faz parte integrante da forma, vice-versa, ritmo: força relacional.”

O poema concreto tem táticas e estratégias baseadas em autores como Joyce, Cummings, Kurt Schwitters, Mallarmé, Pound, Fenollosa, Webern, Cage, Paul Klee, Mondrian, Eisenstein, além de João Cabral de Melo Neto e da própria construção poético-crítico-construtiva dos poetas Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, pela vertente paulista, por exemplo.

Didático, o concretismo, conforme o Plano-piloto para a poesia concreta (1958) – pretende falar a linguagem de um novo tempo. Diante do horizonte técnico da sociedade industrial, dos novos padrões da comunicação não verbal, da linguagem publicitária, do out-door, do cartaz, o poema deve livrar-se da “alienação metafórica”, para ser projetado como um objeto em e por si mesmo, não um intérprete de objetos exteriores e/ou sensações mais ou menos subjetivas.”

Segundo Gilberto Mendonça Teles, “o nome poesia concreta exprime ao mesmo tempo a linguagem e a metalinguagem, produção crítica e teórica que informou grande parte da poesia brasileira das duas últimas décadas.”

O programa do poema concreto “aspira a ser: composição de elementos básicos da linguagem, organizados ótico-acusticamente no espaço gráfico por fatores de proximidade e semelhança, como uma espécie de ideograma para uma dada emoção, visando à apresentação direta – presentificação – do objeto.”

O poema-processo, por sua vez, faz ruptura com a história da Literatura, com a historiografia genérica, detona com a palavra como único meio de escrita, prioriza os signos não verbais, impõe-se como antiobra em regime work in progress, em que o poema é mesmo processo, portanto contínuo em suas leituras e propostas de invenção de séries que incluem o leitor como co-autor.

Propõe-se o poema-processo “espantar pela radicalidade”, ou seja, romper com o passado, eliminar a superficialidade da criação poética com a introdução de procedimentos técnicos das vanguardas, propondo a dinâmica nas estruturas. Segundo Moacy Cirne, um dos seus principais teóricos, o poema-processo não é poesia: “Desde sua origem (1967), sabe-se que o estágio poético, característico da poesia tipográfica (poesia concreta, inclusive), não lhe é próprio como referência intersemiótica. A poesia, em sendo subjetiva, com toda a sua carga de emocionalidade, não interessa ao projeto significante do poema-processo. A prática do poema-processo não leva em conta, portanto, a possibilidade abstrata da poesia: o poema-processo é o produto físico elaborado pelo poeta-artista.”

Para este poetautor, o poema-processo não é para-literatura, exclui a informação estética, redimensiona a informação semântica, é experimental, critica a ideologia, é uma intervenção semiológica, inscreve-se como produção cultural, dinamiza a relação produção/leitura.” É uma síntese com certeza referencial para se deglutir o poema-processo, não obstante poder-se questionar posicionamentos teóricos.

Enfim: o poema-processo é sempre um desafio de criação de linguagem matemática, de recepção pelo leitor/consumidor, de superação de sua matriz/origem/raiz/referência primordial, de estabelecimento de VERsões lógicas de contra-estilo posto que “contra o objeto único”; de experimentalismo semiológico, de “formação conjuntural”, de “operação das probabilidades” poéticas ou da “quantificidade do reprodutível”, da “produtividade com um sentido social fundado na prática” (WDP, 1982, p.98); de vanguarda que se supera a cada nova VER/são, de proposição de um código do futuro-já. E que, com a criatividade do poeta e os recursos eletrônicos, não tem limite, senão o de sua própria superação instantânea ante a leitura de cada receptor.

Esclarecimento importante: “O projeto, portanto, não é um provocador de versões (novos poemas); é um planificador de novos conjuntos de signos concretizados pelo mecanismo estético-informacional da obra” (WDP, 1982, p.96).

Flash – a vanguarda da vanguarda

Não se pode mensurar o livro-poema Flash, de Oskar Kelnner Neto, pelo que ficou somente da referencialidade das vanguardas históricas, uma vez que o poeta paulista-mineiro agregou experiências eletrônicas a uma obra work in progress como pouquíssimos lograram criar, sobretudo com resultados factíveis de leitura na pós-modernidade. Além deste diferencial, o experimentalismo kelnneriano inclui um revival consciente das vanguardas estético-pictóricas, sob influência de o poeta ser também artista plástico ativista, donde uma nítida influência cubo-futurista em seu trabalho, com participação vigente em salões nos quais, via de regra, arrepia comissões julgadoras, não obstante alcançar certa distinção por sua ousadia e criatividade que difere do academicismo premiado pela mesmice.

Oskar Kelnner Neto se supera a cada ciclo de criação, em cada VER/são poético-visual, fiel que é ao poema-processo quando já não se fala nem se admite mais rótulos de gênero ou classificações que pouco ou nada falam ao leitorado contemporâneo.

Contudo, justiça seja feita – e bem feita! – o poeta é merecedor de ampla visibilidade pós-moderna com o reconhecimento mais amplo possível de sua produção ao longo de 4 décadas, superando nesse interregno “estilos de época” que vão do concretismo, pós-concretismo, poesia visual ao poema-processo.

Entre outros que mantiveram essa produção coerente devem ser incluídos Erthos Albino de Souza, Philadelpho Menezes, Almandrade, Hugo Pontes, Joaquim Branco, Sebastião Nunes, Anchieta Fernandes, o próprio WDP, entre outros, e, em nível teórico, Jorge Luiz Antonio, por seu trabalho totalizante em função da poesia eletrônico-digital, Paulo Franchetti e Antonio Cícero – por exemplo.

Oskar Kelnner Neto manteve ao longo de sua trajetória poética a intenção de não apenas provocar o leitorado para o inusitado, o novo, como contribui, ainda hoje, para a consciência crítica de uma didEYEtica das vanguardas, mormente do poema processo. Seu trabalho, por isso, tem implícito um caráter pedagógico de ampla importância para que se (re)conheça nas vanguardas a evolução poética universal.

Flash é a síntese do seu experimentalismo e inventiva, tributo consciente ao pós-concretismo e ao poema-processo, mas também aos criadores pioneiros do grafismo-visual, do ideograma, das experiências verbivocovisuais, do “salto-conteudístico-participante”, do espanto pela radicalidade, dos ismos transgressores.

Nele, gráficos, VER/sões, desdobramentos, texturas, flexibilidades plásticas são linhas de ação do processo, construções de leitura para forçar o olho a ver com olhos novos, mais: força o olho a VLER.

Em "Relógicas" tem-se a máquina e o tempo em função do poema com uma clara intenção didática das VER/sões. Por analogia, natureza animal X mecânica temporal em que o dinossauro, o cão, o leão, a leoa, a cobra signam a lógica da finitude em questionamentos e transgressões.
Nesse módulo, “a imagem se mantém figurativa, mas no nível da informação ela se abstrata como se tentasse inventar uma nova grafia” (WDP, 1982, p. 70). “A memória [o tempo] é a comunicação do estilo: a informação situa-se no nível da linguagem eletrônica” (id.ib.) A máquina (o relógio) em função instrumental da leitura do poema (grafia figurativa) e do processo (lógica do novo).

Poema-livro – trans/posições, VER/sões onde não há necessidade da VER/são ideológica, mas da interação (leitura) do receptor (co-autor consumidor dos poemas). "Relógicas" vai justificar também, com Althusser, que “não existe leitura inocente.”

“Cerco e fuga” é um processo corrosivo do próprio processo enquanto código da linguagem. Nele tem-se o que WDP chama de “formação conjuntural” – alusão à revolução, liberdade como leitura do existencialismo, do relativismo, da tecnologia pós-industrial em que predomina a “ação combinada de forças sociais deslocada para setores da atividade cultural sem perda de sua eficácia estrutural, possibilitando uma leitura das somas e diferenças canalizadas pelo momento histórico” (WDP, 1982, p.86).

"20 Q" – re/VER/são da pedra no caminho drummondiana em contraponto às dificuldades da prática vanguardística; destruição do desafio cristalizado; fim do psicologismo poético; fusion de elementos materiais antecedendo os preceitos da metalinguagem.

"Tupamarologia" – um flash do desencadeamento do terror informacional: aporia da violência.

"TV" – crítica à massificação vidiota. O morcego como signo da usura visual (o que suga os olhos, o que cega a lógica do ver; constatação da alienação consentida e da vitrine do consumismo).

"Geometribo" – poema processo destacado por WDP como exemplar de “uma conjuntura intelectual dada”, em que há uma leitura [que] aglutinou outras experiências e outras exigências”, “implicando desdobramentos semiológicos próprios”

"O jogo dos mágicos" – crítica político-militar-ufanista com VER/são a partir do tradicional jogo lúdico-letrista da Forca.

"Claro enigma" – em 1951, CDA lançou o livro Claro enigma, divisor de águas na poética semântico-linguística brasileira. A VER/são kellneriana expõe a “didática fisiológica” dos atos prazerosos humanos.

"Hímen" – processo – uma defloração gráfico-visual.

"Gerações" – "Lindes imutáveis" – "Ecológica 1" – "O abutre" – "O beijo" – "O cura" – "Usina 1" – "O local" – "A telaquário" = sequências de VER/sões com os elementos básicos estruturais da poética de vanguarda de Oskar Kellner Neto: texturas gráficas, colagens, balões, geometrismos.

"Panopticum" – revival em processo da concepção de Jeremy Benthan, criada em 1785 para designar centro que vigia os prisioneiros todo o tempo, estendendo-se a vigilância à escola, hospital, fábrica, manicônio; termo adotado depois por M. Foucault (“Vigiar e punir”) e P. Lévy para justificar o possível controle humano através do meios de informação.

"Vegeteis" – "Totem 25" – "Totem 45" – "Totem 56" – fotopoemas.

"Potências" – crítica política à dominação hegemônica pelos Estados Unidos.

"Shock" – efeito da obra sobre o observador; tendência a tornar a arte objeto de consumo comum.

"A coroa e o rei" – VER/são de Obama rei do mundo, com poderio mantido em função da potência nuclear norte-americana; a leitura sado-cínica do poema evoca o poder dominando totalmente a consciência do poderoso cujo desfecho é o fim do mundo, na escla crescente do que presumiram J.F. Kennedy, R. Reagan, B. Clinton, W. Bush e outros.

"Duple" – "Cerebral' – "Digressão" – "Ilusion" – "Buraco negro" – "Replicante" – "Ofídica" – "Lortey" – "Gemália" – "Invasão" – "Liberdade" – "Lunar" – "Marchet" – "Frenteguerra" – "Avis sapiens" – "O cardume" – "Varmez" – "Nóseles" – "Libid" – "Féstil" – "Futree" – "Ovelhazul" – "Vertivitae" – "Puris" – série de VER/soes a cores, com elementos compósitos recorrentes às vanguardas históricas, poéticas e pictóricas, agregadas aos recursos virtuais do computador; leituras lúdicas, geométricas, fractais, estéticas, experimentais, livres e às vezes figurativas, em que os títulos são as chaves-léxicas e funcionam como matrizes de opções criativas para a opticalização do leitor/consumidor, toda ela (a série) sob o impacto da mutação contínua, em que o poema é fração, auto-superando-se e aberto ao experimento nas linguagens. Ou, com taxionomia de Philadelpho Menezes, a série exemplifica a organicidade gráfico-estatística por substituição sígnica (Menezes, 1991, p.70) e, acrescentaria, por aglutinação, justaposição, exaustão e VER/soes plástico-virtuais.

 

Titulo: Flash
Autor:  Oskar Kelnner Neto
Editora Clube dos Autores (2010)


Referências bibliográficas

FRANCHETTI, Paulo. Alguns aspectos da teoria da poesia concreta. Campinas: Editora Unicamp, 1989.

MENEZES, Philadelpho. Poética e visualidade – uma trajetória da poesia brasileira contemporânea. Campinas: Editora Unicamp, 1991.

WLADEMIR DIAS-PINO. Cuiabá: Catálogo, 1982.

*marcioalmeidas@hotmail.com